Se ser puta é ser ter a liberdade de poder comandar a minha própria vida; é não me submeter a leis e ordens inventadas e colocadas por homens que nada têm a ver comigo; é não me subordinar a valores impostos em uma sociedade marcada pela hipocrisia e que só me prejudicam, me enlouquecem, acabam com minha autoestima; é ter a consciência de que eu sou a dona da minha vida, eu tenho o poder de fazer o que eu quiser, e não o que os outros dizem que deve ser feito, como eu devo me comportar, o que eu preciso seguir para ser “digna” de ter um “homem” ao meu lado… Essa sou eu!

Ser puta é também ter o total controle sobre nossa sexualidade – e é por isso que assusta muitos. Aqui eu digo que esse controle está, não só na ação de fazer sexo quando e com quem bem entender, mas também o de não fazer, se não quiser. Afinal, a sociedade hipócrita nos cobra um comportamento completamente recatado em relação à nossa sexualidade, ao mesmo tempo em que nos impõe a ideia de que para ser ‘completa’, a mulher tem que ter um homem consigo, o que pressupõe, em muitos casos, ter uma vida sexual ativa.

Esse é apenas um dos paradoxos que nós, mulheres, vivemos.

Os homens souberam muito bem classificar e distinguir as ‘mulheres para sexo’ e as ‘mulheres para casar’. Isso é, com certeza, uma das maiores lástimas da humanidade. Primeiro, conseguiram separar um grupo que deveria ser, em sua essência, totalmente coeso, parceiro, assim como os homens o são. Colocaram-nos como diferentes umas das outras para nos separarmos, para termos ojeriza de ser aquilo que realmente somos, mas no nosso imaginário, seríamos as diferentes, as que agradam os homens, as outras são as desvalorizadas, as promíscuas, as putas, que só servem para sexo.

Mas espera aí. Vamos voltar a alguns anos atrás, tipo década de 40 na sociedade brasileira. Isso aponta para um fato curioso, que é o de que, tais mulheres recatadas, às vezes só ‘não gostavam de fazer sexo’ porque a elas isso sempre foi colocado como algo proibido, sujo, distante. E se o marido não fazia sexo com a esposa recatada porque, infelizmente, em sua cabeça foram incutidas várias inverdades sobre o ato sexual, ela nunca pôde se conhecer, conhecer seu prazer, enquanto ele ia à rua para fazer com… as putas (aqui eu me refiro às profissionais do sexo).

Acontece então o rompimento do contrato matrimonial em relação ao dever da monogamia, quem leva a culpa (ainda hoje há essa ideia nojenta!!) é a esposa, ‘que não deu conta’, enquanto ela, na verdade, nunca soube o significado do que realmente é uma relação sexual prazerosa e livre.

Acho que divaguei demais e me transportei a um passado não muito distante da nossa sociedade. Porém, essas coisas ainda acontecem, só que com novas facetas.

Eu já escutei, algumas vezes, que ‘realmente’ eu era uma mulher pra casar. Então eu pensei, peraí, quem decide se quero casar ou não sou euzinha, não um homem que acha que tem o poder de separar as mulheres em grupos e usá-las, nos seus devidos conformes, para seu bel-prazer.

Isso me irritou, porque eu já não mais vejo distinção alguma entre nós, mulheres. Infelizmente estamos é no mesmo barco, cada uma sofrendo de acordo com seu contexto na sociedade. Cada uma com uma luta, mas uma luta que, no fim, é única, e na qual devemos nos unir e acabar com essa brincadeirinha de nos dividir, como há muitos e muitos anos eles vêm fazendo.

Se a mulher que é dona de sua própria vida e exerce sua vida sexual como bem entende não ‘é pra casar’, a sua independência e autossuficiência gera medinho, quem seria então a tal pra casar??

A submissa? A que se subjuga? A que aceita tudo? A que cozinha?

Nós temos é que acabar com isso. Retirar essas características que permeiam algumas mulheres, de quem foram tiradas as oportunidades de empoderamento, de independência e autossuficiência.

Temos que passar esses valores às meninas, desde aquelas que estão nascendo, e não continuar a dividi-las. Isso é muito prejudicial.

“Todo homem tem medo de ficar com uma mulher piranha”.

Esse medo vem, justamente, porque a tal piranha não vai ser submissa, não vai, mesmo. Não vai permitir que ele seja sempre o piranho da vez e aceitar. Não vai tirar o batom vermelho quando ele mandar. Aliás, não vai mesmo se relacionar com um macho que queira ‘mandar’. Não vai ser fiel, se tiver só a fim de uns pegas, e também não vai exigir fidelidade, uai.

As piranhas são bem sensatas. Já os piranhos, esses exigem fidelidade da santa e saem traindo e traindo por aí. Eles são contraditórios demais. Eles acham que tudo podem. Eles têm medo da imagem deles projetada em uma mulher, e, se relacionar com eles mesmos, eles não o fariam, tá vendo. Eles querem continuar assim, mas encontrar a santa. Santa hipocrisia!

Mas como eu disse, eles podem ficar tranquilos, porque primeiro, as piranhas estão correndo de machistinhas de quinta. Segundo, elas são coerentes e, curtir é curtir, fidelidade: no namoro, sim (para muitos piranhos, essa palavra nem existe!).

Então eu reflito, aflita, como estamos sendo marionetes nas mãos desse povo. Nós temos que nos conscientizar disso…

Os paradoxos dessa vida …

– Puta: dá pra qualquer um, olha lá, piranha, não mereço mulher piranha, mimimi.

– Não tá a fim de se relacionar no momento: nossa, como você consegue ficar sem sexo, você não sente falta?

-Nossa, que cabelo enorme, parece Madelena Arrependida, não cuida…

-Nossa, que cabelo curto, cortou demais, parece sapatão …

– Esse cabelo tá liso demais, sem graça, faz alguma coisa pra encher…

– Que cabelo esquisto, feio, sarará, esqueceu a chapinha? …

– Tá passando muita maquiagem, parecendo o bozo, quer chamar atenção…

– Desleixada, não se cuida, não passa uma maquiagem pra disfarçar as olheiras, mimi

– Ta engordando, homem não gosta de mulher gorda, tem que fazer dieta, por que não vai pra academia, para de comer

– Ta muito magra, parece anorexa, homem gosta de carne, de ter onde pegar…

– Muito fútil, só preocupa com a beleza, desse jeito não vai chamar atenção do homem, não tem o que conversar…

– Muito intelectual, estuda demais, desse jeito vai assustar os homens, homens não gostam de mulheres que sabem mais que eles…

Conclusão:

Ame-se. Seja puta: Seja a heroína da sua própria vida. Comece uma revolução dentro de você. E mude o mundo.

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