Foto: Guia Feminina

Originariamente escrito em 25/02/2016

Até pouco tempo atrás eu tinha vergonha do meu cabelo. Vamos dizer que em 24 anos de existência, pelo menos uns 20 anos eu passei tendo vergonha do meu cabelo. Desde quando comecei a me entender por gente. Desde quando, um dia, voltando da escola, perguntei a minha mãe porque o cabelo da minha coleguinha era liso e parecia sempre arrumado, e o meu era daquele jeito, todo desengonçado?

Minha mãe começou a fazer escova no meu cabelo com 5 anos de idade. Ela ficava horas escovando, já que eu tinha muito cabelo mesmo, era muito sacrificante pra mim e pra ela, aquele calor, ela em pé, tudo era um tanto quanto sem jeito.

Com 7 anos de idade eu fiz a minha primeira chapinha. Isso foi em 1999. Foi algo totalmente revolucionário e a tecnologia era um tanto quanto precária. Era como passar ferro no cabelo, literalmente.

Eu abafei na escola, eu virei mito. Todos os meus coleguinhas chegavam até mim e perguntavam o que eu tinha feito, como eu tinha feito aquilo, o que tinha acontecido! As professoras me elogiavam, como eu estava bonita!

Foi a primeira vez que arrebentei os meus cachos, e as consequências, eu as sinto até hoje. Porque desde então, eu nunca mais quis ter meu cabelo cacheado. Eu chorava, porque eu queria lavá-lo e que ele ficasse liso. Eu questionava, por que eu não nasci com o cabelo liso?

Um dia no shopping, lembro direitinho, foi no Diamond Mall, eu perguntei pro meu pai, pai, você acha que quando eu crescer meu cabelo vai ficar liso? Ele me respondeu, tentando me acalmar, porque eu desesperava, sim, Lu, a tendência quando a gente cresce é o cabelo mudar mesmo. Talvez ele fique liso.

E ficou né. Com mil e um produtos que prometiam o liso perfeito, o liso pra sempre… Quanto dinheiro meus pais não gastaram com tudo isso? Quanto dinheiro eu não gastei, desde meu primeiro salário? Quanto cabelo não foi embora, tudo pro ralo, por conta dos produtos químicos?

Com 8 anos de idade eu já tinha aprendido a usar o secador. Eu ficava horas secando meu cabelo, em busca do liso, mas nunca ficava tão bom né… Tadinha de mim. Nessa idade e já bitolada.

Com 10 anos, ganhei minha primeira chapinha. Ela era gigante, vermelha, sem alguma proteção. Aquilo era um perigo nas minhas mãos, mas eu chorava, convencia meus pais, porque queria o tal cabelo liso.

Com 13 anos, fiz a primeira escova progressiva. Esse método tinha acabado de chegar ao Brasil e eu fui uma cobaia. O trem deu errado, não ficou liso, caiu cabelo, foi caríssimo… aiai.

Mas eu não desistia, não! Depois vieram outras modas e aderi a todas! Vira e mexe estava no salão fazendo a tal progressiva… tacando formol na minha cabeça! Gastando rios de dinheiro… prejudicando a minha saúde… tudo pelo tal sonho de ter o cabelo liso. O padrão. O aceito. O que era bonito.

Muitas amigas me xingavam, falando pra eu parar com essas coisas e deixar meu cabelo natural. Porque é besteira mesmo né. Mas vamos contar que, psicologicamente, eu sou atingida por essa ideia do liso desde muito criança. Desde quando estava formando a minha personalidade…

Um dia fui deixar meu cabelo natural e… É claro que estava horrível. Não porque ele é horrível, mas porque eu fiz com que ele ficasse assim. É claro que eu não tenho mais cachos! Mesmo tendo cortado muito, meu cabelo não forma mais cachos… Talvez eu tenha que cortar mais, não sei, mas foram anos de produtos químicos, escovas, chapinhas, alisantes baratos… Isso é só uma consequência.

Fiz um tratamento com Pantogar porque perdi muito cabelo. Aquele volume todo que eu sempre tive vergonha, sempre quis esconder, tinha realmente ido embora, e não foi legal. Eu me encontrei buscando por ele, depois de tudo isso.

Eu tinha vergonha de ter um cabelo cacheado, volumoso, natural e bonito. Porque eu não estaria no padrão. Eu não corresponderia ao ideal de beleza. Eu não seria bonita, não seria atraente. Porque muitos não curtem um “cabelo sarará”.

Mas estamos desprendendo dessas amarras que nos escravizam, que nos deixam com a auto-estima no fundo do poço, que arrancam nosso dinheiro, nossa saúde, mental e física…

E quando fui comprar um shampoo essa semana, fiquei aliviada quando, em meio a tantos que prometem diminuir o volume, controlar o frizz, encontrei um que, finalmente, prometia um volume de dar inveja.

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=)

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