Foto: Papo de Cinema

Atenção: Contém spoiler do filme!

Não teria outro jeito de fazer essa análise sem contar o roteiro… Por isso, recomendo a leitura após ter assistido ao filme. Bom que também poderemos concordar e discordar em alguns pontos e isso contribuirá muito para o meu entendimento em relação ao longa.

O filme Paulina (La Patota) me surpreendeu, em vários sentidos. Às vezes, nas cenas, eu não conseguia entender por que ela tomava certas atitudes… E é por isso que decidi fazer essa reflexão.

Paulina é advogada e já estava cursando doutorado em direito em Buenos Aires. Ela também é filha de um importante juiz na região de Misiones, fronteira com o Paraguai. Ela tem uma carreira promissora, um namorado de anos que a ama, mas sentia que deveria fazer alguma coisa pelas crianças e jovens de sua região, que é rural e apresenta bastante pobreza entre a população.

Por isso, ela decide largar o doutorado para dar aulas de política e direitos humanos em escolas secundárias em Misiones. Seu pai não consegue conceber essa decisão “sonhadora” de Paulina, eles não concordam, mas ela não desiste tão fácil desse novo objetivo, mesmo que o pai se oponha totalmente a ele.

Seus alunos ficam meio hostis com a nova professora, e não entendem muito bem essa nova proposta de aula que ela traz. Porém, ela é bem recebida pelos demais professores e diretores da escola e ela fez uma boa amizade com uma de suas colegas.

Logo nos primeiros dias, acontece algo muito trágico em sua vida. Ela é estuprada por moradores locais, inclusive um deles era um aluno seu, quando voltava para sua casa.

Ela fica em estado de choque, e mesmo podendo reconhecê-los, ela hesita em identificar seus agressores. Eu acredito que seu espírito solidário e de compaixão em relação aos mais pobres, aos marginalizados e aos excluídos da sociedade faz com que ela se veja obrigada a protegê-los, já que não confia nas instituições do estado, que costumam ser injustas e truculentas com essas pessoas.

Eu penso que, por estar em uma situação “melhor” do que os homens que a estupraram, isto é, por Paulina ser rica, ter tido acesso à educação, saúde e tudo mais, ela não consegue se reconhecer como vítima diante das pessoas que ela vê como maiores vítimas de uma sociedade tão excludente. Ademais, eu penso que ela crê que se se reconhecesse como tal, teria sido fraca, não teria aguentado um dia sequer na comunidade, o que daria razão a seu pai.

Ela sabe, também, que a prisão, do jeito que ela é (assim como no Brasil, não é diferente na Argentina), não melhora essas pessoas – e ela sabia que se denunciasse seus estupradores, eles parariam na prisão e poderiam ter seus direitos humanos violados, por conta da truculência da polícia e por falta de recursos para suas defesas.

Por fim, Paulina posteriormente descobre que está grávida de seu estuprador e, para a surpresa de todos que estavam na sala do cinema… ela decide não interromper a gravidez. Isso fez com que seu namorado terminasse o namoro e ela nunca mais o viu, desde então. E também, foi o ápice de sua compaixão ou compreensão ou perdão…

Até aqui, eu tentei entrar no universo da Paulina, para entender o porquê da sua proteção em relação àqueles que cometeram um dos piores crimes da humanidade.

É verdade que a cadeia não os corrigiria, eles nunca tiveram acesso a uma formação humana (e foi por isso que ela foi pra lá – para dar a essas pessoas essa tipo de formação).

Só que daí começo a questionar. O machismo deu respaldo para que esses homens cometessem o estupro. Não foi a primeira vez que eles haviam cometido esse tipo de crime, e não seria a última.

Só que o machismo não é exclusividade das camadas mais pobres da população. Ele existe em nossa sociedade como um todo, apesar de atingir as mulheres em intensidades e situações diferentes.

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Paulina: suas aulas eram sobre consciência política e democracia. Foto: Hollywood Reporter

 

Essa proteção que Paulina sentiu que devia ter extrapola o limite dos Direitos Humanos?

O machismo, a misoginia e a dominação masculina fazem parte da estrutura da nossa sociedade como um todo e precisam ser desconstruídos. Paulina não foi vítima por conta da pobreza desses homens, mas sim, por toda a desigualdade de gênero presente em todas as classes e camadas populacionais. Eles poderiam ser ricos, brancos e teriam feito a mesma coisa, pois é isso que acontece todos os dias.

Paulina poderia ter se reconhecido como vítima, o que de fato ela é, que não faria dela mais fraca ou mesmo impiedosa. Eu não temo ser estuprada apenas quando estou em uma comunidade mais pobre ou nas periferias da cidade – eu posso ser estuprada em qualquer lugar, dentro ou fora de casa, na universidade, na balada cara, no churrasco da família.

Inclusive, os homens que a estupraram, primeiro não sabem que cometeram um crime, pois sentem ter propriedade sobre o corpo da mulher; segundo, que não ficarão “bonzinhos” ou reconhecerão essa piedade de Paulina; terceiro, com certeza, se soltos, voltarão a estuprar, porque não são maníacos, loucos, psicopatas ou pessoas pobres que estupram. São homens normalíssimos, como de praxe.

Não sei se essa estratégia de Paulina contribuirá com a conscientização sobre o crime de estupro naquela comunidade, mas é muito difícil julgá-la, devido a toda esse momento pelo qual ela passava e que a atriz e os diretores conseguem transmitir muito bem.

Eu sou contra o sistema prisional e carcerário, que protegem tantos (brancos e ricos) e condenam só alguns (pretos e pobres), não contribuem para a formação humana dos presos e das presas e violam constantemente seus direitos humanos. Mas também me oponho em relação à impunidade ao crime do estupro, que só reforça os valores machistas e dão respaldo ao cometimento do crime, por inferiorizar a mulher, como se seu corpo fosse propriedade de homens.

Eu penso que esse crime não está ligado à situação de pobreza ou inferioridade educacional do homem, não é exclusivo das comunidades mais pobres (ainda que as situações de violência acometam as mulheres de forma desproporcional nelas), por isso, não vejo tanto sentido na proteção de Paulina para acobertar toda a situação. Na verdade, devemos fazer uma desconstrução de todos esses valores que permitem que homens estuprem, sem medidas. Justamente porque o estuprador não tem cor e nem classe social.

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