A liberdade sexual talvez seja um dos assuntos mais controversos, no campo do movimento feminista, para mim.

Antes de qualquer coisa, penso que a liberdade sexual se refere tanto à vontade de fazer sexo, quando e com quem bem entender (o que chamarei de liberdade sexual positiva), quanto à opção por não fazer, e fazer valer esse NÃO (o que chamarei de liberdade sexual negativa).

Lembro que, quando comecei a me identificar com o feminismo, ainda na faculdade e, nesse momento, eu havia optado por não me relacionar amorosamente com ninguém, um colega falou: mas se você é feminista, por que se esconde nesse monte de roupa? Não fica com ninguém, não sai de casa? É assim que você quer divulgar o feminismo??

Bom, naquele época, eu apenas ri e tentei dizer que é exatamente esse conceito de liberdade que o feminismo prega: de a gente se sentir realmente livre para fazer somente aquilo que queremos e que achamos que nos vai fazer bem: isso inclui usar a roupa que faz com que nos sintamos plenas e divas, que podem ser curtas ou longas; relacionar-se seriamente com alguém, com várias pessoas ao mesmo tempo, ou, simplesmente, não se relacionar.

Daí, também consigo encontrar mais dois erros e duas interpretações desviadas, comumente associadas ao feminismo:

  1. Feminista tem que mostrar o corpo!

Mas por que mostramos nossos corpos em passeatas e em protestos, por exemplo? Porque queremos, exatamente, excluir tamanha objetificação em torno dos corpos femininos, que leva à extrema sexualização desses mesmos corpos e o que é, justamente, o respaldo para o estupro e o assédio. Talvez, a gente queira apenas mostrar que o corpo feminino não é livre no sentido de poder ser apossado, nem ser representado em mídias de maneira hipersexualizada. Que nossos seios, quando amamentam uma criança, não precisam ter qualquer tipo de conotação sexual! E aquela velha história, que nem mesmo o machismo compra mais: pouca roupa não é, nunca foi e nunca será a “causa” de um estupro ou de um assédio.

  1. Feminista (toda mulher, na verdade) tem que dar pra todo mundo e isso é sinônimo de busca pela “igualdade” em relação aos homens.

Bom, a começar, dar pra todo mundo, poligamia e infidelidade sempre foram características associadas ao sexo masculino, na maioria das vezes, de maneira não condenável. A busca pela liberdade sexual positiva da mulher vem contrapor séculos de opressão nessa esfera da vida, como acontecia, e ainda acontece, em casamentos forçados ou infelizes e desrespeitosos, por parceiros infiéis, violentos, agressivos; pela impossibilidade de a mulher se desvencilhar desses relacionamentos, mesmo por vias legais, já que divórcio é algo bem recente em nossa legislação; e, principalmente, devido à clássica divisão: mulher casta, para casar e mulher puta, para transar.

Dessa forma, essa liberdade sexual não tem que ou mesmo não pode se assemelhar ao conceito difundido no que tange à liberdade sexual do homem. Agora, vou escrever coisas que são a minha tão somente opinião, mas que podem elucidar algumas controversas que pairam sobre esse assunto.

  1. A liberdade sexual positiva veio com a premissa de que apenas nós mulheres é que deveríamos utilizar métodos contraceptivos e que seríamos as responsáveis pela gravidez indesejada.

A responsabilidade de gerar uma criança é igualmente dividida entre duas metades… Mas, ainda hoje, as mulheres são tidas como as únicas ou as maiores responsáveis para que isso (de engravidar!) não aconteça. Na década de 60, as indústrias farmacêuticas criaram aquilo que, de fato, revolucionou a atividade sexual da população mundial. Dava para fazer sexo, com um bando de gente, sem se preocupar em gerar filhinho… Só que à custa da nossa saúde, do nosso bem-estar, da nossa vida. Os anticoncepcionais aquela época eram muitos mais “fortes”, com diversos efeitos colaterais e que geravam risco de morte para quem os consumia. Atualmente, mesmo com o avanço da medicina, tomar anticoncepcional é um trade off, e a gente usa sabendo que podemos ter consequências graves, como tromboses, coágulos, morte, e, também, efeitos colaterais que soam mais brandos ou até imperceptíveis, mas que existem, como aumento da oleosidade da pele, retenção de líquido, mudanças de humor, estágios de depressão.

Depois, surgiram novas Doenças Sexuais Transmissíveis incuráveis, que só os métodos contraceptivos físicos são capazes de evitar o contágio. Porém, qual mulher nunca se relacionou com um cara que, se ela não lembrar, ou não comprar camisinha, ou não exigir, ele não vai usar? Dessa forma, além de sermos responsáveis pelo método que evita a gravidez, também o somos por aquele que evita as doenças! É muita responsabilidade em apenas um ser, em relação a algo que depende de duas (ou mais) pessoas, no qual todo mundo envolvido pode passar pelas consequências: ser papai ou pegar uma doença.

Assim, concluo, nesse primeiro ponto, que a outra liberdade, a de fazer sexo com várias mulheres, com profissionais do sexo, fora de relacionamentos, extraconjugais, sem qualquer preocupação com qualquer coisa, que sempre foi vivida pelo homem, nunca se assemelhará àquela que quer parecer com essa, só que é vivida pelas mulheres.

2. A liberdade sexual positiva veio antes de que as mulheres passassem a conhecer o próprio corpo e a buscar o próprio prazer.

Vejam bem, não é raro encontrar, pela internet adentro, depoimentos de mulheres que achavam que viviam uma liberdade sexual plena, mas que nunca sentiram um orgasmo sequer nesses encontros sexuais.

