Originariamente escrito em 06.03.15

Talvez eu seja uma pessoa que troca o certo pelo duvidoso. Vou contra todo o ensinamento dos meus antepassados materializado no que se tornou um efetivo ditado popular. Talvez eu seja assim inconscientemente. Nunca gostei do senso comum. Sempre questionei a qualidade dos livros que todo mundo lê e gosta. Nunca senti muita vontade de enfrentar uma longa fila de cinema de um Shopping Center para assistir ao filme que é a sensação do momento. E ultimamente não conheço os cantores da moda e nem sei cantar os principais trechos das músicas que meus amigos já decoraram e se pedirem para que as recitem de trás para frente o farão.

Começou assim ainda na adolescência. Por que eu deveria cumprir meu destino já então traçado de fazer um curso superior de prestígio e status, aceito predominantemente pela sociedade como o melhor e único louvável pelos meus iguais? Não, eu fui à contramão, fiz o que queria, a vontade que veio internamente, a voz que conversou comigo e me disse para seguir em frente, mas que em nenhum momento me concedeu palavras de conforto e me alertou para que eu estivesse pronta para encarar o desconhecido, o temível, o curso que não daria retorno (pelo menos imediato), que ninguém conhece, que não faria me ascender socialmente por não me fazer pertencer à classe dos profissionais únicos e louváveis. E assim eu troquei o certo pelo duvidoso com tanta vontade de conhecê-lo, desvendá-lo e provar, a mim mesma, que tudo isso valeria a pena.

Assim, eu pude perceber que a minha preferência pelo duvidoso era proporcional ao meu enojo quanto àquilo que já foi desvendado, que tem fórmula e que todo mundo já conhece. Isso requereu uma profunda preparação psicológica, já que eu sabia que não teria apoio da minha família e que a sociedade não entenderia, pois tudo não passa de devaneios de uma mente que procura fugir do conhecido, do aceito, do mais fácil, do comum. E a tarefa de escutar Tom Jobim nos churrascos da faculdade se tornou obviamente impossível. Ir ao cinema onde não há filmes hollywoodianos nem combos de pipoca de R$30 reais é muitas vezes um programa solitário, mas prazeroso, a começar pela gama de opções de lugares na sala e a entrada imediata ao começar a sessão. O rótulo de esquerdista caviar e feminista boba e louca são elogios imensuráveis a mim. E assim eu sigo na busca incansável pela manutenção da inversão do ditado popular. Enfrento as dificuldades da opção pela dúvida, muitas vezes sem amparo algum. E isso me faz pensar mais e mais que esse sim é um caminho, não só para meu autoconhecimento egoístico, mas para meu entendimento analítico, complexo e verdadeiro do mundo.

 

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