Foto: A Filosofia

Uma reportagem da BBC em 2014 contava sobre um salão de beleza no Paquistão, tocado por Musarat Misbah, que ajudava mulheres que foram atacadas com ácido e tiveram suas feições desfiguradas há mais de uma década.

Isso quer dizer que é comum esse tipo de ataque no Paquistão e eu fui investigar mais. Na Índia, muitas mulheres também foram vítimas desse ato desumano. Os maiores responsáveis pelo crime são maridos ou ex-maridos, namorados ou ex-namorados ou as famílias destes.

Por quê?

A misoginia é traduzida como ódio e aversão às mulheres. Esse ódio, juntamente com a situação de inferioridade, submissão e subjugação das mulheres nas sociedades machistas e patriarcais, é responsável pela situação de enorme vulnerabilidade das mulheres, em contraposição ao poder, à superioridade e à impunidade dos homens na mesma sociedade.

A violência de gênero sistematiza as consequências do machismo e da misoginia. As agressões físicas e psicológicas, que têm como grau máximo a morte da mulher, são realidade há milhares de séculos, mas ainda são encaradas com normalidade, ou são simplesmente ignoradas, em maior ou menor grau, em diversas sociedades no mundo atual.

Dessa forma, alguns homens agridem, violam ou matam uma mulher com a certeza de que nada de anormal fizeram, de que não haverá alguma consequência e de que tais atos são justificáveis. Uma das principais causas que dão o respaldo aos homens é a ideia da posse sobre a mulher. Se ele a possui – se ela é uma propriedade sua -, se ela não tem qualquer autonomia sobre seu corpo e sobre suas vontades, ele pode fazer qualquer coisa com ela – porque ele acha que tem esse direito.

Mas quem dá a ele esse direito, quem retira os nossos direitos? O machismo concede a ele a ideia de superioridade. O patriarcado (a dominação masculina) concebe a desigualdade de gênero e a estruturaliza. A misoginia ressalta a posição de inferioridade, fragilidade e menosprezo da mulher.

Não existe justificativa para uma agressão contra uma mulher. Mas o machismo consegue forjá-la, justamente devido à desigualdade de gênero que ele perpetua. Os ataques com ácido nesses países, movidos pelo ódio contra a mulher, são “justificados” pois a mulher não tinha dote suficiente no casamento; porque não “obedeceu” a ordem do marido; porque quis terminar um relacionamento; porque lutou contra um estupro.

Por que eles acham que isso justifica? Pois creem ter a posse sobre a mulher, creem que são superiores e que elas devem obediência. Ou porque, simplesmente, as odeiam.

De acordo com a reportagem de 2011 do site Isso é Bizarro, o cirurgião plástico Ronald Miles, que ajuda na recuperação das vítimas de ácido em Bangladesh,

a intenção dos criminosos nunca é a de matar a vitima, embora muitas delas acabem morrendo e ficando cegas; o que os homens querem é desfigurar a mulher de modo que ela fique emocionalmente abalada, humilhada e com vergonha pelo resto da vida”.¹

O ácido

O acesso ao ácido é relativamente fácil e barato, por isso os agressores não encontram dificuldades para praticar o crime. Segundo o site Covil do Invuche, com tradução da reportagem original de Talisma Nasrren, os principais tipos de ácido utilizados são ácido nítrico, ácido sulfúrico, ácido clorídrico.

“Estes ácidos são fáceis de comprar, fáceis de esconder, fáceis de carregar e fáceis de arremessar. Uma pessoa que testemunhou vários ataques com ácido, disse que em menos de um minuto o osso de baixo da pele se expõe. Se houver ácido o suficiente, o próprio osso se torna uma massa de geleia. Órgãos internos também podem se dissolver nesses casos. Dedos, narizes e orelhas derretem como chocolate em um dia quente”².

É um crime de facilidade prática, de relativa impunidade e que alcança o objetivo principal do agressor: a vingança, a humilhação e morte em vida da mulher, por ela, simplesmente, ser uma mulher.

Com o ácido, as mulheres têm seus rostos e seus corpos desfigurados. Muitas perdem partes dos corpos, como o nariz e as orelhas, ficam cegas, perdem o olfato, a sensibilidade da pele. A recuperação é longa, dolorosa e cara. Muitas não conseguem pagar pelas cirurgias. E seus rostos e suas vidas nunca mais serão os mesmos.

Vítimas

Há alguns sites com reportagens sobre as algumas das milhares de vítimas de queimaduras por ácido.

Apesar de serem mais comuns em países como Índia, Paquistão, Bangladesh, há vítimas espalhadas pelo mundo inteiro, inclusive no Brasil.

  1. Paquistão
  2. Índia
  3. Brasil
  4. Diversos lugares do mundo: a); b)
  5. Mulheres que sobreviveram ao ácido

 

Vídeos

Documentário Saving Face – Assista na íntegra

BBC Brasil: Sobrevivente de ataque com ácido cria salão de beleza para ajudar vítimas

 

–//–

Essas mulheres somos nós. Não estamos “a salvo” em nenhum lugar do mundo, enquanto vulnerabilidade de um gênero X impunidade de outro forem regras. Enquanto a desigualdade de gênero e sua consequente violência de gênero existirem.

–//–

 

[¹] Disponível em: Isso é Bizarro: <http://www.issoebizarro.com/blog/mundo-bizarro/mulheres-queimadas-com-acido-no-paquistao/&gt;. Acesso em 28/10/2016.

[²] Disponível em Covil do Invuche: <http://covildoinvuche.blogspot.com.br/2013/09/sobreviventes-do-acido-aviso-imagens.html&gt;. Acesso em 28/10/2016.

 

Referências:

BBC Brasil. Disponível em: <http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/10/141029_salao_acido_lab&gt;. Acesso em 28/10/2016.

Curionautas. Disponível em: <http://www.curionautas.com.br/2014/08/mulheres-que-sobreviveram-ao-acido.html&gt;. Acesso em 28/10/2016.

Covil do Invuche. Disponível em: <http://covildoinvuche.blogspot.com.br/2013/09/sobreviventes-do-acido-aviso-imagens.html&gt;. Acesso em 28/10/2016.

Isso é Bizarro. Disponível em: <http://www.issoebizarro.com/blog/mundo-bizarro/mulheres-queimadas-com-acido-no-paquistao/&gt;. Acesso em 28/10/2016.

Folha NewsLetter. Disponível em: <http://folhanewsletter.blogspot.com.br/2012/08/mulheres-sofrem-ataques-brutais-no.html&gt;. Acesso em 28/10/2016.

G1. Disponível em: <http://g1.globo.com/sc/santa-catarina/noticia/2015/12/mulher-queimada-com-acido-pelo-ex-tem-alta-apos-10-meses-em-joinville.html&gt;. Acesso em 28/10/2016.

Brasil Universo Digital. Disponível em: <http://brasiluniversodigital.blogspot.com.br/2012/12/mulher-que-teve-rosto-queimado-com.html&gt;. Acesso em 28/10/2016.

 

Anúncios