Um dia desses de agosto (mês em que este blog completa 10 anos!) disse, espontaneamente, no trabalho, que uma reunião presencial às 9:00 seria cedo para mim. Se a manhã começa em torno das 6:00, realmente a palavra “cedo” pode causar um certo espanto. É que ainda tendemos a achar que basta tomar um café da manhã, arrumar-se e se deslocar por uma distância razoável para chegar ao local de trabalho e ter toda a energia e a disposição para produzir, cumprir prazos, trazer ideias únicas, enfim, ser a melhor que podemos ser ali.
Acontece que, para a maioria, antes de o trabalho produtivo se iniciar, muita coisa já aconteceu. Nas grandes cidades, há pessoas que precisam passar uma, duas horas no trânsito. No meu caso, antes das 9:00, eu e meu companheiro já vivemos uma manhã inteira imersa no trabalho do cuidado. Tenho um filho de três anos e uma cachorrinha idosa que demandam muita atenção. Preciso dispensar, a ele e a ela, muitos cuidados: alimentação, higiene, remédios, passeios, brincadeiras, choros e consolações. E ainda preciso me cuidar minimamente. Afinal, precisamos estar bem para conseguir cuidar de quem depende da gente.
Na minha dissertação, muito discuti sobre como a entrada das mulheres das classes médias e altas no mercado de trabalho pressupôs uma necessidade de dissociação entre suas vidas públicas e privadas, o que escancarou a necessidade de redistribuição das tarefas domésticas. Dada a assimetria de gênero que existe entre casais cis-heterossexuais na família nuclear, obviamente esse trabalho recaiu, muitas vezes, sobre aquelas mulheres que, no Brasil, sempre trabalharam e que, se não fosse pelas redes informais de apoio e o Estado, em alguma medida, também não conseguiriam conciliar essas tais duas vidas.
Eu já cheguei a pensar que uma maior equalização da divisão das tarefas entre o casal, quando esse casal existe, pois há muitas outras configurações familiares, seria sempre uma boa saída. Mas, se os dois precisam trabalhar fora de casa, prover e ainda ter algum tempo para descanso e lazer, essa conta não fecha. Na verdade, criam-se duas pessoas sobrecarregadas, em vez de apenas uma hiper-ultra-mega sobrecarregada.
Penso que andamos, literalmente, na contramão daquele famoso provérbio africano segundo o qual, para se criar uma criança, é necessária uma aldeia. Em uma sociedade cada vez mais individualista, fomos afunilando as configurações familiares até chegarmos à busca pelo padrão da família nuclear e, dentro dela, ao exercício dos papéis de gênero impostos pelo patriarcado. Não há nada de natural em esperarmos que uma ou duas pessoas deem conta, praticamente sozinhas, de um trabalho que, em diferentes formas de organização da vida, foi e ainda é distribuído entre parentes, vizinhos, comunidades e outras redes de reciprocidade e solidariedade.
Ao longo da minha escrita naquela época, cheguei a um livro que me tocou muito: “Reengenharia do Tempo”, de Rosiska Darcy de Oliveira (2003). A autora nos mostra que a falta de tempo é algo produzido pelo capitalismo e que não adianta muito fazer redistribuições das tarefas dentro de casa, já que essa falta de tempo produzida é algo estrutural da sociedade.
Por isso, mudanças na sociedade como um todo são necessárias. Não tem mesmo cabimento acharmos que podemos disponibilizar nove, dez horas do nosso dia para o trabalho produtivo e continuar a negligenciar, relegar não apenas o trabalho reprodutivo, mas também os momentos de descanso, lazer e ócio, fundamentais para a nossa própria sobrevivência. Precisamos, urgentemente, parar de naturalizar ou mesmo celebrar o esgotamento e a exaustão como se fossem provas máximas de produtividade e merecimento.
O capitalismo nos oferece soluções para a falta de tempo, mas será que não precisamos nos perguntar por que a falta de tempo se tornou um dado, algo intangível, impossível de enfrentar? Muitas das soluções que nos são oferecidas apenas individualizam um problema que é estrutural. Compramos aquilo que nos promete economizar minutos, terceirizamos o que conseguimos terceirizar, procuramos maneiras mais rápidas de realizar aquilo que a vida exige. E não faço aqui qualquer julgamento sobre essas escolhas, pois, muitas vezes, elas são justamente o que torna a vida possível. A pergunta é outra: por que precisamos tanto delas?
Permitimos que aquilo que temos de mais precioso e que não tem volta seja de nós roubado, controlado: o nosso tempo aqui, o nosso tempo com quem amamos, o nosso tempo que deveria ser apenas nosso.
O capitalismo também elege, com muita facilidade, os corpos dignos de usufruírem de suas “benesses” e aqueles considerados descartáveis, inclusive matáveis. O corpo produtivo é celebrado enquanto consegue produzir, mas ele também precisa manter vivos os corpos que não produzem dentro dessa mesma lógica. Crianças, pessoas idosas, pessoas adoecidas, pessoas com deficiência: todos/as nós, em diferentes momentos da vida, dependemos e dependeremos de cuidado. E sabemos também que raça, gênero e classe nunca estiveram dissociados da definição de quais corpos podem descansar, adoecer ou envelhecer com dignidade e quais precisam continuar produzindo apesar de tudo.
Somos uma geração, para aquelas e aqueles que escolheram o caminho da maternagem e da paternagem, que precisará cuidar de crianças e também de mães, pais e outras parentelas que estão envelhecendo. Tudo isso na mesma época em que precisamos construir e consolidar carreiras profissionais, juntar dinheiro, adquirir patrimônio e pensar em uma forma de, em algum momento, conseguir parar. Aposentadoria?
