Foto: Troita/Flickr

1. Mulher branca de classe média X Trabalho fora X Mulher negra

É muito comum no mundo ocidental falar da História a partir de recortes sociais. Apesar de ser um método confortável de se fazer, ele peca por deixar pontos essenciais de fora – os quais são, por vezes, a origem dos problemas que vivemos até hoje.

Com o feminismo não é diferente. Por isso, apesar de todo estudo e toda luta serem válidos, temos que buscar sempre seguir aqueles que englobam os fatos de maneira mais geral e profunda – sem deixar de exaltar as conquistas realizadas por determinado grupo/classe social, mas também reconhecendo que ainda há muita estrada a ser percorrida do outro lado da moeda.

A ideia de que a mulher deveria ficar em casa e o homem ser o provedor, o único a trabalhar fora e sustentar o lar financeiramente é algo que foi vendido na cultura ocidental, principalmente após a ascensão da classe burguesa na transição entre idade média e moderna. Entretanto, tal colocação sempre foi restrita a uma classe social – a própria classe burguesa, pois na classe trabalhadora, nunca houve essa distinção.

Sabemos que as mulheres, desde sempre, trabalharam, seja no campo, na era do feudalismo, seja no meio urbano, nas grandes fábricas da revolução industrial. O trabalho da mulher, contudo, sempre tendeu a ser mais desvalorizado que o do homem, ainda que exercessem atividades semelhantes, o que é imensamente observado ainda nos dias de hoje. As atividades domésticas sempre tiveram uma tendência a serem exercidas também por mulheres, talvez porque o machismo – que são práticas – é presente desde muitos séculos no mundo em que vivemos.

Na virada do século XIX para o XX, a Revolução Industrial e o avanço das tecnologias migraram da Europa para os EUA, e este tornou-se o maior produtor de tecnologia do mundo. Além de seu colossal poderio econômico e monstruoso poderio bélico, esse país converteu-se em um especialista em venda de cultura, principalmente para seus vizinhos latino-americanos.

A cultura estadunidense então vendida limitava-se a apresentar um país de grandes oportunidades, de expansão econômica e de uma sociedade brava, destemida e destacável por sua beleza, o que, para aqueles que o viam de fora por meio de suas produções cinematográficas e suas propagandas, beirava à perfeição.

Tanto é que é ainda hoje muito comum (e asqueroso), pensar que “verdadeiros estadunidenses” são os brancos, de olhos azuis e louros. Homens que trabalham em empresas privadas e ganham muito bem. A casa é recheada de eletrodomésticos e eltroeletrônicos de última ponta, há um carro estrondoso para cada membro da família, e as mulheres mães limitam-se à condição de “perfect housewives”. Tudo bem, sabemos que a população estadunidense tem em sua composição uma imensa população negra, que o hip-hop que escutamos vem deles, que muito da comida que eles comem lá é mesmo um lixo e que a obesidade é uma doença que afeta grande parte das pessoas, que há pobreza e desigualdade de modo desmedido, mas, não é isso que, por muitos anos, compôs a imagem desse país.

Por muitos anos, mormente com a expansão da difusão do “American way of life”, às mulheres brancas e ricas dos EUA foram impostos papéis definidos na sociedade – a de mães e esposas por natureza e vocação, e que, portanto, deviam ficar em casa cuidando do lar, abstendo-se da vida pública e do trabalho fora, por essas serem tarefas destinadas aos homens (nem sempre pais e maridos por vocação!).

Os eletrodomésticos, cada vez mais modernos e inteligentes, eram objetos de cobiça das housewives por “ajudá-las” nas tarefas do dia-a-dia. Café na mesa, almoço e janta para o marido que chega cansado do trabalho, o cuidado dos filhos, desde banho, alimentação, ao auxílio nas tarefas escolares, e é claro, sexo fácil e irrecusável ao macho alfa que o merece, depois de um dia estressante. Essa era, basicamente, a rotina de uma mulher branca e rica dos EUA à essa época…(argh).

