Foto: Girls on Road

Essa figura me intriga muito – o esquerdomacho. Eu só me dei conta de que ele realmente existe depois que conheci melhor o feminismo e os demais movimentos de esquerda. Porque ser de esquerda não se resume a ser adepto à teoria socialista de Marx, nem votar no PSOL ou no PSTU, nem ser contra o conservadorismo. Ou seja, não basta ser de esquerda apenas em opiniões políticas ou achar que só existe desigualdade de classes no âmbito econômico. A esquerda vai muito além.

O esquerdomacho então paga de desconstruído, mas no fundo ele está preso a valores retrógrados tanto quanto os conservadores e desfruta da sua situação de opressor.  Por isso ele pode ser, inclusive, mais perigoso. Ele te engana em um primeiro momento e você se encanta. Mas por trás daquela figura que paga de progressista e desconstruidão há um homem que silencia outras lutas de esquerda, como o feminismo, objetifica e inferioriza as mulheres e suas lutas e não tem escrúpulos ao desfrutar de toda a desigualdade que ele, ainda que tente não aparentar, ajuda a perpetuar.

O esquerdomacho pode se assumir das mais variadas formas e aqui eu vou usar o exemplo da minha experiência pessoal.

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Foto: Obvious

 

Meu esquerdomacho favorito é assim. Ele não reconhece o valor do movimento feminista, nem para as mulheres, nem como um movimento de esquerda que luta contra a dominação de classes – mesmo argumento que ele usa na política, mas no feminismo, ele não o vê, porque ele simplesmente subjuga o movimento.

Ele não consegue ver uma mulher como intelectualmente igual a um homem e por isso ele tenta deslegitimar argumentos e opiniões. Ele prefere discutir e fazer “dialética” mesmo com outros homens.

Ele não consegue enxergar a mulher como uma companheira de discussões, construções, desconstruções, de papos cabeça: a mulher-namorada dele é só para passar o tempo, mostrar para os amigos que a “tem” e fazer sexo. O lado da inteligência dele só é usado com seus amiguitos, machos pra caramba, inteligentassos e… de “esquerda”!

Ele só procura se relacionar com mulheres-padrão. Ele quer desfilar por aí com a dona da beleza padrão da sociedade brasileira – pouco miscigenada, né – com aquele esteriótipo de mulher perfeita, pra casar, que me irrita. Com a branca, loira de mexas, rica, de família com posses e um pouco alienada politicamente falando – porque, afinal, ela é só o objeto troféuzinho dele, né.

Ele vai, então, ganhar dinheiro, fruto de seu trabalho. E vai escolher morar no lugar onde 99,99% das pessoas pensam justamente o oposto do que ele prega como o correto na sociedade. O lugar em que o panelaço é lei quando a presidenta se pronuncia na TV aberta. O lugar mais conservador, coxinha, racista, machista, homofóbico, bolsonarista, aecista, “love FHC”, “Volta Ditadura”, “Meritocracia”, “Não às cotas”, etc, etc, da cidade. Ele vai conviver com essas pessoas e dizer que “quando a gente sai da faculdade a gente tem que aprender a lidar com elas”. Só que ele ESCOLHEU conviver, não foi o acaso que o levou até lá. Ele ESCOLHEU se relacionar com pessoas assim, ninguém o forçou a fazê-lo.

No fundo, eu acho que ele se encontra nesse lugar, também. Afinal, nele ele encontra a mulher casta, submissa, a quem ele exercerá tranquilamente o seu poder. Ele encontra conforto e bem-estar, do jeito que ele acha que se deve aproveitar e desfrutar a vida.

Ele não vê um negro à sua volta que não sejam serviçais, faxineiras, porteiros e o jardineiro do condomínio-concretão-paraíso-dos-coxinhas que ele habita.

Ele tem amigos homossexuais, mas abomina qualquer característica que remeta um machão à uma mulherzinha. Ele então afirma e reafirma sua masculinidade ao achar que tarefas domésticas não foram feitas para macho exercê-las e sim… sim, sabemos a resposta.

Ele prefere comer qualquer coisa na rua do que entrar numa cozinha, algo básico para a sobrevivência de qualquer ser humano adulto. Mas esquentar a barriga no fogão? Isso é coisa de macho?

Ele é estudado, ele é inteligente, cheio de si e te encanta. Te faz apaixonar ao concordar em um primeiro momento com suas ideias, faz com que ambos se identifiquem e te deixa segura em estar com alguém tão assim… E depois você vê que ele não passa de um hipócrita, que suas atitudes não correspondem às suas palavras, que ele tem um jeito dominador no relacionamento, que ele se dá muito bem em ambientes que num primeiro momento ele parecia abominar…

Ele então se revela como o típico esquerdomacho. E todo o seu amor por ele vai por água abaixo. E você o larga, afogado no mar de hipocrisias, depois que a máscara caiu.

E lá vai ele sair a noite, dentro dos padrões, caçar mulheres-padrão, voltar pra casa com ela ao seu imóvel coxinha, e viver como um, conviver com vários, ser um.

Longe de mim.

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