Foto: Diários de uma Feminista (Créditos)

O que aconteceu com Manuela d’Ávila na última edição do programa “Roda Viva”, como ela mesma disse, não foi exceção: é a regra, aquela que silencia as mulheres todos os dias, em diversas esferas da vida – no trabalho, na universidade, nos lares, no exercício político.

Sempre escrevo sobre como é difícil e tortuoso o caminho de inserção e de estabelecimento das mulheres na vida pública, que nunca pertenceu a elas. A tentativa de manutenção da assimetria de poder entre os gêneros, e das relações de autoridade, de superioridade/inferioridade, dominação/submissão, é muito evidenciada nas várias vezes em que as vozes das mulheres são silenciadas.

Na política, as mulheres são bastante subrepresentadas. No Brasil, somos a maioria da população, mas possuímos um número ínfimo de participação política. O grande exemplo é que somos apenas 10% de congressistas. Ademais, já escrevi que, ter uma mulher na política não significa também que ela irá lutar pelos direitos das mulheres e contra as discriminações de gênero. Muitas estão ali representando grupos conservadores, até porque esse é um caminho escolhido por muitas: ficar do lado do opressor quando sente que tem algum “poder” em suas mãos e, justamente, visando à manutenção desse poder. Na política, a mulher fala menos, e, talvez quando fale, apenas reafirma valores conservadores.

Na vida privada, muitas mulheres brancas, de classes mais altas, ainda permanecem, dentro de seus lares, em um sistema de hierarquias e autoridades e, fora dele, no ambiente de trabalho, sofrem diveros tipos de discriminação, além da ainda disparidade salarial, que gira em torno de 30%, quando ocupa um mesmo cargo, com a mesma qualificação ou ainda mais alta, que seu colega homem. As mulheres mais escolarizadas têm, muitas vezes, suas ideias apropriadas, e muitas são as tentativas de as desqualificarem e duvidarem de suas inteligências.

As mulheres negras ocupam o maior nível de pobreza no Brasil. Na era colonial, eram estupradas diuturnamente pelos senhores brancos. Elas são maioria nas estatísticas de feminicídio. São elas que mais sofrem com a violência doméstica, mas que também veem seus filhos morrerem todos os dias por homicídios. Elas ocupam os empregos mais marginalizados e de baixo prestígio. Suas vozes nunca foram escutadas.

Quando nos inserimos no espaço público, ocupamos cargos políticos, escrevemos artigos, dirigimos uma empresa e,consequentemente, a assimetria de poder tende a diminuir. Nossa palavra fica mais creditada e não se duvida mais quando uma mulher diz que foi estuprada, por exemplo – a culpabilização da vítima também diminui. E nós temos um grande público, afinal, somos maioria, mas também, estamos exercendo cada vez mais a sororidade, e percebendo que juntas somos ainda melhores.

Porém, isso causa medo e espanto. É uma alerta aos que sempre estiveram nas posições de superioridade, pois é difícil agora dominar quem tem consciência de seu próprio poder. Alguns vão até às últimas consequências, como aconteceu com Marielle Franco: uma voz feminina, negra, da favela, no meio político, dos homens brancos, velhos e aristocráticos.

No dia a dia, essas tentativas de silenciamento ocorrem nos pequenos detalhes. Ela ficou escancarada com o episódio da presidenciável Manuela d’Ávila. Em vários momentos do programa, não podemos chamar de “entrevista” aquilo que me pareceu um bando de pessoas despreparadas e reacionárias, que faziam perguntas bobas, nada a ver com as propostas que todo e toda candidata à presidência possui, e que deveria ser o foco do programa, de acordo com o que dizem ser seu principal objetivo.

De acordo com o site da Carta Capital, Manuela foi interrompida 62 vezes em 1:20 de programa, enquanto Ciro Gomes o fora 8 vezes e o Boulos, que também tem um posicionamento de esquerda, 12 vezes.

Esse tipo de comportamento é conhecido como “manterrupting”, mas ele também foi reproduzido por uma mulher que compunha a bancada do programa. Assim, vemos que nós não estamos imunes a reproduzir machismos e é importante que fiquemos atentas para nunca cometermos deslizes com nossas companheiras de luta.

De uma forma não muito original, escreverei sobre os quatro tipos de atitudes que silenciam, oprimem, manipulam e tentam desqualificar as mulheres no que tange à inteligência e à capacidade de liderança.

 

  1. Manterrupting

O manterrupting sofrido por Manuela, e por tantas mulheres de modo corriqueiro, acontece quando homens interrompem o raciocínio da mulher, impedem que ela o conclua e, assim, ela não consegue expor seus pontos de vistas, suas opiniões. Ela simplesmente não consegue falar.

Infelizmente, havia uma mulher na bancada, fazendo as mesmas coisas que os seus coleguinhas. Isso acontece porque nós também fomos criadas na mesma sociedade misógina, machista e patriarcal e, por vezes, tendemos a reproduzir as opressões que também nos acometem, quando temos as condições para tanto.

