Foto: Spirit Fanfics e Histórias

Hoje é um dia cinzento e triste. Só que eu não posso ficar “de luto”. Há algum tempo, luto, para mim, é somente verbo.

Resistência, palavra feminina.

“Tenho muitas coisas para fazer” hoje, a minha cabeça está cheia.

“Minhas lágrimas escorrem e secam, sozinhas”. Mas eu sei que elas poderiam ser enxugadas por milhões que estiveram comigo.

Essa é uma guerra de palavras, de ideologias.

É uma guerra de mentiras, mentiras que, repetidas inúmeras vezes, tornaram-se verdades.

É, de novo, uma guerra em nome de “Deus”.

São os cristãos mais anti-Cristo que já conheci.

São tantas mulheres oprimidas que reproduzem o machismo e odeiam a si mesmas.

São tantos negros e tantas negras que não puderam se empoderar.

São tantos trabalhadores e tantas trabalhadoras que escolheram perder os seus direitos para ganhar um churrasco.

Só que essas pessoas não concordam comigo. Elas vão me mandar trabalhar. Vão me chamar de comunista e vão querer que eu me exile na Venezuela ou em Cuba.

Eu não vou me assustar, é uma retórica antiga.

Eu não vou debater.

Não há mais diálogo, há a pretensão do extermínio de quem pensa diferente.

Mas não vou me abater.

Nem vou passar a viver uma vida medíocre de classe média, achar que, só porque tenho alguns privilégios e algum dinheiro, nada irá me afetar e, aí, está tudo bem.

Não, eu nunca vou me calar.

Essa é uma guerra em que todas e todos saem perdendo.

Não existe, aqui, uma parte vitoriosa: escolher um salvador da pátria, incontrolável, que se diz insubstituível, narcisista e demagogo, foi como cavar a própria cova.

Por que lutamos contra nós mesmxs? Por que queremos sempre estar ao lado do opressor? Por que, em nome do ódio a um partido, adotamos um discurso de ódio para ser o lema de um governo, de uma nação?

Onde foi que nós erramos?

Isso pode nos dar forças para recomeçar.

O que vivemos é a era da pós-verdade. Verdades são mentiras que, de tanto pronunciadas e reproduzidas, viraram a verdade única e absoluta.

Não é a verdade descrita no Evangelho de João, profanado ontem. Esta era uma verdade de redenção, de acolhimento, de humildade, de integração. É o contrário do que vem fazendo. Essas pessoas, que pregam a maldade e a desumanização de seus semelhantes não terão o seu cantinho garantido no céu. Fazem parte de um grupo desprezível, ao mesmo tempo, de uma fácil leitura: é sempre o nós contra eles.

Quero ser pragmática, acreditar na divisão dos três poderes, acreditar que os movimentos sociais têm tudo para se fortalecer, que a esquerda vai se unir, mesmo que tentem nos aniquilar.

Só que quantas vidas serão necessárias para mantermos os nossos direitos fundamentais, coletivos e sociais?

Quanto tempo será necessário para desfazer um retrocesso de 50 anos?

Teremos de ser vigilantes. Vigilantes pela democracia, vigilantes pelos nossos direitos. Os que foram conquistados e os tantos que ainda devemos conquistar.

Ao contrário do que vociferam nas redes sociais, nós aceitamos o resultado. Não aceitaremos que ceifem nossos direitos, que aniquilem as minorias, destruam o meio-ambiente, acabem com a cooperação Sul-Sul.

Se não sabem viver o jogo democrático, que pressupõe a oposição, é uma prova de que tempos sombrios, de autoritarismo e arbitrariedades, virão por aí, sempre com o aval de quem está na base da pirâmide social, mas pensa que está no topo.

Política não é lugar para amadores, ainda mais após o juramento a uma Constituição garantista e com normas programáticas. Há muito a ser cumprido, muito mais do que a ser desfeito.

Se realmente passarem a negar e a ferir a nossa existência, seremos, cada vez mais, a resistência. E, amanhã, seremos a transformação.

Marielle semente

Marielle, presente.

 

29/10/2018

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