Foto: Educar para Crescer (Créditos)

Ano passado, resolvi presentear meu afilhado com o famoso Lego. Quando criança, eu amava espalhar aquelas milhares de pecinhas no chão – mais do que montar qualquer coisa, hehe -, e imaginei que ele também fosse gostar desse brinquedo.

Fui a uma loja bem tradicional aqui de BH e, sério, havia muitos anos que eu não entrava em uma loja dessas. Já consciente sobre os esteriótipos de gênero que sempre marcaram  o segmento de brinquedos, eu ainda tinha uma pontinha de esperança que isso havia sido um pouco desconstruído, pois era ano de 2015, pleno século XXI, foi descoberto que Plutão não é planeta e temos telefones que falam com a gente… Mas, não.

Eu fiquei horrorizada. É do mesmo jeitinho dos anos 90 e antes. A começar, porque ainda existem seções “de menina” e “de menino”, o que conforma as expectativas sobre a distinção entre os gêneros em relação às preferências dos brinquedos, mas que não tem base alguma, pois são meras construções sociais que nos atingem desde pimpolhos.

A trágica experiência na “seção de meninas”

A seção das meninas era praticamente toda rosa. Os brinquedos eram compostos por bonecas, princesas da Disney, casinhas, fogõezinhos, coisas de maquiagem, e ressalto, tudo extremamente rosa.

Eu não tenho nada contra a gente se familiarizar com os afazeres domésticos ou uma futura maternidade/paternidade, mas eu questiono, por que isso tem que ser exclusivamente direcionado às meninas? E por que essas são as únicas opções que temos para nos “divertirmos”?

Se meninas e meninos, ao tornarem-se adultos, terão as mesmas responsabilidades no cuidado de suas casas e de seus filhes (em tese), esse tipo de brinquedo não deveria ser dirigido apenas ao gênero feminino. Se a cor rosa foi convencionada como sendo de menina, e convenções são muito difíceis de serem desconstruídas em pouco tempo, por que não fazer então fogõezinhos e ferros de passar roupas, seilá, verdinhos? Aí todo mundo poderia se divertir brincando de ser adultos que cuidam de suas próprias casas!

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Uma pesquisa rápida com a entrada “brinquedo de menina”: imagens que correspodem exatamente aos trágicos esteriótipos de gênero.

 

O tipo de brinquedo influencia muito nas nossas habilidades quando adolescentes e adultxs

Uma vez eu vi um “meme” (não consegui encontrá-lo, 😦 ), sobre a diferença entre os brinquedos considerados de meninas e de meninos, e como isso influencia nas capacidades que achamos que possuímos e que podemos desenvolver, desde crianças.

Enquanto os meninos ganhavam de presente brinquedos que remetiam a desafios matemáticos, soluções de engenharia, eletrônicos ou esportes, as meninas ganhavam… bonecas. Os meninos então desenvolviam as soluções para os problemas propostos, construíam coisas e utilizavam muito sua capacidade cognitiva. E as bonecas? Fazem o que? Bem, elas são… bonitas.

Eu vejo uma relação direta entre o que realizamos na infância com o que projetamos fazer quando adultos. Se os meninos possuem contato com as áreas de matemática e ciências desde pequenos e as meninas não, claro que eles serão mais estimulados a seguirem carreiras nessas áreas, por exemplo. E claro que “verdades” do senso comum, como por exemplo, que meninas não possuem tanta aptidão para a área de exatas, são facilmente aceitas até por nós mesmas. Mas nunca é questionado que essas preferências são formadas desde a infância, e que os esteriótipos de gênero presentes nos brinquedos contribuem fundamentalmente para isso.

Essa não aptidão é uma mera e pura construção social, na qual a indústria de brinquedos lucra imensamente com esses mercados segmentados. Nós possuímos as mesmas capacidades cognitivas, mas não nos enxergamos nessas profissões pois não somos a elas apresentadas desde de pequenas, não despertamos muito nossa curiosidade em relação a elas, não somos estimuladas a segui-las, também não vemos muitos exemplos de outras mulheres atuantes na área e passamos a acreditar que devemos seguir outras profissões, ainda que amemos as outras – é um ciclo vicioso que precisamos quebrar urgentemente!

Os esteriótipos de gênero da infância contribuem para a ideia da misoginia, cobram dos meninos a masculinidade desde cedo e isso é a chave para a reprodução do machismo na nossa sociedade.

Eu vejo que as meninas são as mais prejudicadas com os brinquedos rosas e bobos, que remetem que o valor delas está apenas em sua beleza, em seu “instinto materno”, em seu destino irreversível como donas de casa ou com dupla jornada e as limita em relação à busca do conhecimento na infância e ao desenvolvimento de habilidades, o que tem, muitas vezes, uma ligação direta com o que o que querem ser no futuro (ou que pensam que podem ser).

Porém, é mais “aceitável” ver meninas brincando de carrinho do que meninos brincando de boneca. É ok uma menina estar vestida com um vestidinho azul, mas nunca veremos um menino usando uma camisa “salmon”. Um menino será super repreendido por seus pais, pela sua família e pelos seus amigos se o virem com uma Barbie ou uma vassourinha nas mãos.

O que isso significa? (opinião própria)

  1. Que tudo que remete a “coisas de menina”, “mulherzinha” deve ser evitado pelos meninos, por elas serem menos valorizadas/inferiores -> Primórdios de misogonia (aversão ao que está ligado às mulheres) e de machismo (sentimento de superioridade, de orgulho e supervalorização do masculino em detrimento do feminino)…
  2. Que os meninos devem ser sempre fortes,´superiores, machinhos, nunca devem chorar, etc e se não forem assim, serão “mulherzinhas”, ou seja, serão inferiores e ridicularizados -> Primórdios de misogonia (aversão ao que está ligado às mulheres) e de machismo (sentimento de superioridade, de orgulho e supervalorização do masculino em detrimento do feminino)…

 

Por isso, é extremamente importante o debate acerca dos esteriótipos de gênero na infância, que é muito materializado nos brinquedos, mas também no modo como as crianças são educadas, no geral.

 

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Brinquedo não tem gênero. Foto: Papo de Homem

 

Sei que deve ser difícil para uma mãe ou para um pai quebrarem essas “regras” e darem a seus filhos e suas filhas o brinquedo que eles gostem, independentemente da seção em que ele se encontra, da sua cor, daquilo que é julgado como sendo de um gênero ou de outro. Mas isso não é impossível, e se começarmos uma mudança desde agora, com certeza teremos gerações mais livres e menos desiguais e opressoras. Nós somos responsáveis diretamente por isso, e a desigualdade de gênero é um mal a ser combatido desde muito cedo. Desde a primeira visita a uma loja de brinquedos.

Para inspirar: Vídeo da GoldieBox sobre brinquedos que encorajam as meninas a se tornarem futuras engenheiras (muito mais que bonecas ou princesas da Disney)! ( e tem mais esse de “Girl Power”, não resisti!) 🙂

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