Eu creio que o manterrupting é não apenas um recurso utilizado pelos homens para descreditarem as mulheres, atrapalhá-las e fazer com que elas pareçam não ter raciocínio logico, mas também, é um mecanismo de defesa, já que muitas das coisas que a mulher falaria, e falaria muito bem, o homem não teria conhecimento para estabelecer um debate no mesmo nível, e se esquiva, interrompendo e também desviando o assunto incialmente proposto.

Por fim, também creio que essa atitude demonstra arrogâncias e prepotências que estão presentes em muitos homens, os quais se sentem livres e respaldados para cometer essa tremenda falta de educação e de respeito em relação a outro ser humano.

Existem vários exemplos de manterrupting no meio político, ele fica nítido em debates. A Dilma sofreu muito com isso, seus entrevistadores ou debatedores eram muitos agressivos, com direito a dedada na cara (Luciana Genro também, em 2014). Porém, em conversas informais, de botequim, na família, nós também temos que enfrentar homens, a todo momento, interrompendo-nos, impedindo-nos de falar, argumentar, concluir raciocínios. E só eles falam. E falam muita, muita besteira.

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  1. Mansplaining

O mansplaining é um mecanismo utilizados pelos omi para nos explicarem coisas óbvias, triviais, próprias do corpo feminino ou mesmo da área de formação pela qual somos graduadas. É aquela velha ideia de eles nos devem apresentar o mundo, explicar a razão de tudo, pois são eles que detém todo o conhecimento do universo. Isso também remete à ideia de que somos incapazes de entender as coisas por nós mesmas, que somos intelectualmente inferiores e que são eles que possuem o papel de nos dar esclarecer os enigmas da vida, por mais óbvio que seja.

O mansplaining também se apropria do discurso da mulher, e tenta minimizar nosso sofrimento diário por conta do machismo. Um exemplo é quando um homem tenta explicar por que as mulheres gostam de cantada; ou por que elas se sentem de determinada maneira na TPM, ou por que a menina que sofreu um estupro coletivo, na verdade não sofreu um estupro coletivo….

Eu não me lembro de ter sofrido muito com o mansplaining dessa maneira, mas aproveito o gancho para dizer o quanto é preocupante quando homens mais velhos, pessoas mais velhas em geral, usam o argumento de que velhice = sabedoria para dizer o quanto estou errada, ou o quanto sou inocente por pensar de tal e tal forma. Já me disseram que eu corroboro com ideias feministas e progressistas porque eu sou muito novinha e ainda não sei nada da vida. Só que eu penso o contrário: quanto mais certeza uma pessoa tem de saber alguma coisa, mais fadada está a viver em uma completa e eterna ignorância.

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  1. Bropiating

O Bropiating acontece quando um homem se apropria da ideia ou do pensamento de uma mulher, torna-se o “dono” dela e recebe o mérito em seu lugar. Isso acontece porque, inicialmente, o que a mulher tem a dizer é constantemente desmerecido, desacreditado, mas quando um homem discursa, ele já traz uma carga legítima de poder e de propriedade sobre sua fala. Assim, uma ideia brilhante de uma mulher pode não ter efeito algum sobre sua carreira profissional, mas, quando apropriada por seu colega, pode lhe causar a ascensão a um cargo de gerência, por exemplo.

Isso pode acontecer bastante, também, no meio acadêmico, no de patentes, nasdemais pesquisas cientificas, nas criações e nas invenções tecnológicas.

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  1. Gaslighting

A história desse termo é bem interessante. Ele provém do enredo da peça de teatro e do posterior filme “Gaslight”, em que o marido convence sua esposa de que ela vem enlouquecendo, para que ficasse com sua herança.

O Gaslighting é um abuso psicológico sofrido por várias mulheres em seus relacionamentos, e que afetam a sua sanidade mental. De tanto o parceiro colocar em dúvidas suas alegações, dizer que a mulher está louca, exagerando ou inventando situações que realmente ocorreram, ela mesma passa a duvidar da realidade dos fatos.

É uma forma de manipulação que transforma o abusador em vítima, já que, ao dizer que sua parceira “está louca”, quando ela vê mensagens de teor sexual em seu whatsapp com outra mulher e supõe que ele a está traindo, o homem cria um escudo por trás da suposta loucura de sua parceira e a responsabiliza por ter tido aquele pensamento ou suposição. Assim, a mulher estará muito mais propícia a não acreditar em fatos ou em suas intuições e tenderá a permanecer em relacionamentos abusivos.

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Fontes na internet

https://movimentomulher360.com.br/2016/11/mm360-explica-os-termos-gaslighting-mansplaining-bropriating-e-manterrupting/

https://www.buzzfeed.com/florapaul/homens-parem-com-mansplaining?utm_term=.uy8KA4VGPP#.ryoljemnrr

https://thinkolga.com/2015/04/09/o-machismo-tambem-mora-nos-detalhes/

https://superela.com/mansplaining-termos-machistas

https://www.cartacapital.com.br/politica/manuela-davila-ganha-apoio-apos-ofensiva-machista-no-roda-viva

https://www.geledes.org.br/14-sinais-de-que-voce-e-vitima-de-abuso-psicologico-o-gaslighting/

https://brasil.elpais.com/brasil/2017/09/15/internacional/1505472042_655999.html

 

 

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