Eu me acho legal. Alguns homens se acham muito legais também. E alguns que se acham legais, além de inteligentes, fortes, bonitos e bem sucedidos, às vezes não conseguem compreender como uma mulher possa não querê-lo como companheiro/namorado. Não conseguem conceber a ideia de serem “rejeitados”, pois não é todo dia que uma mulher tem a “sorte” de encontrar um cara assim, merecedor de seu amor, pronto para salvá-la e trazer alegria em sua vida, pois realmente é apenas isso que ela busca na vida.

O Príncipe Encantado vai fazer parecer que não tem nenhum defeito, por mais que você tente procurar, de todos os jeitos, de todas as formas. Ele vai te tratar tão bem que você vai mesmo acabar crendo que é a Oprah Winfrey ou a Emma Watson (porém, tudo é premeditado, com segundas intenções). Ele vai compactuar com suas ideias políticas e vai até se mostrar  apoiador dos movimentos dos quais você faz parte. Ele vai se mostrar conhecedor de vários campos do conhecimento, com destaque àquilo que você mais se interessa, o que ele fez questão de descobrir logo de início, e vai até recomendar leituras, filmes e documentários que se relacionam com o que você estudou na faculdade.

Além de tudo, ele está preparado e quer viver um grande amor, ele quer assumir um compromisso com você, diferente de muitos com quem você ficou e não quiseram. Porque ele, somente ele, é capaz de reconhecer tudo que você é. Só ele é capaz de curar seu coração que foi destruído por outros cafajestes.

Como você tem coragem de dispensá-lo? Como você pode fazer isso com o pobre coitado? Depois de tudo que ele fez por você, é seu “DEVER” ficar com ele. Ele o faz porque espera uma recompensa. Como você não pôde retribuir o que ele fez? Você é muito má. Vai morrer sozinha. Vai ficar solteirona. Esse será o seu castigo!

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Vamos acabar com esses padrões! Foto: Disney

Quando passei por isso, eu ainda estava tentando me compreender e estava naquela época de “quero fazer diferente dessa vez”. Como eu sempre romantizei todas as pequenas relações amorosas que eu tive, me anulando complemente, me amando bem menos e ainda achando que amava os outros, eu decidi que queria ter um relacionamento novamente apenas se eu estivesse preparada e que fosse de uma forma mais sensata, mais pensada, mais madura.

Ao mesmo tempo eu descobri que eu não sou obrigada a querer manter um namoro com alguém apenas porque “finalmente” uma pessoa digna do meu amor apareceu, e eu devo ser grata a isso, afinal, toda mulher quer ter um namorado, quer casar e isso é o mais importante na vida dela. Fazem-nos pensar que é, mas não é, e eu, enfim, estava tendo essa consciência!

Não, eu não obrigada a corresponder um sentimento de alguém se eu não sinto o mesmo.

Não, eu não quero que uma pessoa seja gentil comigo só porque tem segundas intenções, porque isso é ser falso, eu não gosto de falsidades e gentilezas seletivas.

Não, nenhum homem tem o direito de achar que sou um troféu, que depois de toda sua luta para me “conquistar” eu devo querê-lo, já que eu não sou nenhum objeto de posse. Eu sou um ser humano, em toda minha complexidade, e inexplicavelmente eu posso gostar ou não de uma pessoa, pode coincidir ou não de ser recíproco, mas eu não devo reciprocidade só porque essa pessoa foi legal comigo, me ama demais. Eu não posso decidir isso e nem ninguém, muito menos essa sociedade hipócrita que vive ditando regras. (…)

E principalmente, não, eu não quero ser “salva” por ninguém, pois não é isso que eu vivo esperando de outro ser humano. Se for pra eu ser salva, que eu seja a única pessoa capaz de me salvar, pois hoje eu sei que posso e devo andar com minhas próprias pernas. Que um mundo maravilhoso me espera, que eu posso fazer tudo aquilo que sempre quis, me realizar profissionalmente, ler todos os livros da minha lista, estudar demais, conhecer lugares inusitados, enfim… Eu não vivo esperando por um ser que vai resolver todos os meus problemas, porque isso não existe, isso foi romantizado colocando homens como salvadores e as mulheres como frágeis, incompletas, omissas e submissas. Pois nós não nos encontramos nessa posição mais, não nos reconhecemos mais nisso.

*Título de Valeska Pereira do Blog “Os Entendidos“.

 

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