Muitas dizem que achavam que eram livres, porque não negavam sexo, queriam a todo momento, sem frescuras ou firulas: poderia ser no primeiro dia, poderia ser só uma vez, poderia ser com quem nem sabiam o nome, e que sexo era isso aí: não negar uma vontade, ainda que alheia! e estar ali para dar prazer ao homem, sem que percebessem que o anormal é quando a mulher não sente prazer em uma relação sexual, não o contrário.

Encontros sexuais aleatórios, da mesma forma que podem ser ótimos, podem ser, também, muito frustrantes. Sem uma maior intimidade, não dá para saber o que realmente a pessoa gosta. Junte a isso, o fato de nem mesmo a mulher saber como ela sente o seu próprio prazer. Às vezes, a preocupação é tanta, para que o homem saia satisfeito, que muitas mulheres se submetem a práticas que não desejam, só porque acham que estão agradando.

Muitas vezes, o homem também não está nem aí se a mulher está sentindo prazer. Tantas vezes, eles fazem coisas que a mulher pode horrorizar, como uma vez que li sobre uma menina que saiu com um carinha do Tinder e ele ficava chamando-a de puta durante todo o ato sexual. Ela pediu para que ele parasse, mas ele nem deu ouvidos.

Nós, mulheres, fomos educadas para sermos passivas em todas as esferas da vida, e isso inclui o sexo. Na passividade, além de o prazer feminino ser subestimado, as mulheres não são incentivadas a buscá-lo, tanto sozinhas, conhecendo o próprio corpo, como nas relações sexuais, e podem ser, ainda, condenadas moralmente se possuem “ares de dominação” com seu parceiro. Só que é muito difícil sentir qualquer prazer quando se fica passiva em uma relação sexual.

Por fim, somos ensinadas a pensar que uma relação será boa e completa quando o homem atingir o seu prazer, e achamos que é o normal e o suficiente. Portanto, essa liberdade torna-se uma falsa liberdade, e nossos corpos permanecem no status de objeto sexual alheio. Permanecemos alheias ao nosso próprio prazer.

3. A liberdade sexual feminina permanece falaciosa na medida em que ainda estamos completamente presas a padrões de beleza e aos valores morais do machismo e da sociedade patriarcal.

A meu ver, nós só conseguimos viver uma sexualidade cabal e saudável quando, além de nos conhecermos muito bem, sabermos o que nos dá mais prazer, o que gostamos e o que não gostamos em uma relação sexual, e que não devemos ficar passivas e nos preocuparmos só com o orgasmo masculino, estamos nos sentindo bem com nós mesmas, quando nos amamos, amamos o nosso corpo.

É impossível se entregar plenamente em uma relação sexual quando nos importa mais saber se o cara vai notar uma celulite; se achamos que estamos acima do peso e isso é erradíssimo; se o nosso corpo não está correspondendo ao padrão midiático photoshopado; se não dá pra acender a luz, senão o carinha vai ver os nossos “defeitos”; se a gente tem que se conter para manter a máscara da “pureza” e da “castidade”; se gente se preocupa se o homem vai nos julgar depois, comentar com os amigos, colocar nas redes sociais, o que aconteceu em momentos tão íntimos (já li uma denúncia feita por um grupo feminista sobre homens que estavam descrevendo completamente as relações sexuais que mantinham com mulheres que conheceram no Tinder).

Essa sociedade depende da nossa insegurança e do ódio a nós mesmas para manter seu status quo. Segundo Naomi Wolf (1991), nós conseguimos nos tornar independentes em vários campos da vida, o profissional, o financeiro, até o sentimental… Mas no que tange à autoconfiança, à autoestima, ao amor próprio, permanecemos dominadas e presas às rédeas do patriarcado. A dominação pela beleza é, portanto, uma dominação que não deixa de ser política. Como viver uma vida sexual livre quando há tantas amarras das quais temos que nos desprender?

4. Por fim, esse conceito de liberdade sexual ainda está muito restrito às mulheres brancas de classe média/alta e heterossexuais, no Brasil.

É impossível que a gente coloque no mesmo patamar a livre escolha de um parceiro, por uma mulher, quando fazemos recortes de classe, raça e orientação sexual.

A começar, as mulheres lésbicas e bissexuais ainda enfrentam preconceito e lutam contra este e contra a fetichização sexual à qual o machismo as submete. Essa é uma liberdade sexual não aceita na sociedade, afinal, ela não é uma “liberdade” em favor dos homens!

Muitas mulheres mais pobres não vislumbram a possibilidade de escolher um parceiro; muitas permanecem em relacionamentos abusivos, sem ter a quem recorrer (falo das instituições mesmo, ou melhor, da ausência delas); muitas têm o casamento como destino fatal e indesviável. Estas são as escolhidas. Tem aquelas que são subjugadas, aquelas que nunca serão apresentadas à família do parceiro. E aquelas que vivem a mais completa solidão.

Dessa forma, como a liberdade, per se, é um valor individual, associado aos valores capitalistas liberais, e, como toda teoria liberal, por mais que queira parecer que abarca a sociedade como todo, na verdade, ela contempla apenas uma pequena parcela da população. A parcela abarcada pela, ainda que falsa, liberdade sexual feminina, também tem cor e classe social. Se as mulheres pobres, negras, ainda têm tantas lutas a serem enfrentadas, as brancas e mais ricas devem, agora, perceber que a falsa liberdade sexual, antes de ser uma conquista, permanece uma luta a ser, não apenas encarada, mas também reconhecida como necessária, porquanto essa tal liberdade seja apenas mais uma forma de objetificação do corpo feminino e de dominação e opressão entre os gêneros.

 

Leituras complementares de outros sites, e que me inspiraram a escrever esse texto:

A insustentável leveza do não-orgasmo e a falsa liberdade sexual feminina

Sobre a solidão da mulher negra

 

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