Foto: Lucas colhendo amoras do pé na Fazenda Viramundo, Posse, Petrópolis/RJ
Agora que tenho um bebê, constantemente volto meus pensamentos à minha infância e elenco o que gostaria que fosse semelhante e o que fosse diferente na infância dele. Sei que os tempos são bem outros. Tanta coisa aconteceu e mudou em três décadas! Às vezes me acho tão conservadora por achar que smartphones são a maior “praga” da humanidade e por ter aversão às redes sociais. Sou muito crítica à alienação trazida por elas, à promoção de vidas tão vazias e materialistas, ao distanciamento que causam, apesar de termos uma suposta rede de amigos, de seguidores.
Ao mesmo tempo, lembro-me do tanto de tempo que passávamos em frente à televisão, vendo programas horríveis e também alienantes. Nossa alimentação era péssima, pois nossos pais e nossas mães foram as maiores vítimas das investidas da indústria alimentícia. As informações não eram tão acessíveis quanto o são hoje. Fomos educadas/os desde cedo para corresponder à clássica divisão binária entre meninas e meninos. Racismo e homofobia eram parte do cotidiano e na sua pior forma: a recreativa. Então, sempre tento balancear o que está melhor hoje e o que era melhor ontem, talvez.
Porém, venho pensando que a chave de toda a minha inquietação está na vida cada vez mais urbana e individualista que vimos levando. As brincadeiras das quais tanto tenho nostalgia também não me eram alcançáveis. Eu nunca brinquei na rua, não tinha mato para fazer trilha com meu cachorro (eu nem tinha cachorro!), não tinha cachoeira para me limpar após me sujar na terra molhada de chuva que caiu ao longo da madrugada. Lá em BH, o que restava de Mata Atlântica no bairro da minha avó foi tudo arrancado, o brejo pelo qual eu passava para ir à escola, e no qual eu imaginava haver sapos e outros bichos, foi aterrado para virar prédio. Na rua passava tanto ônibus, tanto carro, era tão perigoso. Não, nunca houve, nessa rua, a possibilidade de jogar bola e delimitar gol com chinelo, de andar de bicicleta, nem de carrinho de rolimã… Este, eu nem sabia o que era: só havia lido nas histórias em quadrinhos.
Então, eu acho que fantasiei tudo isso. Tudo o que eu quero para meu bebê, eu também não tive! Eu nunca tive uma roça para chamar de minha. O interior de Minas, onde meus avós paternos moravam, também foi se tornando cada vez mais urbano: era o “progresso” chegando e todo mundo parecia estar feliz com isso. Eu não estava. Eu mal ia lá e, quando ia, já não dava para fazer quase nada sem adultos por perto, porque a rua estava ficando cheia, estava passando tanto carro, só faltava passar ônibus também! As casas estavam dando lugar a prédios, e eu já estava cansada disso, de ver árvores derrubadas e prédios enormes construídos em seus lugares. Não havia mais bambuzal com suas almas penadas ali escondidas. Não havia mais rio limpo em que eu pudesse lavar minhas mãos ou ver meu reflexo como um espelho.
Desde novos/as, escutamos que temos que colocar sapato, tênis, chinelo para andar no chão, chão este sempre concretado. Como nos lembra Nego Bispo (2023), não sabemos o que é ter uma casa com chão de terra batida e, para o desenvolvimento, o progresso, uma casa assim é precária, é ruim. Perdemos a nossa conexão com a terra, com seus ciclos. Nas cidades, nós nos tornamos sujeitas/os sem história. Sim, nós nos tornarmos pessoas vazias e cada vez mais vulneráveis às peripécias do capitalismo, do consumismo, das ideias reacionárias, que mantêm seus seguidores em uma zona de conforto e alheios aos problemas e às exclusões raciais e sociais que esse sistema produz e reproduz.
Durkheim talvez ficaria triste ao ver que a tal da solidariedade orgânica não foi tão exitosa nessa divisão de trabalho cada vez mais acentuada nos centros urbanos. A gente nem se preocupa com quem mantém as nossas calçadas limpas. Temos aversão a compartilhar a rua e os meios de transporte com as demais pessoas. A única forma possível de fazer trocas é a monetária. O único tipo de trabalho valorizado é o lucrativo.
