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Observações: Usei um tom mais revoltado e afirmativo ao longo deste texto, mas ressalto que não julgo as mulheres que recorreram às cirurgias plásticas estéticas – aqui, trabalharei no campo da vitimização.

Os padrões de beleza variaram bastante ao longo do tempo, e todos sempre foram muito cruéis.

Abundância, cintura fina, ossos protuberantes, curvas, cabelos curtos, cabelos longos e lisos, pele muito branca, pele bronzeada, corpo violão, magreza com algumas curvas, corpo malhado… e o mais engraçado é que, talvez, a gente não se encaixaria em nenhuma dessas coisas, mesmo que vivêssemos em épocas diferentes.

Deve ser porque não deveríamos nos preocupar com os padrões, e nem alimentarmos ambições em atingi-los. Deveríamos, ao contrário, acabar com eles! Porém, isso não é fácil, porque vivemos em sociedade e, uma vez inseridas nela, somos influenciadas diuturnamente pelas tendências… se não as seguimos, é como se desobedecêssemos a regras e a protocolos que nos levam à punição.

A punição é sentir-se um peixinho fora do aquário (vivemos em aquários e caixinhas…), é ver nossa autoestima a níveis abaixo de -20, é não se sentir desejada, é não conseguir encarar o espelho, é como se fossemos criminosas, transgressoras, subversivas, porque estamos comendo demais, engordando, e isso faz mal para a… saúde! (essa é a melhor desculpa).

O feminismo branco, das classes mais abastadas, lutou muito para a inserção das mulheres em um mercado de trabalho dominado por homens. A conquista das mulheres a profissões mais valorizadas, mais bem-pagas, gerou um sentimento de independência e autonomia financeira, apesar da ainda disparidade salarial e da dupla jornada existentes.

Acontece que, se pararmos para pensar, e ainda com a ideia da “renda complementar” do salário feminino (ele não é “essencial à sobrevivência da família, em situações de conjugalidade, pois é o homem o “provedor”), com o que as mulheres das classes médias e altas gastam uma boa quantia do seu dinheiro? Com produtos de beleza. Com salões de beleza. Hun, isso já ficou no passado. Agora, de forma mais profunda, muitas mulheres vêm usando seu dinheiro em cirurgias plásticas e outras intervenções (ou também pedindo-as como presentes a seus familiares).

A indústria da beleza só existe porque vimos historicamente financiando-a. Quantas mulheres da minha idade não queriam arrumar um logo um emprego para poder comprar produtos tão desejados, ou colocar, finalmente, um silicone…

Mas o problema não é a gente querer fazer isso, o problema é a gente achar que temos que fazê-lo para poder viver. Sentir-se bonita é, antes de tudo, aceitar-se como humana. A beleza está na diversidade e, ao mesmo tempo, da unicidade de cada mulher que vive nesse planeta. A beleza deve ser possível, o caminho não deve ser tão longo, tão estreito, tão tortuoso, tão cruel, para alcançar o que supostamente é considerada a única alternativa.

Não deveria ser difícil ser bonita, sabe? Nós já somos lindas, só não nos deixam saber disso.

Pareço revoltada, mas confesso que estou.

Essa semana, eu li uma reportagem da UOL que compilou o caso de três mortes de mulheres, em menos de 10 dias, por conta de cirurgias plásticas, aqui no RJ.

Mulheres tão lindas. Tão mais lindas antes das intervenções, as quais estão se tornando mais um passe obrigatório rumo ao alcance do padrão de beleza irreal e, consequentemente, inalcançável!

Uma pagou caro a um médico não especialista que fazia suas cirurgias em casa. A outra até foi a uma clínica, e quando atestou que estava passando mal no pós-cirúrgico, ouviu que isso era normal. Quando morreu, a família escutou do advogado de defesa que foi uma fatalidade, não ligada à cirurgia plástica. A última recorreu a um método mais “barato”, com uma pessoa não qualificada para tanto, e morreu. Ela era mais jovem que eu.

