Foto: Taringa (Créditos)

Originariamente escrito em 30/01/2016, às 1:55, depois da  ida a um teatro misógino na campanha de popularização do teatro e da dança de Belo Horizonte

O nome da peça? “Homem é tudo igual, não vale um real”? Está novamente na campanha esse ano.

Fiquei até o final escutando barbaridades proferidas por um ator que, no fim, disse “amar” as mulheres, pois elas são “princesas”, são “perfeitas”. Minha vontade foi de levantar e ir embora na segunda fala sexista e misógina dele. Não sei porque não fui! Mas como ele mesmo disse, as mulheres desse teatro pagaram pra ver, ficaram até o final, depois de terem sido massacradas, e assim o são também na vida, no dia-a-dia. Sempre com o sorriso no rosto, pois é assim que nós somos: reconhecemos nossa situação de opressão, sabemos quem são os opressores, eles sabem bem o que fazem, todos sabem que não é justo, mas é assim e ponto.

O mais triste ainda é saber que o texto da peça foi escrito por uma mulher.

O cara já começa com aquilo que é mais abominável na sociedade contemporânea: a definição dos papéis do homem e da mulher. Distinção de gênero às claras.

Justifica porcamente a ‘soberania do homem’, o homem macho provedor que caçava enquanto as mulheres ficavam nas cavernas. E o lugar delas é mesmo em casa, quietinhas, submissas, com uma boa trouxa de roupa pra lavar, chão pra varrer e louça na pia.

Pensamento das cavernas que se permeia até hoje. E na boa, fazer brincadeiras com isso, algo tão sério, tão frustante, TÃO ERRADO. Não dá pra aceitar mais.

Além de tudo, fez questão de jogar na cara de todo mundo que estava ali o fardo que nós carregamos desde Gênesis. Sou católica mas tudo tem limite de interpretação. Não dá mais. As mulheres são culpadas pelo pecado do mundo pois foi Eva que convenceu Adão a comer a maçã proibida. E como castigo, veio a dor do parto.

Um discurso desse em 2016. Isso é pra chorar. Está na Bíblia mas é tão injusto, tão triste, tão massacrante.

E depois disso, tinha como não piorar?

Pergunta para um casal na plateia se a namorada alguma vez já pagou o motel. Ela responde não, e pra quê? Na hora de dividir a conta no bar, a mulher foge. Se o cara tem carrão, ela dá pra ele ao abrir a porta do carro.

Quando imita mulher, faz vozinha fina, pose de retardado. Justifica que estamos na TPM quando exigimos nossos direitos, reclamamos daquilo que nos incomoda, falamos das atitudes ruins do parceiro e que nos fazem mal.

A solução: dá um chocolatinho que ela fica calada. Faz um ‘sexo gostoso’ que ela aquieta.

Que merda.

Fiquei atônita, a plateia ria tanto, homens batiam palmas a cada fala grotesca do ator.

Por um momento percebo que a luta nunca pode cessar. Há muito que avançar, esses preceitos estão enraizados. A visão que se tem da mulher é a pior que se pode ter. Objetificação, submissão, inferioridade, incapacidade, histeria, loucura.

Loucura é pensar que nos dias de hoje uma peça dessa é aclamada pelo público, é considerada engraçada e divertida.

Rir da desgraça alheia, rir de algo tão sério, que prejudica simplesmente metade da população mundial.

E o final: o homem extremamente machista, sexista e misógino reconhece que as mulheres são, na verdade, lindas, maravilhosas, perfeitas, guerreiras e que os homens é que são uma merda mesmo. Então, a solução é, mulheres, se valorizem mais, não fiquem correndo atrás desses merdas. A culpa é suas do que acontece com vocês, de vocês serem espancadas e violentadas por esses canalhas, porque vocês não reconhecem o valor de vcs e ficam indo atrás. A culpa é SUAS, desde que Eva mordeu aquela maça!

A culpa não é do idiota, do opressor, do babaca, que existe assim porque é legitimado a existir. A culpa nunca é do macho, é a mulher que aceita e ainda corre atrás.

Não consigo entender. Não consigo aceitar.

E o conselho mor: homens, reconheçam a princesa que vcs têm, do tipo, pode bater, desrespeitar, gritar, achar que é chata, falar das celulites, trair, espancar, machucar com palavras, mas aí vc dá um buquê de flores pra ela. Elogia quando colocar aquele vestido. Dá um chocolate. Dá umas migalhas aí de carinho falso, porque aquela idiota vai se sentir bem, já que estar com você, fisgar homem, é o grande objetivo da vida dela.

Não teve nada de bom nisso tudo. Saí ainda mais estarrecida com os mil aplausos. Uma verdadeira aula de ódio às mulheres. E o nome da peça:  “Homem é tudo igual. Será?”. Não falou um momento sobre homens. Só profanou ódio ao sexo feminino,  justificando os erros do homem pelas atitudes da mulher.

Perdi 1h20 da minha vida. Ou, talvez, não. Isso me dá mais forças para nunca desistir de lutar, não perder minhas esperanças, continuar engajada, confiar nas pessoas que reconhecem o quanto esse sistema mata as mulheres, aos poucos, desde que nascem no quarto monocromático rosa.

Não passarão. Não mais.

O chamado da peça:

Ele exige dividir a conta de bar?
Ela demora 2 horas para se arrumar?
Ele não te dá carinho na TPM?
Ela só quer o seu dinheiro?
O ciúmes acaba com você?

Seus problemas acabaram!!!!!!

Corre para o Teatro Izabela Hendrix e venha curtir

“Homem é tudo igual. Será?”
Comédia com Guilherme Oliveira
Direção de Eri Johnson

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