Foto: Philip Souza

felicidade

substantivo feminino

1.

qualidade ou estado de feliz; estado de uma consciência plenamente satisfeita; satisfação, contentamento, bem-estar.

2.

boa fortuna; sorte.

No fim de semana passado, em uma roda de conversa em família, meu pai disse uma clássica frase repetida com frequência, mas que nunca acreditamos e nunca concordamos totalmente com ela: “os pobres são mais felizes do que os ricos”.

Imediatamente, lembrei-me de todas as entrevistas que fiz, para a minha dissertação, com as mulheres pobres moradoras da Rocinha. Eu não conseguia enxergá-las como mulheres felizes ou satisfeitas, apenas porque sobreviveram por mais um dia. Morar no Rio de Janeiro nos faz enxergar que existem, na verdade, duas cidades: de um lado, você possui infinitas possibilidades de ser feliz, de ser quem você quiser, de andar com segurança, de desfrutar da melhor culinária, de contemplar a natureza, de estar culturalmente imergida, de desafiar a si mesma em trilhas montanhosas, em maratonas de corrida, em ondas perfeitas. Do outro lado, chegar vivo ou viva em casa se torna um desafio, e o que realmente importa às pessoas. Os fins de semana são recheados de tarefas domésticas por fazer. Nem mesmo o churrasco na laje, no domingo, torna-se mais possível, por conta das diversas crises econômicas microssociais. Viver de bicos é, literalmente, não saber como será o dia de amanhã.

Antes mesmo do término da minha fala, meu pai ponderou e disse, “claro que eu não estou falando dos muito pobres, dos miseráveis” … Sim, eu sei que ele se referiu à classe média baixa. Porém, em um passado não muito distante, nós éramos da classe média baixa. E por que não quisemos ficar por lá? O que nos fez querer ascender, ainda que de forma tímida, nesse espectro social? E quais foram as circunstâncias que possibilitaram uma movimentação dentro dessa classe?

Quando éramos “mais pobres”, realmente, nossas relações sociais eram mais fortes. Segundo pesquisas¹, as relações interpessoais são mais significativas e proporcionam mais felicidade às pessoas mais pobres. Sim, o individualismo é muito mais forte entre as pessoas mais ricas, e é por isso que o conceito de felicidade se torna diferente, mais individual, mais introspectivo.

Lembro-me de como meus pais encontravam, com maior frequência, amigos e familiares, e de como os momentos eram mais fluidos e simples. Tenho lembranças do quanto que fui feliz com as minhas festinhas de aniversário na garagem do meu prédio, e do quanto que eu chorava, apenas por alguns instantes, quando chovia ou ventava muito, e o painel da mesinha de doces ia parar no prédio ao lado.

Havia, ainda, aquele pedido clássico de açúcar para a vizinha de porta, aquelas horas de conversas no hall, intrigas e mal-entendidos que se desfaziam com um pedaço generoso de bolo de cenoura com calda de chocolate.

Na escola, as mães das minhas amiguinhas também eram amigas entre si. Na porta da escolinha, elas contavam como foram as nossas últimas férias, e o quanto Guarapari estava crescendo, o quanto Cabo Frio prosperava. Nós também íamos muito a Porto Seguro, o que já era considerado um luxo. Na minha primeira viagem de avião, eu me senti nas nuvens (rsrs), e saí com a promessa de trazer um pedacinho de nuvem para cada amiguinho/a em um potinho. A maioria só saberia o que é entrar em um avião anos e anos mais tarde.

Quando fizemos nossa primeira viagem internacional, entramos em um caminho sem volta. Um novo mundo nos foi apresentado, e qualquer coisa que fosse menos do que isso seria como regredir, como cair o status, seria uma falha. E ninguém quer passar por uma situação como essa.

Pelo pouquinho de política e economia que aprendi na universidade, essa ascensão dentro da classe média não foi um fator unicamente pessoal. Havia um momento de prosperidade econômica, valorização cambial, redistribuição de renda, ainda que tímida, e maiores garantias a servidores/as públicos/as.

Os estudos de Sociologia e de Economia da Felicidade mostram que não é apenas a renda o fator que define a pobreza de uma pessoa e, da mesma forma, não é apenas a renda que define a felicidade de alguém.