Não sabemos de onde vem nossos alimentos, que, definitivamente, não brotaram nas prateleiras dos supermercados. Não temos qualquer conexão com a água e seus ciclos, que, definitivamente, não apenas sai da torneira na hora que queremos. As luzes excessivas da cidade ofuscam o céu estrelado. Não nos atentamos para as fases da lua e suas influências inclusive em nossos corpos. No chão asfaltado, nos rios escondidos e concretados, nos bueiros entupidos, a chuva, um fenômeno de renovação, causa desespero com os riscos constantes de deslizamento, enchentes, tragédias.
Para a vida que levamos nas cidades, apenas oneramos o meio ambiente e não oferecemos nada em troca. Esse estilo de vida exige tanto da natureza e, ao mesmo tempo, nos desconecta tanto dela. Ou achamos que sobre ela temos total controle e que ela tem de estar sempre ao nosso dispor. Ou passamos a ter aversão a tudo que é dela, a tudo que é natural, que não possui regularidade, linearidade, mas sim ciclos, e que exige interdependência, reciprocidade. Não conseguimos pensar em outro modo de viver que não o urbano: aquele em que podemos ter tudo a tempo e a hora, com apenas um clique, desde que tenhamos dinheiro para bancar tudo isso.
A aversão que passamos a ter pela roça, pelo campo, pelo interior, tem explicações mais complicadas. Após a invasão das terras indígenas originárias pelos brancos europeus, nossa sociedade foi se desenvolvendo a partir das grandes plantações, das monoculturas para exportação em grandes latifúndios, cujos donos eram alguns poucos colonizadores. Portanto, as terras, que não podem ser vistas apenas pelo viés produtivista, porquanto são, primeiramente, locais de morada, nunca foram acessíveis à maioria da população.
A partir da década de 1960, com a opção pelo desenvolvimentismo urbanizado nas regiões Sudeste e Sul do país e, paralelamente, com a modernização do campo conhecida por Revolução Verde, com sua mecanização e o espraiamento do uso de agrotóxicos e fertilizantes, houve um êxodo rural forçado aos grandes centros urbanos. A população do campo, que vivia de forma precária principalmente porque a maioria não era dona de suas próprias terras, passou a viver de maneira ainda mais insegura nas periferias e nas favelas das grandes cidades.
O campo sempre expeliu seus habitantes primeiros e, com apoio e endosso do Estado, populações indígenas, tradicionais e quilombolas passaram a ter suas terras invadidas por latifundiários, posseiros e grileiros. Ao mesmo tempo, o modo de vida urbano se tornou o padrão. É como se o campo fosse tudo aquilo que não é cidade: o pouco que restou de tudo isso e que está sempre na iminência de se tornar urbano um dia. Nesse sentido, as cidades são mais que um espaço construído e a sua influência se dá além das próprias cidades, com uma urbanização que ultrapassa as fronteiras citadinas e adentra a mente das pessoas. Assim, a urbanidade não é um espaço construído, mas um processo comportamental, ideológico, de uso do tempo, advindo da industrialização (Rua, 2020).
A falta de investimento, de infraestrutura, de serviços essenciais como unidades básicas de saúde, escolas, centros de assistência social, a ausência de políticas sociais que pudessem atender as demandas da sociedade camponesa e o endosso do urbano como o único lugar em que isso é encontrado – o urbano sudestino, ressalto – contribuiu para um verdadeiro abandono do campo e uma desvalorização do modo de vida e da cultura de seus habitantes. O campo foi se tornando “hostil” às novas gerações, que anseiam pela permanência na escola, pela continuação nos estudos e pelo aprendizado de novos ofícios.
Nos estudos do rural e das ruralidades, dizemos que a produção agrícola não deve se confundir com o rural. O rural, para além do espaço de produção, é também caracterizado como um modo cultural próprio de vida, de organização e de relações sociais, que detém características próprias e complexas. Como ressalta Carneiro (2008), o Rural não mais deve ser visto como categoria analítica, mas como categorias operatórias, como construções simbólicas que se dão a partir de diferentes visões, as quais constituem significados também diferentes.
