Alguns meses atrás, vi uma cena de estupro (no youtube) de uma minissérie de televisão que me deixou literalmente angustiada pelo resto do dia. Eu me abstenho da análise da produção da minissérie de uma emissora que eu acho que faz muito mal à democracia e ao desenvolvimento do Brasil.

Essa cena me marcou muito e me fez chorar porque ela tenta naturalizar e romantizar algo que nos assombra, conscientemente, desde que nos tornamos “mocinhas”, mas do qual somos potenciais vítimas desde o  nosso nascimento: o estupro.

De acordo com a BBC Brasil, a partir de dados obtidos pelo IPEA, Sinan, Datafolha e outros, a cultura do estupro no nosso país é uma realidade alarmante, mas ainda pouco discutida e pouco combatida, inclusive pelos “cidadãos de bem”, pela “tradicional família”, etc, que horrorizam um beijo gay em horário nobre na televisão, mas assiste com muita normalidade a uma cena terrível de estupro na mesma televisão.

Alguns dados:

  1. 70% das vítimas de estupro no Brasil são crianças e adolescentes.
  2. Em 2014 o Brasil tinha um caso de estupro notificado a cada 11 minutos.
  3. 67% da população tem medo de ser vítima de agressão sexual. O percentual sobe para 90% entre mulheres.
  4. 26% dos entrevistados pelo Ipea em pesquisa feita em 2013 e divulgada em 2014 concordam total ou parcialmente com a afirmação de que “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas“. No entanto, 58,5% concordam total ou parcialmente com a afirmação que “Se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros”.
  5. No mínimo 527 mil pessoas são estupradas por ano no Brasil e que, destes casos, apenas 10% chegam ao conhecimento da polícia. Os registros do Sinan demonstram que 89% das vítimas são do sexo feminino e possuem, em geral, baixa escolaridade.
  6. 24,1% dos agressores das crianças são os próprios pais ou padrastos, e 32,2% são amigos ou conhecidos da vítima.
  7. 70% dos estupros são cometidos por parentes, namorados ou amigos/conhecidos da vítima.

Está claro que o grupo mais vulnerável da sociedade em relação ao crime de estupro é composto por mulheres, crianças e adolescentes. Outra evidência é a de que é ainda muito natural e normal culpabilizar a vítima e eximir de toda a responsabilidade aquele que comete o crime do estupro. Quantas vítimas já não foram questionadas sobre a roupa que estavam usando quando foram estupradas, como se isso realmente importasse alguma coisa? Quantas outras vítimas não foram perguntadas sobre o que fizeram para que levassem o sujeito a estuprá-las, como se qualquer ato do agressor fosse justificável? Quantas vítimas se calaram após o crime por ter medo da retaliação da própria família, já que sua palavra seria questionada, desacreditada e valeria bem menos que a do estuprador?

Quantos minutos dura o crime do estupro? Por quantos dias sentimos a dor física em nosso corpo? Mas por quantos anos ou por quantas vidas ficam as marcas psicológicas desse crime?

Não existe outro nome para o sexo sem consentimento que não seja ESTUPRO.

Duas (ou mais) pessoas que fazem sexo precisam, deliberadamente, consentir sobre o ato sexual. Se alguma delas não consentiu e mesmo assim a outra praticou o ato sexual com ela, isso é estupro. E o consentimento não pode ser visto de forma banalizada.

Por que uma adolescente vítima de estupro, aos 15 anos por exemplo, é julgada por “saber exatamente o que estava fazendo”, e um homem de seus 20, 30 anos, ainda se utiliza de desculpas como “imaturidade”, “infantilidade” para tentar justificar seus erros, crimes, algo plenamente aceitável em nossa sociedade?

Não pensem, mulheres, que é vantagem sermos taxadas de mais maduras, de amadurecermos mais cedo, e de homens serem mais infantis e amadurecerem mais tarde. Isso é só mais uma convenção que nos oprime, que nos culpa por tudo aquilo de que somos vítimas, já que homens “nunca sabem o que estão fazendo”. Por isso, não é ensinado aos meninos a não estuprar, é ensinado às meninas a não serem estupradas. Mas como evitar esse crime se os estupradores estão à solta e não são punidos? De que adianta não sair do quarto, se divertir, ir a festas, beber, andar sozinha à noite, se a maioria dos estupradores podem estar dentro das nossas próprias casas? Até quando vamos continuar a comprar a ideia de que o estuprador é aquele homem louco, maníaco do parque, que persegue mulheres nos becos da cidade pela noite?

Por isso, o que mais me marcou na cena da minissérie foi a atriz começar a sorrir, como se estivesse gostando de ser estuprada, como se ela passasse a consentir com aquele ato, o que sabemos que NÃO É VERDADE. O sexo sem consentimento, que configura o crime de estupro, é uma violação do nosso corpo e também uma anulação total de nós mesmas como seres humanos. É a força física que se traduz em posse sobre o nosso corpo e a nossa alma, é o nosso “não” transformado em um mero som sem significado.

A única coisa que podemos fazer é repudiar esse tipo de representação do crime de estupro

A cultura do estupro deve ser colocada em pauta e discutida desde cedo em toda a população, mas nunca naturalizada e romantizada dessa forma.

É importante que as mulheres saibam que elas são donas de seu próprio corpo, e que ninguém pode tocá-lo a não ser com a sua permissão.

Ninguém pode obrigá-la a fazer sexo, e que isso não é um dever quando se está no papel de namorada/esposa. O sexo só deve ser feito pela vontade deliberada de todos os envolvidos na relação. Inclusive, o estupro no namoro/casamento é muito comum e o problema é que ele não é visto como tal. Merece um texto só para ele.

O estupro não é só estupro quando há penetração, o que costumam chamar de estupro consumado. “Tentativas” já são bastante suficientes para se denunciar o agressor. Ele não é menos mau só porque não houve penetração. Há tantas outras formas de sexo, então, todas elas, quando não são consentidas, passam a ser chamadas de estupro.

O estupro é, ao meu ver, um dos crimes mais brutais que podem ser cometidos a um ser humano, porque ele pode nos matar lentamente, devido ao abalo emocional e psíquico que sofremos.

Não tem como nem porquê de isso ser ROMANTIZADO.

Um sexo cometido por meio do estupro não tem uma mínima chance de ser prazeroso para uma mulher. Nós nos sentimos violadas, sujas, culpadas, sem vida após o crime. Não há nada de bonito ou romântico nisso. O nosso estuprador não poderá nunca ser o homem pelo qual iremos nos apaixonar, nunca se tornará o nosso príncipe encantado porque teve o contato com o nosso íntimo, ou pôde inclusive ter-nos tirado a virgindade, como no caso da minissérie. Ele será sempre um criminoso, que cometeu esse crime horrível e que deve ser punido por isso, ainda que sua punição nunca apague as marcas que ele deixou em nosso corpo, em nossa alma.

Por isso, todo o repúdio à romantização do estupro.

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