Eu escrevia sobre divisão social e sexual do trabalho e cuidados em um momento em que ainda não tinha a certeza de que seria mãe. Por meio das “tiurias”, tentei me antecipar a muita coisa quando meu filho nasceu, mas tudo se torna não gerenciável e não controlável facilmente. Eu e meu companheiro escolhemos não pegar muitos “atalhos” na nossa forma de criá-lo, o que nos exige mais tempo e mais disposição. Por exemplo, escolhemos não oferecer chupeta quando ele era bebê, evitamos telas até hoje, optamos por cozinhar em casa e não comprar industrializados. Não digo isso porque considere nossas escolhas superiores às de outras famílias. Fazemos aquilo que tem sentido para nós, dentro das condições que tínhamos e temos. Mas elas também me fizeram perceber quanto tempo existe por trás de ações que parecem pequenas.
Não temos famílias próximas, então nossa rede de apoio sempre foi, unicamente, a creche e, depois, a escola. Acontece que, se ele amanhece com febre, se aparece uma doença, não dá para postergar o cuidado, diferentemente de uma reunião, de uma entrega, que eu posso, sim, adiar. O trabalho do cuidado foge a qualquer previsão em uma planilha de Excel. Não dá para fazer “checks”, não dá para se orgulhar da produtividade. Uma criança com febre não pode esperar até que eu termine o que estava fazendo. O cuidado exige o nosso tempo exatamente naquele momento. Ele é integral e imprevisível. E continua invisível, invisibilizado, muitas vezes menosprezado sem pudores.
Escolhemos, também, cuidar da nossa cachorrinha de uma maneira amorosa e dedicada. Hoje ela tem 19 anos e se tornou completamente dependente dos nossos cuidados desde que deixou de conseguir andar. Nesse meio tempo, decidi mudar de carreira dentro do serviço público. Hoje vejo novamente que o trabalho presencial todos os dias tende a ser incompatível com uma demanda tão grande de trabalho reprodutivo da vida.
E talvez seja justamente aqui que algumas leituras mais recentes tenham me feito retornar às antigas de outra maneira. Christina Sharpe (2023) pensa o cuidado como algo inseparável da possibilidade de continuar vivendo em um mundo atravessado pela violência e por seus vestígios. bell hooks (2021), por sua vez, nos lembra que o amor não precisa ficar aprisionado na esfera íntima ou ser compreendido apenas como sentimento. Quando envolve cuidado, responsabilidade, compromisso e reconhecimento, ele pode ser uma prática profundamente política e até revolucionária.
Talvez seja também por isso que o cuidado incomode tanto uma lógica organizada pela produtividade. Ele exige presença, exige tempo. Nem sempre pode ser acelerado, otimizado ou convertido em resultado. Há coisas que fazemos simplesmente porque alguém precisa de nós.
No serviço público, há muitos caminhos que podemos seguir. Passei em meu primeiro concurso com 24 anos e sempre quis ser uma boa servidora pública. Hoje trabalho com políticas sociais. Buscar dignidade e bem-estar para a população que mais precisa é o que nos norteia. Porém, ironicamente, esquecemo-nos de que também precisamos de atenção, pausas, limites e do reconhecimento de nossas próprias limitações.
É horrível ter a sensação de que as tarefas estão sempre atrasadas, de que coisas vão surgindo e se sobrepondo ao que já deveria ter sido feito, de ter que trabalhar em uma espécie de regime permanente de urgência e de normalizar que quem consegue “dar conta” merece parabenizações. Pior ainda é achar que falhamos por não termos dado conta de tudo, sendo que falhar deveria ser o mais esperado no meio de todo esse caos.
No fim do dia, em casa, deparo-me com duas pessoas exaustas, eu e meu companheiro. Mas nós ainda precisamos encontrar energia para o nosso relacionamento. No fim de semana passado, viajamos para um camping, que tem também muitas trilhas com cachoeiras. Lá, consegui dormir à tarde por 15 minutos e isso me deu uma sensação tão imensa de descanso que até agora celebro o feito. Porém, eu sei que isso não está certo. E talvez essa seja justamente a “não solução” deste texto.
Eu não sei como resolver individualmente um problema que não é individual. Posso fazer planilhas, organizar agendas, dividir melhor tarefas, usar a tecnologia, pedir ajuda quando ela existir. Posso tentar preservar alguns espaços meus e aprender, aos poucos, a não considerar descanso um prêmio recebido depois que tudo estiver terminado, até porque tudo nunca está terminado. Mas nenhuma dessas escolhas altera a estrutura que tornou a falta de tempo uma condição quase inevitável da vida adulta.
Aí eu penso que a gente tem mesmo que começar a fazer algumas recusas. Recusar chamar exaustão de competência, recusar transformar a capacidade de suportar o insuportável em medida de valor, recusar tratar o cuidado como aquilo que fazemos no “tempo livre”, recursar a ideia de que depender de alguém seja uma falha, quando a dependência faz parte da própria experiência de estar vivo.
Se é necessária uma aldeia para criar uma criança, talvez precisemos voltar a construir aldeias, ainda que por novas facetas, dentro das limitações que nos foram impostas. Podem elas se surgir na forma de redes, de políticas públicas, de novas relações de trabalho e outras formas de organização da vida que devolvam ao cuidado seu caráter coletivo. Porque o tempo que dedicamos ao cuidado não é um tempo que desapareceu: ele sempre sustentou e sustenta alguma vida, inclusive a nossa própria.