A verdade é que procedimento barato, procedimento caro, feito com médico com CRM, ou sem CRM válido, que tem residência em cirurgia, ou sem residência alguma, com pós de verdade, com pós fictícia, o risco de morte existe, e as mulheres não deveriam pensar que suas vidas valem menos que uma aplicação de plástico no bumbum. Não deveria valer o risco.

Só que, para tantas, não faz sentido viver, ao não se sentir adequada, boa e bonita o suficiente para a sociedade. Não é para si, não é para o marido ou para o crush. É para o “mundo” (ou para uma caixinha entre várias caixinhas que conformam o mundo), para pessoas que nem sabemos quem são, mas que talvez vão nos admirar se estivermos nos conformes.

Eu não falo isso julgando essas mulheres, eu falo porque eu também vivo isso e também já quis fazer plásticas… Já odiei meu corpo, já quis raspar o meu cabelo porque ele não era liso.

Gosto muito de conversar com o meu namorado sobre como é cruel essa questão da beleza feminina, como seria mais fácil se todas as mulheres soubessem que não precisam de aprovações quanto ao modo de vestir, quanto à cor do cabelo, quanto aos seus quilos, quanto às suas curvas ou à falta delas. Nós começamos a namorar quando eu estava lendo “O Mito da Beleza”, da Naomi Wolf e, à época que ela escreveu, início da década de 90, ser magra era o que definia o valor da mulher. Acho que foi nessa década, a que eu também nasci, quando os profissionais de saúde passaram a levar a sério doenças como Anorexia e Bulimia.

Eu brinco com ele que antes, bastava ser magra (os ossinhos tinham que aparecer também), para ser suficiente. E quando a gente emagrece, é normal que fiquemos com menos peito e menos bunda, porque perdemos gordura em todo corpo né. Só que, hoje em dia, o padrão é ser muito magra, barriga chapada, mas com um peito muito grande e uma bunda muito, muito grande também. Mas é quase que naturalmente impossível isso acontecer e, mesmo que passemos a malhar e etc, nosso corpo não vai ficar igual à subcelebridade do Instagram… Porque ela fez várias cirurgias, como lipoaspiração, silicone nos seios e PMMA no bumbum, mas disse que conseguiu tudo “malhando”.

A representação das mulheres, em todas as mídias, está cada vez mais irreal e não humana. Filtros, photoshops, estão fazendo com que pareçamos mais um desenho. Não há maquiagem, base, botox, ácido hialurônico que consiga um resultado tão próximo disso.

Enquanto aparentamos estar mais livres, independentes e desprendidas, a questão da beleza parece ser ainda muito eficiente para nos dominar, para ainda não nos sentirmos p-l-e-n-a-m-e-n-t-e livres, independentes e desprendidas. Por isso é que Wolf diz que o conceito da beleza feminina é político, pois ele é ainda um ótimo instrumento utilizado pela nossa sociedade – machista, misógina e patriarcal – para continuar a nos dominar e a nos oprimir (e também, para nos extorquir!).

Na última conversa que tive com meu namorado sobre isso, logo após ter lido a reportagem que mencionei lá em cima, eu disse a ele que considero cada mulher que se submeteu a uma cirurgia plástica uma sobrevivente. E eu não acho que a beleza deveria ser uma questão de vida ou morte (literalmente), que ela não deveria ser mais um instrumento para matar as mulheres. Ele sempre me tranquiliza ao dizer que sou linda do jeito que sou, e eu só acredito nesse elogio porque eu comecei a me aceitar (é pesado, mas a gente tem, antes de qualquer coisa, nos aceitarmos!) e a me achar bonita. Nessa última vez, eu o agradeci e finalizei que sim, eu ainda permaneço humana! e que não gostaria de ser uma representação gráfica e irreal de uma mulher. Isso não é ser mulher, nem é só assim que se é “bonita”.

Não deveríamos.

=//=

Digitei no Google “Cirurgias Plásticas Mortes”:

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