Foto: Pinterest

OBS: O texto foi pensado no relacionamento heterossexual e monogâmico, mas poderia valer para outros tipos de relacionamento também, talvez. 😀

O meu contato com o feminismo começou quando eu tinha por volta dos meus 21 anos. Eu estava em um intercâmbio universitário na França e passava muito tempo pesquisando sobre diversos assuntos em francês, para ler e aprimorar meus conhecimentos na língua. As primeiras coisas que li que me remetiam ao movimento feminista foram sobre casos de estupros, que eram relatados em um Tumblr de forma anônima pelas vítimas.  A partir daí, entrei em um caminho sem volta no Feminismo e me tornei uma pessoa muito mais autônoma e feliz, pois consegui afastar e enterrar tantas neuras e tantos mitos que me assombravam desde muito pequena.

Homens e mulheres são criadxs em uma sociedade completamente machista, misógina e permeada pela dominação masculina – patriarcado. Por isso é comum que muitas mulheres reproduzam machismo, já que estiveram sob o mesmo efeito da criação pautada na desigualdade de gênero.

Dessa forma, eu naturalizava atitudes machistas em homens e as minhas próprias, concordava que meus relacionamentos fossem assimétricos e esperava viver um amor romântico da forma mais cruel possível. Por me sentir tão inferiorizada, eu aceitava qualquer coisa, pensava que homens faziam o favor de ficarem comigo e achava que estava na vantagem por estar em um relacionamento, por alguém finalmente me querer, coisa que seria tão rara e eu não poderia “desperdiçar” esse então grande favor que faziam a mim.

O caminho que me levou a um maior autoconhecimento e finalmente à consciência de que eu não precisava de mais ninguém, além de mim mesma, para me sentir completa e feliz, não foi tão longo após meu contato com Feminismo, mas também não terminou ainda. Quando comecei a consolidar melhor meus conhecimentos sobre o movimento feminista e realmente me vi como uma mulher feminista (nem melhor nem pior que ninguém, apenas feminista), passei a me questionar sobre como seriam meus próximos relacionamentos, já que deixaria de aceitar tanta coisa, questionaria e refutaria tantas outras, não passaria por cima de nada para manter as aparências.

Gostei de uma passagem do livro da Saffioti, que fiz que “as feministas não deixam de ser feministas, nem são mal amadas, feias, invejosas do poder masculino. São seres humanos sem consciência dominada, que lutam sem cessar pela igualdade social entre homens e mulheres, entre brancos e negros, entre ricos e pobres (Saffioti, 2004: 100 – Grifo meu).

Se quando eu tentava ser a cool girl tantos foram babacas e sacanas comigo, quando me tornei feminista, mais empoderada e mais auto-suficiente, continuaram a sê-lo. Por isso, optei por continuar no meu atual formato. Nunca vou esconder quem eu sou para agradar alguém, não vou pisar em ovos e fingir que concordei com uma fala ou uma atitude machista, mas também não vou obrigar que concordem ou pensem de forma análoga a mim, nem me iludir achando que vou encontrar um “feministo” por aí, até porque, apesar de ser legal que homens apoiem o movimento feminista, eles nunca poderão ser seus protagonistas.

Assim, eu chego a um beco sem saída, pois sei que homens poderão ser muito machistas e que não vão concordar com nada do que eu pense, do que eu diga, com a forma como eu vejo um relacionamento: mais equilibrado e sem relação de dominação/submissão. Continuo arriscando? Espero um tempo para ler as entrelinhas, analisar as atitudes? Falo de cara sobre as minhas ideias, ou, na verdade, sobre o que hoje se tornou a minha essência?

E se eu “assustar” alguém o qual estava gostando de conhecer, de sair, de conversar? Será que ainda valeria à pena ficar com um cara que se assuste com a ideia radical de que mulheres são também seres humanos, que fazem parte do mundo político, que têm direitos e deveres da mesma forma que homens? (Claro que o feminismo não se restringe apenas a uma emancipação individual da mulher, mas essa “definição” é algo mais fácil de ser assimilado para um contato inicial).

Isso pode ser complicado, e olha que a minha geração já possui uma cabeça muito mais aberta e mais progressista – não como um todo -, mas há mais chances de encontrar alguém assim nela.

Eu sempre fico muito chateada quando um relacionamento não vai para frente e sempre me torturo pensando o quanto eu assumo atitudes que me remetem à modernidade líquida. Só que eu reflito e chego à conclusão de que, prolongar um relacionamento no qual sou tão diferente do cara, não há nem mesmo um interesse nem um respeito em relação às minhas ideias e aos meus estudos, e ele ainda já mostra indícios de machismo (ou mesmo de misoginia) – porque ninguém consegue manter uma máscara por muito tempo -, pode ser muito mais perda de tempo, desgaste de energia e causar uma maior decepção ainda, o que pode gerar traumas a relacionamentos futuros.

