Foto: Belicosa (Créditos)

Quase sempre morei na região central de BH, por isso era possível ir para a escola e fazer minhas outras atividades a pé. Com uns 9 ou 10 anos comecei a andar na rua sozinha para algumas atividades e foi assim durante toda minha adolescência. Desde que tirei carteira de motorista há 5 anos passei a andar bem menos, mas recentemente voltei a andar a pé e de ônibus no dia-a-dia. E isso me fez reperceber o quanto nós mulheres somos assediadas diariamente e relembrar alguns assédios que ocorreram quando eu ainda era criança.

A campanha #meuprimeiroassédio me fez lembrar o que já ocorreu comigo, mas na época não me senti à vontade para descrevê-lo no Facebook. Agora, relembrando os primeiros assédios, vou contar algumas coisas que já vivi/sofri.

O primeiro assédio que lembrei hoje, não foi na rua, mas na escola, na primeira série (quando as crianças tinham entre 6 e 8 anos). Andando no pátio, percebi que alguém encostou na minha bunda, olhei para trás e vi um coleguinha de sala rindo. Não compreendi a situação, com meus 7 ou 8 anos não entendia o objetivo de pegar na bunda de alguém. O riso do menino era malicioso, mas eu não entendia malícia na época. Achei esquisito, mas não fiz nada. Nos próximos dias a situação se repetiu mais algumas vezes. Até que um dia na aula uma menina disse para a professora que esse Fulano tinha passado a mão na bunda dela e outra menina, e mais outra, e eu, e sei lá quantas disseram que ele tinha feito o mesmo com elas. A professora assustou um pouco, disse que era muito errado, que a gente poderia tascar um tapa na cara dele, que isso não se fazia. Ela nos autorizou a reagir fisicamente se isso acontecesse de novo. Corta para eu contando isso em casa para os meus pais. O menino era meu vizinho de prédio também, ou seja, meus pais conheciam de vista e tinham acesso fácil aos pais dele. Lembro que meu pai achou a situação um absurdo, disse que se acontecesse de novo era para eu reagir, contar para a professora, enfim, que aquilo era muito errado e exemplificou que se ele passasse a mão na bunda da mãe do menino o pai do menino não ia gostar né. Acho que o menino não pegou mais na bunda de nenhuma coleguinha e a situação ficou por isso mesmo.

Pensando agora, como assim??? Esse menino tinha no máximo 8 anos, ele não teve sozinho o impulso de pegar na bunda de nenhuma menina. Alguém ensinou isso a ele, um primo mais velho, um filme, alguém! Como assim não houve nenhum diálogo com os pais dele? A professora se limitou a passar um sabão no menino e pronto. Mas ela tinha que ter chamado os pais para conversar, o garoto precisava que o questionassem sobre quem o ensinou aquilo, que o ensinassem que é errado pegar nas partes íntimas de qualquer pessoa sem autorização dela, que, aliás, com 8 anos também não era para ninguém autorizar nada e que ele tinha que respeitar as coleguinhas. Se fosse hoje, eu, no lugar dos meus pais, não pensaria duas vezes antes de tocar a campainha do vizinho, não para brigar nem fazer um barraco, mas para ter uma conversa de pais para pais. Talvez eles nem sonhassem que o filho deles estava assediando coleguinhas e eles precisavam saber. Não culpo a professora, nem meu pai, por não terem problematizado mais a situação. Ainda que indignados, eles não souberam o que fazer. Porque na nossa sociedade machista, não se costuma conversar com os meninos sobre respeito às mulheres, se costuma, no máximo, incentivar as meninas a reclamar e reagir. E lembrando disso agora, fica mais claro para mim porque algumas crianças que sofrem abuso sexual não correm, não contam para ninguém: porque elas não entendem o que está acontecendo! Se eu que tive a mão de um coleguinha da minha idade, menor que eu, na minha bunda não entendi o que estava acontecendo e não reagi apesar de achar estranho, imagina uma criança que sofre abuso por parte de um adulto em quem ela confia, que vai manipulá-la para que ela fique calada?

