Neste texto, eu buscarei escrever sobre as pessoas que comem carne, mas sabem que essa prática não é tão bacana – quase a totalidade das pessoas com quem eu converso.

A maioria fica espantada quando eu digo que sou vegetariana e, olha só, isso não me espanta mais. Acontece que eu nem mesmo preciso elencar os motivos pelos quais eu me tornei vegetariana. As próprias pessoas carnívoras começam a mostrar um vasto conhecimento sobre a crueldade que existe na criação e no abate da carne que comem, confessam que “se pudessem” ou “se conseguissem” parariam de comer carne e, por fim, elogiam essa minha força de vontade. Quando isso acontece, eu fico muito feliz, mas logo a pessoinha vai lá e espeta um pedaço de carne na mesa do bar. Sei que vai demorar muitos e muitos anos para que evoluamos, por completo, na questão do respeito aos animais.

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Faço parte da classe média brasileira, cujos “membros” possuem muitos anos de estudos, muitos recursos, muitas opções, muitas possibilidades no tange à sua alimentação. Dessa forma, considero inaceitável dizer que não haveria outras opções de comida que não fosse a carne proveniente do abate, ou o peixe, seja aquele retirado do seu ambiente natural, seja o proveniente de cativeiros.

Tampouco penso que comer carne seja um critério de diferenciação social nos dias de hoje (sabemos que a classe média ama um critério de diferenciação social, certo??), inclusive, as comidas vegetarianas costumam ser mais caras do que certas comidas carnívoras (o que também não é legal, pois assim restringimos, a uma determinada classe apenas, a opção de ser vegetariana).

Então, o que nos leva a pensar que temos que continuar a comer a carne? Por que a indústria (e blogueiros) agora tentam passar que comer carnes engorduradas, cheias de antibióticos ou de hormônios é mais saudável do que comer leguminosas, frutas ou cereais integrais, por exemplo, com as tais dietas “low carb”? Por que ainda somos tão reféns dessa exploração capitalista primordial, que é consumir carne, muito além do que precisamos, para enriquecer o bolso das grandes indústrias agropecuárias? Por que não paramos para ver que é a criação de gado a atividade que mais desmata as nossas florestas, que mais consome a nossa água potável, que mais destrói os nossos solos? Por que ainda insistimos em acreditar que esses animais não sofrem muito quando morrem, que existe “abate humanizado”, que isso é algo primitivo, da cadeia alimentar? Nunca nos tornaremos melhores enquanto continuarmos a coadunar com essa indústria.

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Se um ser sofre, não pode haver justificação moral para recusar ter em conta esse sofrimento. Independentemente da natureza do ser, o princípio da igualdade exige que ao seu sofrimento seja dada tanta consideração como ao sofrimento semelhante – na medida em que é possível estabelecer uma comparação aproximada – de um outro ser qualquer (SINGER, 1990, p.24).

Bom, descrevi 8 pensamentos que eu creio que as pessoas carnívoras possuem para que continuem a comer carne, mesmo sabendo de todos esses males que acabei de citar.

Gostaria de dizer que eu convivo com pouquíssimas pessoas veggies, não deixo de amar as pessoas que comem carne, não faço militância em prol do vegetarianismo no dia a dia, mas eu considero esta uma causa muito nobre. Eu fiz uma revolução individual, tenho menos crises de consciência e posso dizer, verdadeiramente, que amo os animais, porque procuro respeitá-los e não os inferiorizo, antes de tudo. Nunca pensei que fosse conseguir “converter” alguém a se tornar veggie, mas me sinto livre para chamar a atenção de quem come carne, sobre todos esses malefícios, até porque a galera sempre se achou muito livre para julgar e criticar “quem só come mato”! 😉

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  1. Inferiorizar os seres não humanos, ao mesmo tempo em que se enaltece o ser humano

Segundo Singer (1990), tal diferenciação se chama especismo. Vemos que, ao longo da história, os seres humanos estabeleceram que são superiores aos demais animais (em certas religiões, os humanos é que são semelhantes a Deus) e que, por isso, devem dominá-los, o que significa que possuem sobre eles o controle de suas vidas. Por seremos considerados “animais racionais”, cremos que somos os melhores.

Eu creio que é essa inferiorização dos demais animais que nos dá respaldo para fazermos diversos tipos de maldade com eles, ou utilizá-los para nosso benefício, quando convém.

Qual o problema em matar um animal inferior, “que não pensa”? Esquecemos que esses animais sofrem muito quando morrem, apesar de “não pensarem”. Mas o que é o sofrimento do animal perante a minha vontade de comer a sua carne, que é tão “boa”?

Acontece que eu acho que nós somos uma espécie que desaprendeu as maneiras de boa convivência, apesar de nos acharmos demais, high techs! Nós não vivemos em harmonia com a natureza, nós apenas a destruímos; nós não caçamos animais apenas para a nossa sobrevivência, nós os criamos para matá-los e comemos muito mais do que deveríamos; nós desquilibramos vários ecossistemas; nós nos diferenciamos com base em critérios de raça, gênero e classe social; nós usamos o mundo ao nosso favor e não percebemos que estamos nos auto-destruindo junto!

