Foto: CD Vagabundo

Cidades devem ser agradáveis de morar, afinal, trocamos a beleza e o bem-estar da natureza por um asfalto quente e um mar de concretos para chamarmos de lar.

Eu sempre brinco que a minha cidade natal, Belo Horizonte, foi pensada e “planejada” por pessoas que acreditavam que a capital mineira, cercada por montanhas, não iria crescer tanto como o Rio ou São Paulo. E é aí que a gente chega naquela ideia de que BH é capital com “ar de cidade do interior”… O que é bem mais ou menos. Temos todos os mesmos problemas das demais grandes cidades, só que não nos desenvolvemos a ponto de supri-los, ainda que parcialmente.

O que é mais marcante aqui, a meu ver, é a ineficiência do transporte público, algo que consome horas e mais horas dos nossos preciosos dias. Além de ser caríssimo para os padrões salariais pagos na capital, o serviço deixa muito a desejar, apesar de até haver inúmeras linhas de ônibus e de ter havido uma recente implantação do BRT.

Desvendando e desmitificando o transporte coletivo em BH

 

  1. Acabe com o mito de que “ônibus é coisa de pobre”, porque o custo de serviço em BH é extremamente alto e tem que ter grana para bancá-lo.

 

É muito comum aqui no Brasil essa ideia de inferiorizar o transporte público, e com todo o preconceito possível, dizer que é algo para quem é pobre, ou seja, quem não pode comprar um carro.

Só que, enquanto o salário médio em BH e região metropolitana gira em torno de R$2000 em 2016, segundo o site economia.uol, o preço de cada passagem, dentro da cidade, é de R$3,70. Isso quer dizer que, na melhor das hipóteses, se morarmos dentro de BH e pudermos pegar apenas dois ônibus por dia, vamos gastar, por mês, uma média de R$150.

Só que as coisas não são bem assim. Poder pegar um tipo de ônibus por dia é algo raro aqui, e geralmente as pessoas utilizam 4 linhas por dia. Com alguns descontinhos, o valor mensal sobe mais uns R$100 por mês. E, se formos considerar as pessoas que vivem na região metropolitana, cujo valor de cada passagem gira em torno de R$4,90, e que é praticamente impossível pegar um ônibus só até o centro da cidade, o valor vai para R$300 ou mais.

É maravilhoso que tenhamos assegurado o direito ao vale transporte no trabalho e, ainda que não seja obrigatório às empresas, é uma prática muito adotada por elas no mundo laboral (até então). Porém, e quem não tem o vale transporte, como, no geral, os estudantes e as estudantes que não se enquadram nos requisitos para obter o meio passe?

Fica muito caro! Por isso, desmitifico o senso comum que predica que transporte público é para “pobres”. Pelo menos, em BH, isso não se encaixa.

 

  1. Considere sair com muita antecedência de casa, principalmente nos horários de pico (e quando for encontrar com o gatinho, pra não queimar o filme).

 

E mesmo que saiamos com a devida antecedência, corremos o risco de atrasar, porque muita coisa pode acontecer nesse meio tempo. Comigo, sempre acontecia (e ainda acontece) de, ao estar na iminência de chegar ao ponto do ônibus, vê-lo passar, correr e apenas dizer adeus. Daí, a gente coloca no mínimo, mínimo mesmo, mais um 15 minutos para o próximo passar. Dependendo, esse intervalo pode chegar a 45min ou mesmo 1h.

Além disso, como o transporte é na superfície, as avenidas de BH são super estreitas e o número de veículos chega a milhares, pode ter trânsito a qualquer hora do dia. Se chover então, é bom colocar mais 1h aí no trajeto.

Por isso, atrasar pode até se tornar justificável quando você disser que é culpa do ônibus. A chance de ser verdade é quase 100%.

 

  1. Prepare-se para virar sardinha enlatada

 

Os ônibus de BH, apesar de parecem grandões, possuem poucos assentos internamente. O BRT então, praticamente não tem lugar para assentar-se. É muito fácil o ônibus lotar, isso pode acontecer em questão de duas paradas. É aquilo de todo mundo entrar e ninguém sair. É muito desconfortável, principalmente quando a gente está com mochilas e outros apetrechos. Tem hora que os motoristas dão umas freadas que chegam a ser perigosas, a gente pode até se machucar. Salvo quando temos muito calor humano ao nosso redor, o que pode também amortecer essas alavancadas.

Enfim, eu confesso que até me sinto mal quando consigo sentar e vejo um monte de gente em pé. É como tirar a sorte grande.

E sempre que estou cheia de coisas nas mãos, começo minha oração para encontrar uma boa alma que se ofereça para segurá-las para mim. Eu tento ser essa boa alma para outras pessoas, quando posso.

 

  1. Considere também ficar horas no trajeto, até o ponto de destino

 

Muitas horas são gastas em deslocamento por transporte público aqui em BH. O tanto que a gente tem que sair com antecedência, o que a gente espera no ponto e o tempo que demora dentro do ônibus.

Parece que a gente nunca vai chegar.

Eu tentei encontrar soluções pra isso, como ler e estudar, apesar de saber que pode não ser bom “para as vistas”.

Eu tento seguir os conselhos dados pelos consórcios, os quais são estampados nas traseiras dos veículos: já li livros inteiros, fiz revisão para provas… Também já tentei meditar, já criei dois filmes e três séries mentalmente, já dormi de sonhar… Só não consegui fazer amizades. Ainda posso chegar lá.

 

  1. Tente não se lembrar de cidades com bons transportes públicos, finja que o metrô não existe, saiba que helicópteros realmente são só para os deputados e… Agradeça todos os dias pela Uber existir.

 

BH é uma cidade que precisava muito de um metrô subterrâneo e de trens de integração com a região metropolitana, devido à alta demanda e ao enorme uso do transporte público pela população, diariamente.

Dá vontade de chorar ao ver pontos fictícios de “prospecção” em datas próximas às eleições estaduais ou municipais. Infelizmente, é um sonho muito distante para quem mora aqui.

Eu também nunca vi carro como solução, apesar de, sim, até posso concordar que essa seja a única saída, ao menos no curto prazo, para quem tem condições de adquirir e manter um veículo próprio.

Com certeza tudo é mais rápido de carro, mas não tem como escapar do trânsito, os preços dos estacionamentos são altos, a gasolina é combustível poluente e caro, temos que rezar para Nossa Senhora das Vagas antes de sair à noite, além de nos limitarmos nas festinhas, se formos dirigir.

Com certeza a Uber fez uma revolução, pelo menos na minha vida, porque outra coisa quase que impossível de usar são os táxis, que além de caríssimos, deixam muito a desejar também no serviço e no custo-benefício.

Mas… Tudo continua o mesmo… Da janela do ônibus vejo centenas de carros, que cabem 5 pessoas, apenas com uma dentro; mais uma aventura para pegar a condução; chegar em casa parece impossível; e no dia seguinte, nos meses seguintes, nos anos seguintes: tudo igual.

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