Eu cresci com uma ideia errada do que era relacionamento. E cresci tentando cultivar uma imagem de uma ‘menina perfeita para namorar’, que respeitaria a ‘liberdade’ do namorado, não seria a ‘chata’ que enchia o saco, corresponderia aos padrões de beleza, amaria futebol e acompanharia as sessões de video-games (porque eu achava que tinha que ser assim pra alguém ‘me querer’, que eu realmente gostava disso, que eu seria agradável e se apaixonariam por mim).

Então, desde nova eu projetava namoros futuros desse jeito: ah, sábado a noite, quer encontrar os amigos? Tudo bem, não somos chicletes, eu encontro minhas amigas (até que isso se tornasse tão frequente que… é, o desfecho foi a realidade que vivi!). Ah, ele gosta de mulheres com cabelos longos e lisos, tudo bem, faço escova progressiva e não corto mais. Ah, torcemos para times diferentes, tudo ótimo, eu o acompanho nos jogos (mesmo que nunca pensasse que ele faria o mesmo). Ah, tem que ser magra pra ele ficar comigo né, ok, como meia maça no intervalo. Maas quando saíssemos, toparia sempre comer o sanduíche do trailer da esquina, o hot dog preferido acompanhado de 2 litros de coca-cola. “Mas eu não engordaria, óbvio” (Amy, Gone Girl, 2014).

De certa forma, eu estaria me anulando completamente, fingindo ser alguém que não seria jamais e alimentando ilusões de que assim eu ‘seguraria’ um homem e o namoro daria certo.

Porém, essa ilusão não foi apenas algo que surgiu da minha cabeça. Nós crescemos com essa ideia de que somos feitas pra agradar, pra servir, pra sempre dizer sim, sempre sorrir, nunca reclamar, porque essas são as histéricas, as chatas, as loucas, que nenhum homem aguenta, e depois são traídas e perguntam porquê.

Quase choro quando escrevo essa dura realidade.

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Os desejos do namorado valem muito mais, então eles tem que ser todos satisfeitos, eu não posso atrapalhar, nem que pra isso eu sempre passe por cima dos meus desejos, dos meus valores, das minhas convicções.

Eu tenho que apoiar as ambições e sonhos do namorado, porque isso é importante, mesmo que eu deixe de lado os meus sonhos e corrobore a ideia de que ‘mulheres não podem ser ambiciosas demais’, passar por cima do homem, assustá-lo.

Eu tenho que ser o ombro amigo quando o namorado estiver mal, eu tenho que acamá-lo, ajudá-lo de todas as formas, aguentar o mau-humor porque o universo conspira contra, entender que ele também vai precisar ficar sozinho, mesmo que eu precise da companhia dele um dia, nem que seja só pra me abraçar, só pra estar por perto. Isso porque quando sou eu quem precisa de ajuda, tenho que segurar tudo sozinha. Senão, vou parecer uma carente, uma chata, uma histérica, uma louca, uma exagerada, e corro o risco de afastá-lo de mim.

Eu seguro as pontas dele, porque cresci pensando ser o meu dever. E eu seguro as minhas sozinha, porque mesmo com a premissa de ser o ‘sexo frágil’, eu tenho que ter forças duplas – pra mim e pra ele.

Eu tenho que ceder mesmo na hora de escolher um filme no cinema, afinal, assistir a comédias românticas, isso é coisa de ‘mulherzinha’, mas um filme de terror, o preferido dele, quem não gosta, né?

Mesmo quando eu não estou me sentindo bem, mesmo quando sair daquele churrasco dos amigos dele é a coisa que mais quero, eu tenho que estar bem, ou fingir muito bem, porque senão vou ficar marcada como a namorada chata… eu tenho que ser parceira e rir de piadas machistas, não posso arriscar destruir a imagem e perder o namorado.

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Eu tenho que sempre corresponder aos desejos dele, afinal, somos namorados, e isso passa a ser visto até como uma obrigação. Mesmo quando eu gostaria apenas de dormir ao lado dele, tenho que estar disposta, e não apenas isso, mas com a depilação sempre em dia, afinal, homem não gosta de mulheres peludas (só eles tem esse direito). Porém, quando é a minha vez, quando sou que quero, porque passei a semana inteira pensando nele, em nós dois juntos, ele está cansado, teve uma semana inteira de trabalho, não tá com cabeça. E pra confirmar, ele ainda reclama que essa ideia de que homem sempre quer sexo é injusta, ‘não somos máquina de fazer sexo’.

Afinal, o sempre é o sempre deles, não o nosso, não o do casal em sintonia. Mas eu tenho que entender, ele está cansado né? E as vezes em que era eu… Não enxergo isso e aceito.

Não quero brigas, porque sou legal demais.

Eu tô sempre ali, mesmo que, na verdade, aquilo não seja eu.

Eu seguro a imagem que vendi pra ter um relacionamento e vou me matando, aos pouquinhos, até o dia em que me olho no espelho e já não reconheço a pessoa que me olha de volta.

E eu percebo, que no fim, tudo foi em vão. De tanto querer agradar, eu já não sei quem sou e também não quem ele é. Ele foi uma ideia, eu o idealizei, idealizei um namoro perfeito entre duas pessoas que, na verdade, são dois desconhecidos.

O dia que ele se cansar, ele não hesita em desaparecer. Para de responder mensagens, não atende ligações ou retorna bem depois. Até que, depois de não ter mais onde enfiar a cabeça de tanto de humilhar, pra que ele fique, pra não terminar, ele diz que não, não dá mais. Pode até soltar um ‘você é demais pra mim, eu sou um babaca’. No fundo, ele não acredita em nenhuma das duas coisas que diz.

E eu sigo me perguntando o que fiz de errado, como ele pôde fazer isso. E pessoas se questionam, como ele pôde não querer ficar com você.

Talvez apenas uma coisa me faltou todo esse tempo: ser quem eu sou, reconhecer que tenho desejos e vontades, que não devo aceitar qualquer coisa de gente qualquer, que não vou oferecer amor a quem me oferece apenas migalhas, e que não preciso de uma máscara pra agradar ninguém.

E que essa ‘menina perfeita’, que legitimam homens a procurá-las, não passa de um imaginário criado pela mentalidade machista – uma mulher-objeto, utilizável na hora que quer, descartável quando bem entender.

Ainda bem que essa mulher, na realidade, não existe. Por isso, façamos o favor de parar de querer sê-la – parar de procurar por essa autodestruição. E parar de alimentar esse imaginário machista e egoísta masculino.

Nada de cool girls. Não mais.

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