Recentemente, voltei de uma viagem a Nova York e pude conhecer mais sobre essa cidade que é tão querida entre os brasileiros.  Saindo um pouco (ou muito) dos clássicos roteiros turísticos, buscamos conhecer outros lados da cidade, o que julgo ser o que há de mais interessante ao viajar: poder viver e conhecer o local não como turista, mas como se moradora eu fosse.

Em um dos roteiros, fomos conhecer o bairro de Williamsburg, bem no dia da grande feira gastronômica chamada Smorgasburg, que conta com uma enorme variedade de comidas, bebidas e quitutes de várias regiões e culturas do mundo.

DSCN3114
Feira de Smogasburg

 

De cara, eu notei uma mudança em relação ao bairro no qual me hospedei, também no Brooklyn, chamado Crown Hights: a maioria das pessoas era branca, inclusive o menininho que vendia água super gelada a $1.

Fiquei curiosa, pois historicamente o Brooklyn é uma região de NYC habitada pela população negra e Crown Hights refletia isso, diferentemente de Williamsburg.

Esse bairro passou, principalmente a partir da década de 1990, por uma “gentrificação”, que é um fenômeno que acontece quando há um grande investimento em determinado bairro de uma cidade, como restauração dos imóveis, melhoria do transporte público, aumento e diversificação do comércio, de restaurantes, da vida noturna, da segurança pública… O que, em um primeiro momento, parece ser algo que só tem benefícios a trazer à população.

Até que… A população local tradicional simplesmente não consegue mais morar no bairro, já que, devido a todo esse investimento, feito por empresas privadas com o respaldo do Poder Público, e que vem junto com especulação imobiliária, os aluguéis sobem de maneira desproporcional, o custo de vida fica altíssimo e é impossível continuar a viver ali.

mapa williamsburg
A localização de Williamsburg foi um dos motivos que atraiu o investimento seletivo no bairro, principalmente a partir da década de 2000.

 

Então, eu senti que, um lugar que antes era habitado por artistas e gente de várias culturas, como negros e latinos, foi apropriado pelos mais ricos, majoritariamente brancos.

The Dirty Ones, a notorious gang from Williamsburg.
The Dirty Ones, uma das várias gangs de Williamsburg, reflete como eram os habitantes do bairro nos anos 70, antes da gentrificação. Foto: The Bowery Boys (Créditos)

 

Eu percebi que o público da feirinha gastronômica, tanto os que vendiam como os que compravam, além dos turistas, era composto, em sua maioria, por brancos. Eu notei porque fiz a comparação com outras regiões do Brooklyn pelas quais passei e com aquela na qual me hospedei.

O bairro é todo restaurado, a vida noturna é agitadíssima, os restaurantes são lindos e ainda há muitos artistas que expõem por lá. Mas morar tornou-se tão caro que muitos tiveram que se mudar dali e foram para bairros próximos, como Bushwick, que também se destaca pela arte e que pode passar por um processo de gentrificação semelhante ao de Williamsburg.

 

williamsburg antes
Williamsburg antes da gentrificação, na década de 90. Créditos: Real State Marketing Insights

 

Foi aí que eu parei para refletir. A gentrificação, que é a elitização de um determinado local, prejudica mais do que beneficia. Porque ela segrega. Ela retira os moradores locais, de classes mais baixas, para colocar aqueles que têm condições de pagar os aluguéis caríssimos e aí desfrutar de todos os avanços e investimentos pelos quais o bairro passou. Esses poderão ter uma enorme qualidade de vida. Somente esses. E no caso de Williamsburg, mas não seria diferente de qualquer outro lugar no mundo ocidental, esses são, predominantemente, brancos. Por isso, eu vejo que houve, com a apropriação do bairro, um enriquecimento com um embranquecimento.

 

Williamsburg_NY_JamesGulliver_Hancock.jpg
O bairro virou meio que hipster. Foto: James Gullivier

 

Eu gostaria de ter visto um bairro tão bonito e tão bacana como Williamsburg habitado por seus moradores primários, que não eram brancos. Ou gostaria que todo o Brooklyn pudesse ser assim restaurado para que todos pudessem usufruir dos benefícios, não uma pequena parcela da população que tem um poder aquisitivo mais elevado.

Se Crown Hights também fosse assim, talvez não teria ficado chocada com essas mudanças dentro de um mesmo Brooklyn. Mas ainda estamos longe de alcançar isso.

Anúncios