Foto: MundoPic

A tragédia que acometeu o Museu Nacional do Brasil – um incêndio que destruiu quase todo o seu acervo, no último domingo -, fez reacender debates polarizados, culpabilizações, acusações com alguma ou nenhuma noção e, principalmente, o sentimento de perda de uma parte da nossa cultura que nem sabíamos o que era.

A maioria das pessoas que conheço, que moram ou não no RJ, nunca havia visitado o Museu. Ele fica na Quinta da Boa Vista, no bairro de São Cristóvão, zona norte da cidade. Foi residência da Família Real e tem uma grande área verde, com lugares para piqueniques e recreações.

Tive a oportunidade de visitá-lo há quase exatamente 1 ano. Gostei do que vi e fiquei surpresa, pois não esperava tanto. Na verdade, eu mal sabia que havia um museu de grandes proporções ali. Lembro-me de ter pagado um preço bem baixo (ainda mais com meia de estudante) e sei que, se fosse um pouco mais caro, eu desanimaria de entrar, já que visitei tantos museus maravilhosos na Europa, muitos até gratuitos então… Eu talvez achasse que não teria nada a perder.

Porém, nós perdemos muito, e só nos demos conta quando o incêndio foi noticiado. Eu me pergunto, de quem era o interesse em manter o museu funcionando, em preservá-lo, além de seus pesquisadores e de seus funcionários, já que a população tinha tão pouco interesse em conhecê-lo, ou mal sabia de sua existência?

No Brasil, nós temos a mania de achar que tudo que a gente faz é ruim, é pior, não presta. Sempre valorizamos o que vem no exterior. Admiramos a Europa, é um dos destinos favoritos para uma primeira viagem ao exterior, quando isso é possível. Na parte econômica, é a vez dos EUA o papel de maior exemplar.

A nossa modernização foi representada com a vinda de imigrantes europeus para compor um novo sistema econômico e uma nova dinâmica nas relações de trabalho, após o fim da escravidão. Uma classe média emergente passou a deter o domínio do capital cultural, a partir de ideais europeizados.

Incialmente, para que a nossa sociedade se modernizasse, era necessário afastar-se de qualquer influência considerada inferiorizante, da qual faziam parte as culturas de matrizes africanas, e dos povos originais do território, os indígenas. O embranquecimento da população era fundamental para o alcance dessa modernização e, ainda que Gilberto Freyre tenha, posteriormente, formulado uma teoria que enaltecia o mulato, o pardo, eu interpreto que tal pardo esteve muito mais próximo ao branco do que ao preto, por isso que ele é “bom” o suficiente para também ser um sujeito modernizante. Ademais, o pardo pode ser tanto mais branco, quanto mais ele possuir um modo de vida semelhante àquele na esfera econômica, e também na esfera cultural e social.

Dessa forma, eu acredito que nós nunca aprendemos a “valorizar”, nem ao menos “reconhecer” nossas raízes culturais mais profundas, porque ela foi dita inferior, insuficiente. Com um espírito ainda muito colonial, como se tudo que aqui fosse nascido e produzido seria secundário à metrópole, nós crescemos aprendendo a tirar sarro de nós mesmxs. Nós nos achamos genuinamente seres corruptíveis, achamos que nunca daremos certo, que o nosso destino é o colapso moral e material, sem nos darmos conta de que há uma produção de pensamento e de conhecimento colonizadores que nos afirmam, diuturnamente, tais falácias.

Às vezes, culpamos até mesmo os nossos colonizadores iniciais por todo o nosso fracasso, porque, convenhamos, quem nunca ouviu ou até concordou que Portugal é um mero “quintal da Europa”? Sem ao menos pensar que relações de hierarquias, poderes e autoridades foram criadas de forma original neste território, e elas são as mesmas, só que sempre renovam as suas máscaras.

O pensamento colonizante, também chamado de complexo de vira-latas, pode ter impedido um anseio maior não apenas pela preservação de um Museu de grandes proporções como o Nacional, mas também pela falta de interesse em, antes de qualquer coisa, preservar a nossa história e também vê-la contada por outros ângulos, com outras nuances. Deveríamos saber não apenas da sua existência, mas que somos um país capaz de ter um Museu como esse. Muitos não sabiam, ou ainda não sabem que somos capazes.

Tentar culpar governos é sempre uma saída para uma zona de conforto, para nos eximirmos, mais uma vez, de algumas de nossas responsabilidades. Apesar de crer que a diminuição no repasse de recursos às áreas de educação e de cultura sejam fundamentais para explicar algum desleixo administrativo, sei também que a deterioração de museus e de outros centros culturais não é algo recente. É por isso que tentei escrever esse texto, buscando uma explicação mais profunda para que isso tenha acontecido, sabendo, também, que há outros museus que passam pela mesma situação de degradação. A nossa falta de interesse, de forma geral, pela cultura brasileira, ao mesmo tempo em que não deixaríamos de reconhecer a importância de um Louvre, revela um abismo na forma como a nossa história aconteceu, na forma como ela é contada e na forma como ela ainda é reproduzida em nossas relações. Tal desinteresse contribui para o nosso descaso geral e, infelizmente, eu penso que amanhã ou depois não estaremos mais falando sobre museu ou cultura: o assunto poderá talvez ser encontrado em alguns memes que já circulam por aí.

 

 

Anúncios