Eu digo que a pobreza não é um fim em si mesma, mas ela é uma ponte para muitas limitações e impossibilidades de escolha. O acesso a serviços básicos e de qualidade que, a meu ver, deveriam ser providos pelo estado, sem distinção, não deveria ser por meios monetários, mas, infelizmente, ele ainda o é. Dessa forma, a pobreza impede o acesso a uma educação de qualidade, à assistência completa à saúde, à cultura, ao lazer. O estudo, que ainda é um dos poucos fatores que possibilitam o descolamento social, permanece como algo pouco viável ao mais pobres. Da mesma forma, a segurança financeira e relacionamentos mais equilibrados são fatores que contribuem para a felicidade de um indivíduo, mas que nem sempre estão presentes na vida das pessoas mais pobres.

Quando fiz uma entrevista na casa de uma das colaboradoras da minha pesquisa, havia uma senhora solitária que era sua vizinha. Ela ficou curiosa com a minha presença, mas a entrevistada falou para eu não ligar muito, que ela era “doidinha”. Na mesma hora, pensei: qual assistência essa senhora recebe, que possibilitaria a realização de um tratamento psicológico? A depressão acabou virando uma doença de ricos exatamente porque as pessoas mais pobres não possuem condições financeiras para o pagamento de longos tratamentos. Muitas vezes, elas não conseguem ter um diagnóstico: é como se elas não tivessem o direito de possuir uma doença vista como “vaidade”. Se há comida na mesa, ou, no caso da classe média baixa, comida, cerveja e churrasco no fim de semana, um carro popular na garagem e uma viagem à praia por ano, não há do que reclamar.

Porém, e se apenas isso fosse realmente suficiente para que uma pessoa seja feliz? E qual o limite da renda, já que, segundo estudos², a partir de um certo ponto, ter mais dinheiro não é um fator capaz de aumentar a felicidade?

O dinheiro não é suficiente para determinar a felicidade de alguém, mas a sua ausência se relaciona à infelicidade

Nações mais ricas possuem índices de felicidade mais altos (FERRAZ et al, 2007, p. 236). Podemos ver por este Ranking da ONU, compilado pelo site G1, que os 10 países mais felizes são nações desenvolvidas e ricas. Ademais, o país que ganhou o primeiro lugar exerce a política do bem-estar social. Porém, se fizermos um questionário na Finlândia no qual uma das perguntas demanda que o entrevistado elenque os principais atributos para a felicidade, certamente o dinheiro não será o primeiro ou, talvez, nem aparecerá na lista.

Quadros comparativos
Fonte: G1

De acordo com RODRIGUES e SHIKIDA (2005, p.82), a partir de uma certa renda, o dinheiro a mais já não é capaz de trazer felicidade. Porém, da mesma forma, para quem não possui muito dinheiro, o seu ganho pode aumentar os índices de felicidade, bem como a sua ausência extrema (e a ausência do sucesso, de se sentir satisfeito/a pessoal e profissionalmente) impossibilita que as pessoas sejam felizes.

Assim, podemos dizer que o dinheiro é mais importante para determinar a felicidade daquela pessoa que não o possui. Portanto, sua ausência leva a situações que contribuem para a infelicidade, tais como piores condições para tratar a saúde, possibilidades restritas de lazer, acesso limitado a bens de consumo, frustrações pessoais e profissionais. Por outro lado, uma pessoa que já tem certo nível de renda, se ganhar mais dinheiro, não necessariamente tornar-se-á mais feliz. Podemos dizer, então, que a utilidade marginal do dinheiro é decrescente³ e é daí que provém aquela frase que “dinheiro não traz felicidade”. Prefiro escrevê-la como “mais dinheiro, para quem já possui certo montante de renda, não trará felicidade”.

A partir de estudos no campo da psicologia, concluí que não se sentir mal também não significa que se está sentindo bem. Dessa forma, pessoas que aparentam ter “tudo” e uma vida normal e feliz, podem, na verdade, não serem felizes. De fato, deixar de sentir emoções negativas, ou até possuir atributos que se relacionam com a felicidade, como segurança, autonomia, poder e sucesso, não significa que se passará a sentir emoções positivas, ligadas à felicidade. “A felicidade é uma condição que difere qualitativamente da ausência de infelicidade.” (FERRAZ et al, 2007, p.240).

Estou rodeada de pessoas que têm uma vida que seria tida como perfeita: classe média alta, sucesso profissional, dinheiro e poder, autonomia, casamento, filhos, esses fatores que colocaram para nós como essenciais para se alcançar a felicidade. Mas elas não são felizes. São, por vezes, mais vulneráveis ainda quanto à submissão aos padrões impostos, como o estético e o comportamental.