Por isso, com os dois pés no chão e a racionalidade em alta, é melhor não continuar se tivermos que abrir mão de tanta coisa que conquistamos às duras penas; se há indícios de que o relacionamento vá ser muito desequilibrado e até abusivo; se não haverá um mínimo de cumplicidade e de compreensão; se haverá desentendimentos pautados em relação à superioridade e à inferioridade de um(a) de outrx; se só quem vai abrir mão de tudo é a mulher para que o relacionamento dure.

Por isso, baseando em experiências próprias e que valem mesmo para mulheres que não se consideram feministas, 3 dicas:

  1. Não finja ser algo que você não é só para agradar e por medo de afastar a pessoa. Melhor manter a autenticidade desde o início e detectar compatibilidades e incompatibilidades logo de cara.

Eu não creio que isso seja o mesmo de já chegar e começar a dar aulas sobre o Movimento Feminista para o parceiro em potencial, nem começar uma espécie de doutrinação que tantos abominam, mas falar abertamente sobre suas ideias, sobre seus valores e sobre sua repugnância a qualquer atitude machista, não só que ele possa a vir a tomar, mas do mundo em geral.

É muito ruim ficar engolindo sapos, rindo de piadinhas machistas ou fingindo concordar com pensamentos machistas só pelo medo de a pessoa se afastar. Se ele tomou a liberdade para falar abertamente que acredita em uma inferioridade feminina ou uma superioridade masculina sem se preocupar e sem ao menos considerar que está mantendo um relacionamento com uma mulher, por que devemos ficar ressabiadas em desconstruir tudo isso, que é tão prejudicial para ambos?

  1. Se você é daquelas que paga a sua parte na conta do bar, que tem sua vida financeira independente e que acha uma besteira mesmo ficarem abrindo a porta do carro para você e etc, fale logo no início.

Há um discurso de que as mulheres são responsáveis pelos homens ficarem mais frios, porque, olha só, elas não aceitam que os homens sejam cavalheiros! Porque é difícil mesmo abrir uma porta de um carro? Ou é um pecado eu pagar pelo que eu comi se eu tenho dinheiro para isso?

Enfim, se ambos concordam que é o cara que vai pagar a conta toda e que é bonitinho abrir a porta do carro, tudo bem. Mas se você não gosta disso, não se sente à vontade ou simplesmente não quer, não precisa fingir que quer.

A meu ver, tem sim uma ideia incrustada de passividade feminina, subalternidade, dependência financeira e troca de favores nisso tudo. Por isso, eu falo logo de cara, de forma educada e normal, que eu prefiro que as coisas não sejam dessa forma. Há outras maneiras de demonstrar preocupação e carinho em um relacionamento.

  1. Não ache que é você que tem que abrir mão da sua vida para que o relacionamento dê certo, que você tem que dar provas de amor, e que é feio colocar a sua vida profissional e pessoal antes de qualquer coisa.

É visto com muita naturalidade e normalidade o fato de a mulher abrir mão de sua carreira, de seus estudos, de sua vida pessoal, para seguir a vida do parceiro. A recíproca não é nem de longe verdadeira. Por isso, se para o relacionamento continuar, a mulher tiver que abrir mão de seu emprego que é também o seu sustento, para ficar com o homem, não há que se pensar em alternativas. Se ela decide por continuar com o trabalho, é fria, má e única responsável pelo relacionamento dar errado!

Tive uma experiência na qual a pessoa me perguntou se eu estava disposta a abrir mão de algum sonho para ficar com ele. Ele não poderia abrir mão de nada da vida dele por motivos nobres. Os meus, então, não eram vistos como tão importantes e tão nobres e… Bom, não deu certo. Porque eu coloquei sim em primeiro lugar minha profissão e meus estudos. Únicas coisas mais certas e que garantirão, ainda que com muita luta e com desigualdades, minha autonomia e minha emancipação como sujeito na sociedade.

Dessa maneira, colocar-se em primeiro lugar não é egoísmo: é uma atitude que demonstra maturidade emocional e que garante que um relacionamento seja muito mais saudável e nivelado.

Se o cara começa a pedir tais provas, ou a impor suas vontades ou mesmo limites a você (como começar a falar para você não usar tal roupa, a restringir com quem você conversa ou sai) logo no início: Nunca ignore esses sinais, nunca! Não é necessário tanto tempo para sabermos que um relacionamento será abusivo.

Ou concessões e renúncias são feitas por ambxs xs parceirxs, ou cada um(a) segue sua vida.

Como diz a Chimamanda, homens foram ensinados a ter medo de mulheres empoderadas e nós fomos ensinadas a sermos sempre passivas, submissas e complacentes. Objetos de conquista, nunca sujeitos com vontades e complexidades. E se um homem tiver medo por você ser feminista, ter ideias progressistas e que vão na contramão do senso comum, esse cara realmente não é para você.

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