Corta para o meu primeiro assédio na rua, e agora eu estava com 10 anos provavelmente. Depois que eu fiz a primeira comunhão, eu costumava ir à missa domingo 10 horas da manhã sozinha. A Igreja fica a 2 quarteirões da minha casa. Eu lembro que tinha um certo medo de andar na rua essa época, mesmo o trajeto sendo curto, acho que eu tinha medo de assalto, porque já havia sido assaltada junto com meu pai uma vez. Esse dia eu estava andando com aquele receio normal, a rua vazia, e eu percebi que vinha um moço na direção contrária e fiquei aliviada por ter alguém na rua. Um moço normal, poderia ser meu tio, de camiseta, bermuda e chinelo no domingo de manhã caminhando com algumas sacolas de compras. Um moço de quem a princípio eu não tinha nenhum medo. Mas ao se aproximar, o tal moço virou para mim e disse “linda!”, daquele jeito que nós mulheres sabemos bem quando ouvimos. Nem sei descrever o quanto fiquei com medo! Até então, “linda” para mim era um elogio que eu ouvia do meu avô, dos meus tios e tias, das amigas da minha mãe, das minhas professoras: “Luíza é tão bonitinha!” “Sua filha é linda!” “Que olhos lindos!” “Que gracinha!”. Mas com 10 anos “linda!” de um desconhecido na rua não gerou um “obrigada” tímido comum de toda criança que recebe um elogio de um adulto, gerou medo. E gerou medo porque não era elogio, era assédio. Eu sempre fui alta para minha idade e com 10 anos eu já devia ter a altura de muitas mulheres adultas baixas. Mas eu também era bem magrinha e não tinha corpo de mulher desenvolvido, e eu lembro bem que a roupa que eu estava usando era infantil: uma calça azul lápis de cor com uma blusa verde limão com uma estampa de florzinha branca no meio e com alcinhas azuis lápis de cor combinando com a calça. E eu estava indo à missa. NÃO. PÉRA. Por que eu estou explicando como era meu corpo? Como era minha roupa? Para onde eu estava indo? O meu uniforme da escola, camiseta azul clara com bermuda larga azul escura também era bem infantil e se com 10 anos eu era menina, com 8 mais ainda, e se ir à missa era um programa comportado, ir à escola mais ainda! Não tem nada a ver com atração física -com provocação muito menos- tem a ver com assédio, desrespeito, objetificação da mulher, objetificação da menina.

O assédio do coleguinha eu não lembro se deixou algum trauma, mas o assédio do homem adulto na rua eu lembro bem que deixou. Eu passei a ter medo de homens na rua. (Uns dirão “criança tem que ter medo mesmo de desconhecidos, isso ajuda a protegê-la”. Mas eu digo que o que ajuda a proteger essas crianças não é ensiná-las a ter medo, mas ensinar os adultos a não causar-lhes medo.) Com 10 anos, não lembro como aprendi, eu já sabia o que era estupro, e começou ali o medo de eu ser estuprada (medo esse com que a maioria das brasileiras convive diariamente). Tanto fiquei com medo, que um dia estava no ônibus com minha mãe e tinha um moço vendendo balas. Um rapaz que estava sentado perto de nós comprou duas balas e me deu uma na frente da minha mãe, minha mãe sorriu e agradeceu. Mas eu peguei a bala e fiquei com medo. Acho que esse rapaz do ônibus só quis mesmo ajudar o vendedor de balas e talvez ele não gostasse de doce e foi simpático com a primeira criança que ele viu. Mas eu tinha aprendido a temer homens adultos desconhecidos, por que eles não mais me olhavam com um olhar de “que gracinha!”, mas com um olhar de “linda!”. E eu tinha uns 10 anos. E fica claro agora como é um medo silencioso que nós mulheres sofremos. Eu não contei da situação para ninguém, eu também não aproveitei a situação do ônibus para falar com minha mãe que eu tinha ficado desconfiada da boa vontade de homens adultos. Eu fiquei com medo e fiquei calada.

E a sociedade vai te ensinando a ficar calada mesmo, ou a se acostumar com os elogios. Nessa mesma época, ainda com 10 anos, eu estava voltando da aula de vôlei com minha mãe e no caminho temos que passar na frente de uma escola. Algum menino dentro da escola gritou alguma cantada que eu não lembro qual foi. E minha mãe me disse algo como “olha, você já está sendo cantada, filha”. Mas depois o cara gritou algo como “oh de vermelho, [insira a cantada]” e só minha mãe estava de vermelho. Aí ela disse algo como “ah por enquanto ainda é comigo, mas vai acostumando que daqui a pouco vai ser com você”. Fiquei com medo. Lembro que minha mãe disse essas coisas sorrindo, de forma leve, não como quem estava de fato lisonjeada com o elogio, mas como alguém que estava acostumada, que também não se incomodava, que aprendeu que isso era normal. E que agora, em meio à cultura do estupro que contamina a sociedade em que vivemos, estava automaticamente transmitindo para a filha que era normal ouvir cantadas na rua.