Da mesma forma, quem tem mais dinheiro pode se submeter mais às demandas do individualismo exacerbado, da autonomia absoluta, e se encontram mais vulneráveis ao consumo desenfreado, o que não traz felicidade. A pessoa mais pobre não passa por situações como essas, e é por isso que eu acho que meu pai disse aquela frase – talvez viver com maior simplicidade traga mais felicidade, na visão dele. Mas o que seria uma “vida simples”? Qual a referência que usamos para afirmar o que é “mais” e o que é “menos”?

Estudos de psicólogos e sociólogos mostram, por exemplo, que a relação entre renda e felicidade é curvilínea e as relações sociais pesam muito. Pastore (2001) ressalta que em um país rico, onde a renda é alta e os laços sociais e familiares são fracos, o dinheiro perde o poder de fazer as pessoas felizes (entre os ricos, com frequência, os problemas familiares estão no centro de sua infelicidade e não podem ser atribuídos à falta de renda); num país muito pobre, onde há escassez de recursos e os laços familiares e sociais são fortes, mais dinheiro dá uma expressiva contribuição à felicidade das pessoas. (RODRIGUES e SHIKIDA, 2005, p. 89).

 

Em estudos sobre Economia da Felicidade, existe uma premissa essencial que pode determinar, completamente, o modo como a pessoa se vê feliz ou infeliz. Aquela frase que diz que “a grama do vizinho é sempre mais verde” faz muito sentido: realmente, ficamos mais felizes diante do fracasso dos outros do que diante do nosso próprio sucesso. E, em uma sociedade tão competitiva, em que quanto mais se tem, mais se quer ter, ver um semelhante ganhando algo que não possuímos nos deixa muito frustrados/as, infelizes, e a probabilidade de essa situação acontecer entre pessoas com maior renda é maior.

Por outro lado, se uma pessoa mais pobre sai de uma situação de desemprego (e há uma forte correlação entre estar empregado e se sentir feliz, ou que o desemprego é uma das maiores causas da infelicidade) e passa a ganhar mais que as pessoas de seu convívio, ainda que seja uma renda pequena, ela pode se sentir mais feliz. Portanto, como RIBEIRO (2015) e NERY (2014) afirmam, na verdade, a renda relativa importa muito mais do que a renda real, para o quesito satisfação/felicidade.

[…] ainda, a satisfação com a vida não está muito associada ao consumo de bens materiais. Entre as variáveis econômicas, nenhuma tem mais impacto na felicidade do indivíduo do que o desemprego (mesmo quando se controla o nível de renda).Os estudos demonstram que mais do que a renda absoluta, o que importa para a satisfação das pessoas é a renda relativa, baseada na comparação com alguns grupos específicos próximos do indivíduo. Verificou-se também que a influência do dinheiro na felicidade é cada vez menor à medida que a renda cresce. Assim, a relação entre renda e felicidade é não linear, com as pesquisas confirmando, por outro lado, que a pobreza é uma importante fonte de infelicidade. (NERY, 2014, p. 10) (grifo nosso).

É por isso que, se a felicidade fosse uma preocupação governamental, o aumento do bem-estar coletivo seria muito mais interessante e eficaz, para que população passasse a se perceber como mais feliz. Penso que sociedades com menores disparidades de renda e com acesso a bens e serviços gratuitos e de qualidade são sociedades mais felizes. O dinheiro, nesse caso, não seria essencial para manter uma boa saúde, para morar de forma mais digna, para se ter um bom sistema educacional. Creio que as nações mais ricas podem ser mais felizes também porque o dinheiro deixou de ser algo tão intangível e passou a ser mais inerente à pessoa e à família. A partir daí, são as relações sociais que mais importam. Estas, porém, sozinhas, tampouco são suficientes para que as pessoas sejam felizes, e o Brasil é um bom exemplo disso.

Ainda que nas comunidades mais pobres as relações sejam fortificadas, até pela necessidade do dia-a-dia (por exemplo, na minha pesquisa, se não fossem as redes de cuidado informais que existem entre vizinhas na Rocinha, que cuidam dos filhos e das filhas de umas quando estas saem para trabalhar, seria impossível para algumas mulheres exercer o trabalho produtivo remunerado), elas não conseguem segurar índices altos de felicidade, e a renda baixa vira, sim, um fator que leva tais pessoas a se sentirem infelizes e insatisfeitas.