Não obstante, nem tudo se resumia a essa rotina, pois, por muitas vezes, as housewives eram auxiliadas por serviçais: negras, cujos ascendentes levavam consigo as marcas da escravidão, e que deixavam seus filhos aos cuidados da vida para cuidar e ser “segunda mãe” dos filhos de suas patroas brancas. Isso ainda é muito comum na contemporaneidade, e o que aconteceu nos EUA se assemelha muito à nossa realidade (porque tivemos também a escravidão em nossa triste história e copiamos as mesmas babaquices da sociedade de lá), em que aproveito para ressaltar que, as mulheres brancas, que enfim conquistaram espaço no mercado de trabalho, passaram a trabalhar fora e a consolidar a carreira profissional, deixaram o legado das tarefas domésticas a outras mulheres, como comparo aqui  no Brasil, a uma escravidão moderna: as empregadas domésticas, em sua maioria negras, com pouca escolaridade e baixos salários. Isso quer dizer que, para uma classe de mulheres ascender e se desprender do destino inevitável e cruel imposto pela sociedade patriarcal, outras mulheres em seu lar continuaram nas amarras do sistema, o que significa que a luta não está ganha enquanto houver mulheres ainda impedidas de desfrutarem os avanços do feminismo, que, infelizmente, vem mostrando que são usufruídos apenas por determinada classe com determinada cor (mulheres brancas de classe média, média/alta). Enquanto isso, homens continuam a não exercer ou a exercer de forma desproporcional os deveres domésticos, que também são seus, e ainda acha-se “fofo” quando um macho que lava suas próprias cuecas, passa seus próprios paletós, e cuida dos filhos que são deles, é um “ótimo marido”, pois “ajuda” sua esposa.

O que concluímos, então, é que o patriarcado, com a invenção de papéis à mulher bela, recatada e do lar, não seguiu (e o patriarcado nunca seguirá) a ordem natural das coisas. Tudo foi criado e imposto, ao bel-prazer dos homens, que determinam costumes, criam leis, modificam-nas, dão rumos a uma sociedade feita para eles próprios (sociedade criada por homens para homens). As mulheres sempre trabalharam, sempre tiveram as mesmas capacidades cognitivas dos homens e sempre foram igualmente ou tão mais (acho que bem mais) estudiosas que os homens.

Essa concepção de que a mulher de valor é a do lar, é tão falaciosa que nem mesmo deu certo. Chegou uma hora que para sustentar uma casa, sustentar os filhos, era impossível que os pecúlios fossem advindos apenas do trabalho masculino. As mulheres passaram a trabalhar fora para complementar a renda. Ou simplesmente, com o avanço da sociedade, porque queriam, porque eram capazes, porque buscavam sua própria independência. Porém, a falha desse modelo, vem, acima de tudo, da criação dos próprios homens e sua ganância por exercer o machismo e a dominação de gênero a qualquer custo. Isso nunca foi a realidade de muitas mulheres, senão a maioria, que sempre teve de trabalhar, sempre teve que prover o seu sustento e o da casa, principalmente quando o pai abortava, principalmente porque pra elas não existiu a era de luxo de ficar em casa, ainda que isso fosse a pior coisa do mundo!

Não podemos então  esquecer que, como brancas, tivemos de lutar para nos desprender de um contra-caminho imposto pelo patriarcado, e também a luta continua pelo reconhecimento do nosso trabalho de forma igualitária, pelo auto-reconhecimento de nossas capacidades e ambições. Porém, não podemos fechar nossos olhos e deixar nas mãos de outras mulheres o custo da nossa independência.

Sei que para a classe média, média/alta, é muito fácil se fechar em um mundinho paralelo: condomínios distantes das cidades, com tudo dentro – não precisa sair às ruas – muita grade e apenas seres parecidos ao redor fazem pensar que o mundo é aquilo, a vida é assim. Negros aparecem apenas como serviçais – domésticas, babás (de branquinho pra ficar bem claro que não são originárias daquele meio, daquela família), porteiros, jardineiros… bem distantes do cotidiano dos moradores. Mas não é. Lá fora tem muita coisa ainda a ser feita! Às vezes é mais fácil excluir – ou apenas deixar de incluir – grupos distintos do que se faz parte. Porém, tem-se, que, na verdade, incluí-los.

Aproveito para deixar o recado. É muito difícil pensar no feminismo sem incluir a luta de classes, as desigualdades sociais e raciais – sem esses temas, a luta pode ser válida, mas é um tanto quanto incompleta (e, infelizmente, excludente). Vamos incluir!

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