Corta para quando eu tinha uns 13 anos. Estava parada na portaria do meu prédio ao entardecer, esperando minha tia passar de carro para me buscar. (Dirão que isso aconteceu porque eu estava parada em uma rua deserta e perigosa, mas eu moro na zona sul, em um bairro não muito violento, minha rua é movimentada, tem padaria e banca de jornal na esquina e ainda estava claro!). Passou por mim um rapaz, andando na rua, e parou logo adiante, pensei que ele estava esperando alguém. Eu estava distraída, nem o observei. Percebi que ele estava mexendo, eu distraída nem olhei. Não satisfeito por eu não ter reparado, ele parou na minha frente com a calça aberta masturbando o pênis ereto. Que susto! Como assim?! Eu andei alguns metros até o final da fachada do meu prédio de onde dá para ver a janela lateral do meu apartamento e chamei minha mãe pedindo para ela ligar para minha tia e saber se ela já estava chegando. Aí vi que o cara veio atrás de mim! Sim, ele andou alguns metros à luz do dia, em uma rua residencial segurando o pênis fora da calça. Eu dei uma corrida, voltei até a portaria, ele me seguindo se masturbando, mandei ele tomar no c*, entrei no prédio e fechei a porta. Alguns vizinhos estavam descendo e ele deve ter ido embora. Contei para minha mãe, ela se assustou. Achou ruim por eu ter falado palavrão e por eu ter ficado na rua esperando minha tia, ao invés de esperar dentro de casa. Minha tia, depois meu pai, as pessoas para quem eu contei, acharam a situação absurda também, mas ninguém pensou em fazer uma ocorrência, em conversar com o segurança da rua. Ouvi vários conselhos para sempre esperar alguém dentro de casa. Uma amiga para quem eu contei, comentou com o tio dela e ele disse que isso é bem comum de acontecer no centro da cidade. Depois eu e minha amiga rimos. Algum tempo depois disso, essa amiga junto com outras meninas passou por uma situação parecida: estavam andando a noite (noite, mas era tipo 20hrs) na Savassi e foram pedir informação para um homem, quando perceberam, ele estava olhando para elas e se masturbando.

Corta para 2015. Eu estava indo a pé encontrar uma amiga. Percebi que um senhor que vinha na direção contrária caminhava de modo a passar bem do meu lado. Já sabia o que iria acontecer. Ele disse “lindona!” e eu gritei um sonoro “vai tomar no c*!”. Ele ficou ofendido. Eu continuei andando e rindo, me sentindo libertada por ter colocado para fora minha raiva. Encontrei a minha amiga, contei a situação para ela, conversamos um pouco sobre isso, eu tinha sorrido, mas estava indignada. Ela comentou de alguns casos que ela mesma já sofreu e do irmão dela (bonito, graduado, vinte e tantos anos) que muitas vezes dirigindo, com ela do lado, mexia com mulheres na rua. Ela disse que xingava ele, pedia para ele respeitar ao menos a presença dela. Eu emendei que ele devia respeitar as mulheres que ele estava cantando também, tratando como se fossem pedaços de carne. Mais tarde contei o ocorrido para o meu namorado, ele me entendeu, mas achou ruim eu ter gritado um palavrão no meio da rua. Depois disso, inclusive, algumas vezes, me elogiando, meu namorado disse “lindona” e eu o pedi para não me chamar assim, que me remete não a um elogio do homem que eu amo, mas ao assédio de um desconhecido na rua. Meu namorado aprendeu a não dizer “lindona” para mim. “Lindinha” pode, talvez só até o próximo assédio. Assédio transformando palavra de elogio em ofensa.

Um dia estava conversando com meu namorado e ele comentou que há alguns anos ele tinha o hábito de sair de madrugada para correr. Ele morava perto de uma praça e, se estivesse sem sono, ia lá correr, era ótimo. Até que a mãe dele descobriu e o proibiu de fazer isso. Eu ri “Claro que ela proibiu, amor! Que perigo você sair sozinho de madrugada para correr!”. Ele respondeu rindo “Eu não levava carteira, não levava celular, não tinha nada para me roubarem, o que poderia acontecer?”. Faz sentido. Mas sendo mulher o medo é bem outro. Meu medo de ser roubada é mínimo perto do medo de ser estuprada.

Outro dia estava com meu namorado e um casal amigo conversando sobre isso e comentei esse caso das corridas do meu namorado. Meu amigo disse que era um pouco ilusão a gente achar que um dia seria seguro para mulheres correrem sozinhas na rua de noite. A namorada dele comentou que não ia nem à padaria DE DIA a pé, porque ficava extremamente desconfortável com os assédios que ouvia. Eu concordei com ele que era um pouco utópico, mas enfatizei que a gente não podia se conformar.

Como disse, estou andando de ônibus quase diariamente (e consequentemente caminhando até o ponto) e cada dia é uma agressão verbal diferente. Ainda bem que é “só” verbal! É muito assédio disfarçado de elogio, do tipo que se você não olha ou retruca o cara fica ofendidíssimo! “Mal educada! Estava só elogiando”. Algumas vezes retruquei a grosseria, foi libertador! Mas há algumas semanas me deparei com a notícia de uma mulher que retrucou uma cantada que levou. O cara, ofendido, bateu nela. Muito. Espancou-a para ser mais exata. Ela foi para o hospital. Grave. Ficou dias internada. Faleceu. Machismo mata. Tenho me contido a retrucar cantadas. “Cantada não é elogio”. Precisamos falar sobre assédio.

Gostaria de deixar bem claro que não julgo nenhum dos meus amigos e familiares que citei. Amo todos s2. Mas nossa sociedade não sabe falar sobre assédio. Não sabe ensinar os homens a respeitarem. Não sabe dar voz às mulheres. Precisamos fazer diferente. Quero caminhar na rua sozinha sem ser agredida verbal e/ou fisicamente só porque sou mulher, e porque muitos homens acham que meu corpo está aí para ser cobiçado por eles. Não está.

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