[…] Além das condições materiais (renda, educação e área de residência), fatores ligados às relações pessoais (casamento, amizade ou capital social e religiosidade) e a percepções sobre renda e saúde são fundamentais para explicar a variação no grau de felicidade da população brasileira. São todos fatores que foram classicamente estudados pela sociologia, que sempre enfatizou a importância da integração dos indivíduos nas comunidades como fundamental para explicar a coesão e o sentimento de pertencimento dos indivíduos. Assim, a satisfação com a vida dependeria não apenas das condições materiais, mas também do grau e sentimento de pertencimento que os indivíduos têm em relação a suas comunidades. (RIBEIRO, 2015, p. 38).

 

De acordo com o CORBI e MENEZES-FILHO (2006), podemos pensar que os determinantes de felicidade, pelo menos os iniciais, são semelhantes, ainda que se comparem classes sociais diferentes. Renda, emprego, satisfação no trabalho, saúde, relações familiares, relações interpessoais, importam e determinam, tanto para os mais ricos quanto para os mais pobres, os níveis de felicidade. Da mesma forma, a renda se correlaciona positivamente com a felicidade. Porém, a partir de certo ponto, ganhos adicionais já não fazem mais efeito. Então, é diferente dizer que “ter dinheiro não traz felicidade” e “ter mais dinheiro, além do que já se considera satisfatório, traz felicidade”.

Concluo afirmando que, se fosse possível atingir um equilíbrio entre renda um pouco mais que suficiente para sobreviver (de acordo com o custo de vida de cada país/região) e relações pessoais fortalecidas e equilibradas, chegaríamos ao índice máximo de felicidade. Os dois fatores isolados deixam de exercer o papel para se atingir uma felicidade plena. Mais dinheiro não irá comprar felicidade, menos dinheiro não será substituível apenas por relações sociais.

É por isso que, como classe média baixa, o dinheiro era importante para que nos tornássemos mais felizes e pudéssemos ter acesso a bens e serviços, bem como a lazer e cultura, e a uma moradia maior e melhor. Quando já alcançamos esse nível desejado, os demais fatores ficaram na frente da renda – ela se tornou “oculta”, ainda que não perdesse a importância para nos manter na classe média. Assim, a afirmação do meu pai, de que ser mais pobre é ser mais feliz, pode ser porque ele ainda não tenha atingido o equilíbrio que eu considero ser fundamental – entre a renda, a satisfação profissional e as relações pessoais – que, infelizmente, nem todos/as conseguirão ter.

 

Notas

¹ Ciberia, 2017; RIBEIRO, 2015.

² Ciberia, 2018.

³ CORBI e MENEZES-FILHO, 2006 e Menezes-Filho, 2006, p. 521.

 

Referências

CORBI, Raphael Bottura; MENEZES-FILHO, Naércio Aquino. Os determinantes empíricos da felicidade no Brasil. Revista de Economia Política, vol. 26, nº 4 (104), pp. 518-536, outubro-dezembro/2006.

FERRAZ, Renata Barboza, TAVARES, Hermano, ZILBERMAN, Monica L. Felicidade: uma revisão. Rev. Psiq. Clín 34(5); 234-242, 2007.

NERY, Pedro Fernando. Economia da Felicidade: Implicações para Políticas Públicas. Brasília: Núcleo de Estudos e Pesquisas/CONLEG/Senado, Outubro/2014 (Texto para Discussão nº 156).

RIBEIRO, Carlos Antônio Costa, Renda, Relações Sociais e Felicidade no Brasil. Dados – Revista de Ciências Sociais [Internet]. 2015;58(1):37-78.

RODRIGUES, Odirlei Aparecido; SHIKIDA, Pery Francisco Assis. Economia e Felicidade: Elementos Teóricos e Evidências Empíricas. Pesquisa & Debate, Sp, volume 16, n. 1(27), pp. 80-120, 2005.

 

Sites (último acesso em 10.09.2019)

Ciberia <https://ciberia.com.br/mulheres-status-dinheiro-satisfacao-sexual-258>

______<https://ciberia.com.br/cientistas-descobrem-quanto-dinheiro-precisamos-para-sermos-felizes-e-e-surpreendente-33598>

_______<https://ciberia.com.br/dinheiro-nao-compra-felicidade-mas-os-ricos-sao-mesmo-felizes-de-forma-diferente-30592>

DCM <https://www.diariodocentrodomundo.com.br/e-dificil-encontrar-uma-pessoa-feliz-entre-os-ricos-uma-conversa-com-bauman-um-dos-intelectuais-mais-importantes-do-nosso-tempo/>

G1< https://g1.globo.com/mundo/noticia/2019/03/20/brasil-cai-16-posicoes-em-ranking-global-da-felicidade-em-quatro-anos.ghtml>