Foto: A vida numa goa

Pretendo começar uma discussão sobre a opressão que nós mulheres sofremos em relação à mística da beleza feminina. A grande inspiração para a série de artigos que pretendo escrever é o livro de Naomi Wolf, “O mito da Beleza”. Nesse livro, Wolf relata que, apesar de as mulheres terem conquistado autonomia e independência em várias esferas da vida, como no campo profissional ou no sexual, principalmente após a segunda onda do movimento feminista, a partir de década de 70, a beleza continua sendo um instrumento político utilizado pela sociedade machista e patriarcal para manter o domínio sobre o gênero feminino.

Tenho pegado o ônibus para ir ao trabalho esses dias. Passo pela Rua do Catete, na qual há um grafite maravilhoso da maravilhosa Pamela Castro, com os dizeres “Toda Mulher é Linda”. Porém, quantas mulheres têm realmente esse sentimento em relação à sua aparência? Quantas mulheres realmente se sentem plenamente bem com seus corpos, suas feições, seus cabelos?

O padrão de beleza feminino imposto às meninas, desde bem novas, é cruel. É algo impossível que nos adequemos, apesar de já termos a consciência de que vamos passar todo o curso de nossas vidas em busca dele.

A diversidade é o que menos conta no padrão, e é o que mais existe entre nós, mulheres. Somos tantas, somos únicas e somos, à nossa maneira, lindas. Porém, ao colocar, por exemplo, no Google, “mulher bonita”, nos deparamos claramente como o padrão que uma mulher deve se encaixar para ser digna de merecer ser chamada de bonita: branca, magra, olhos claros, e de preferência, loira. Confesso que não vi, entre as primeiras fotos, nenhuma mulher negra. Qualquer “gordurinha” a mais, o que significa, qualquer corpo normal ou natural de uma mulher, também não entra no ranking.

As mulheres sempre foram definidas e rotuladas com base em sua aparência física. Não importa o que somos em nossa essência, os trabalhos que desenvolvemos profissionalmente, voluntariamente, artisticamente. Simone de Beauvoir, quando foi tema de redação no ENEM, não foi criticada maduramente por suas obras, por suas teorias filosóficas, mas sim, por sua aparência física, por sua vida pessoal, sexual. Com certeza, seu companheiro e parceiro intelectual Sartre não escutaria críticas sobre seus óculos fundo de garrafa, sobre sua baixa estatura, sobre seus cabelos arrumados de forma bastante estranha.

Ser feminista é estar em desconstrução a cada dia, a cada momento. É um exercício constante, e, às vezes, somos pegas reproduzindo as mesmas opressões as quais lutamos para que desapareçam. Ao ver a foto da ex namorada do boy magia, eu não acreditei, mas eu me “senti bem”. Eu me senti bem por não achá-la bonita, por me achar mais bonita que ela. De alguma forma, me achei no direito de julgar sua aparência física, e de defini-la somente quanto a isso. Eu fiz aquilo a que mais me oponho na sociedade patriarcal. Eu estaria em uma posição melhor por me achar fisicamente mais bonita? E, será que me satisfaria ao pensar que ele está agora comigo, com base somente nesse atributo? Somente naquilo que a sociedade julga importar em uma mulher?

Mesmo quando ele havia me dito sobre tantas qualidades que ela possuía… Uma inteligência extrema, uma carreira profissional admirável, um ótimo caráter?  E, a única coisa que eu consegui enxergar, levar em consideração, foi a beleza. É condenável reduzir as qualidades de uma mulher apenas à beleza física, pois somos muito mais que isso. As qualidades que a ex do boy magia possui são aquelas que mais gostaria que o mundo enxergasse e valorizasse em uma mulher. E que, com certeza, faz com que ela seja bonita – a beleza é um conjunto de fatores, de atributos, nunca é uma coisa só.

A beleza em uma mulher é muito mais exprimida em sua liberdade, em sua emancipação, em sua originalidade, em sua completa ausência de qualquer padrão.

Pretendo desvendar toda a angustia que nos consome quando estamos inseridas em uma sociedade que não obstante nos inferiorize por conta do gênero, nos passa a ideia de que até poderemos ser, de certa forma, “aceitas”, se correspondermos aos padrões de beleza impostos pelo gênero masculino, os quais existem somente para satisfazê-los. Somente para que nunca possamos nos sentir plenas, pois nunca seremos boas os suficientes enquanto não nos encaixarmos nesses padrões. Somente para que permaneçamos com a autoestima lá embaixo, o que contribui para aceitarmos, por exemplo, qualquer migalha de atenção em um relacionamento, pois, a qualquer momento, poderemos ser “trocadas” por uma mulher “mais bonita” e “mais jovem”. Somente para mantermos a indústria da beleza como uma das mais lucrativas do mundo e, assim, dispormos de grande parte de nossos salários, como se fosse uma grande obrigação. Somente para acordamos todos os dias e pensarmos que temos que começar dietas malucas para perder 1 ou 2kg, exatamente quando os alimentos a que mais temos acesso, nos dias de hoje, são tão mais calóricos, tão mais açucarados, tão mais gordurosos.

Espero conseguir cumprir essa missão, ainda que o tempo tenha se tornado mais escasso, por conta de trabalho, estudos e a vontade danada de explorar as maravilhas do Rio de Janeiro.

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