O acionamento da memória em relação ao campo, suas paisagens, seus elementos, as histórias contadas pelas gerações anteriores, bem como as “representações sociais sujeitas a reelaborações e ressemantizações diversas de acordo com o universo simbólico a que estão referidas” (Carneiro, 2013), são categorias operatórias que podem cessar a clássica oposição binária entre rural e urbano, e definir a ruralidade de uma maneira plural, heterogênea – mas sem essencialismos -, e não mais como uma mera oposição em relação à urbanidade e à industrialização.
Como nos relembra Wanderley e Favareto (2013), o rural não é simplesmente um lugar de produção agropecuária. É um lugar de vida e de moradia, que diz respeito à forma como a vida social é organizada, e permeia o acesso a recursos naturais, a bens, serviços, à cidadania, às categorias sociais, aos valores sociais que constroem seus modos de vida. Assim, para além de sua dimensão física, o rural é também visto como o lugar onde se vive e onde identidades são construídas: é a forma de se ver o mundo. Tampouco o rural é uma dimensão a-histórica, que está presente somente na memória e na imaginação. Ele se expressa concretamente nos modos de viver, de conviver, de habitar e em suas paisagens.
Não obstante, a urbanização concentrada em poucas metrópoles tornou essas cidades excessivamente habitadas e diversos problemas vieram como consequência: poluição e esgotamento dos recursos naturais, especulação imobiliária, expulsões da população negra e pobre, desemprego, excesso de veículos, trânsitos e engarrafamentos… Atualmente, vemos um movimento, feito majoritariamente pelas classes médias, que busca uma maior qualidade de vida nas cidades médias, as quais ainda oferecem os confortos das metrópoles, mas possuem, no fundo, um ar de rural devido a uma maior proximidade com a natureza, com o campo. Nesses lugares, como nos lembra Carneiro (2019), podemos ter o “melhor dos dois mundos” e foi isso que buscamos quando viemos morar em uma cidade média.
Contudo, sempre digo que nosso “estilo urbano” não saiu da gente. Apesar de morarmos em meio à natureza, em um bairro em que há ainda ruas sem calçamento e córregos que passam ao lado do asfalto, ainda fazemos compras nos supermercados, ainda frequentamos restaurantes em estilo franquia, ainda vamos ao cinema que está dentro de um shopping.
Por isso, esses dias andei pensando o quanto seria bom se meu pai, agora avô, e minha mãe, agora avó, pudessem fazer uma espécie de migração de retorno e morar no “campo”. Meu filho poderia ter uma roça para chamar de sua. Lembranças de uma infância na casa de seus avós formariam uma bela história, com um local físico, mas também espiritual, para se ancorar. O resgate de sua ancestralidade seria feito por um caminho mais nítido, com bons atalhos.
Ainda não desisti de acreditar que outros modos de vida são possíveis e que não estamos fadados a viver solitários em meio à multidão das grandes cidades. Sim, sobreviveríamos na roça. Não seriam esses lugares, inclusive, nossas últimas rotas de fuga, nossos últimos lugares de refúgio, nossas talvez únicas possibilidades de sobrevivência em meio aos caos que se instala?
Referências Bibliográficas
BISPO, Antônio. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu Editora, 2023.
CARNEIRO, M.J. Rural como categoria de pensamento. RURIS, vol. 2. N.1, 2008.
CARNEIRO, M.J. – Ruralidade: Novas identidades em construção. Revista Estudos Sociedade e Agriculutra. Vol. 6. N. 2. 2013.
CARNEIRO, M.J e SANDRONI, L. – Tipologias e significados do rural: uma leitura crítica. In Leite, S.P. e Bruno, R. (orgs) O Rural Brasileiro na Perspectiva do Século XXI. Rio de Janeiro, R.J. Garamond, 2019.
RUA, João. Relações cidade-campo e urbano-rurais: reapresentando as urbanidades no rural como elementos constitutivos do espaço em metropolização. GEOgraphia, vol: 22, n.48, 2020.
WANDERLEY, M. N. B e FAVARETO, A. (2013). A singularidade do rural brasileiro: implicações para as tipologias territoriais e a elaboração de políticas públicas. In Miranda, C.; & Silva, H. Concepções da ruralidade contemporânea: as singularidades brasileiras. (Série Desenvolvimento Rural Sustentável, Vol. 21, pp. 413-464) Brasília: IICA