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Não deveríamos pensar que somos os melhores e achar normal criar outros animais para comê-los. Nós deveríamos aprender com os animais a sermos pessoas muito melhores!

  1. Diferenciar os animais domésticos, aka “pets” – e destinar todo o amor a estes – dos animais “comestíveis”

Vejo muitas pessoas falando que amam animais, mas sinto que esse é um amor muito seletivo. E só é possível fazer essa seleção porque os humanos carnívoros fazem uma espécie de categorização entre os animais – os que podem ser criados para o abate e os que são fofinhos e vivem no apê junto com eles – os cachorros, porque, para muitos, gatos também são ruins e não merecem o seu amor.

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Assim, queria dizer que, por mais que você ache que não há problema em comer aves e mamíferos tão (ou mais) desenvolvidos que o seu cachorrinho – bois, vacas e porcos -, há problema sim! Esses animais sofrem muito quando morrem, o mesmo tanto que o cachorro sofre quando o matam para comê-lo na Coreia do Sul.

De todos os animais consumidos no mundo ocidental, o porco é, sem dúvida, o mais inteligente. A inteligência natural de um porco é comparável, e talvez seja mesmo superior, à de um cão; é possível ter porcos como animais de companhia e treiná-los para responder a ordens simples, tal como um cão (SINGER, 1990, p.98).

Assim, acho mais coerente quando um carnívoro especifica o animal que ama, pois, enquanto for conivente com o sofrimento dos animais abatidos, não tem como generalizar esse amor…

  1. Abstrair que o pedaço de carne que se come era um animal que sofreu

Já ouvi muitas pessoas me dizerem que não conseguem imaginar que aquela carne moída era um boi que foi criado e marcado para morrer. Mas essa é uma estratégia muito boa da indústria da carne. A bandeja que contém um pedaço do animal, toda embaladinha, é só o produto final de um processo que gerou tanto sofrimento, tanta destruição da natureza.

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Eu sei que se você tivesse que matar um boi para comê-lo, você não conseguira. Eu acredito na bondade das pessoas. É muito difícil um ser humano comer um animal que criou, cuidou, teve certa proximidade. Não dá para saber qual era o animal do qual você compra o seu pedaço para cozinhar. Na verdade, é melhor nem pensar que aquilo era um animal – e o gosto é bom. No fim, tudo é compensado pelo prazer momentâneo de comer essa carne.

A compra de comida numa loja ou restaurante é o culminar de um longo processo, do qual tudo, com excepção do produto final, é delicadamente afastado da nossa vista. Compramos a nossa came em embalagens de plástico limpas. Quase não sangra. Não há razão para aucociar esta embalagem ao animal vivo, que respira, caminha e sofre qualquer (SINGER, 1990, p.82).

  1. Menosprezar os alimentos de origem vegetal

Não existe uma pessoa vegetariana que não tenha se deparado com uma das perguntas mais bobas, feitas por quem quer humilhá-la, classificá-la como uma ET porque não comer carne, descreditar a sua causa ou tentar justificar a barbaridade que é comer um animal que foi criado para o abate:

“Ah, você não come carne?? O que você come então??”

Bom, eu já escrevi isso em outro texto. Neste, queria ressaltar que, apesar de não ser da área de nutrição, eu posso dizer que os alimentos de origem vegetal são tão ou muito mais saudáveis que a carne recheada de hormônios e antibióticos que o pessoal “normal” come.

No senso comum, o que seria mais saudável? Um prato com muitas folhas, legumes, verduras, cereais integrais um potinho de salada de frutas (gente, tanta coisa, mas o que eu como?? Haha), ou um prato com um monte de carne gordurosa, batata frita e arroz branco??

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Enfim. Acredito que é muito melhor que obtenhamos os nutrientes diretamente dos vegetais a obtê-los de forma indireta, a partir da ingestão da carne, já que o boi também comeu vegetais para sintetizar as proteínas.

Alan Duming, um investigador do Worldwatch Institute (um grupo de especialistas em assuntos ambientais baseado em Washington D.C.), calculou que meio quilo de bife criado num cercado custa dois quilos e meio de cereal, 11 250 litros de água, a energia equivalente a 4,5 litros de gasolina e a erosão de cerca de 18 quilos do solo superficial. Mais de um terço da América do Norte está ocupada com pastagens, mais de metade das culturas dos Estados Unidos são forragens e mais de metade da água consumida nos Estados Unidos destina-se ao gado. Em todos estes aspectos, os alimentos vegetais são muito menos exigentes em termos de recursos e do ambiente (SINGER, 1990, p.131)..

 

  1. E superestimar a carne, como se este fosse o único alimento “completo”, além de ser “saboroso”

Muitos me dizem que a carne é um alimento completo, essencial na dieta, mas como vimos, nós podemos diversificar nossa dieta e obter tudo o que a carne oferece – ou muito, muito mais – diretamente pelos vegetais.

Da mesma forma, há muitos alimentos de origem vegetal que contêm muito mais nutrientes, tais como ferro e cálcio, do que a carne.

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Segundo Singer, em um exemplo sobre a cruel produção de carne de vitelo,

São necessários cerca de onze quilogramas de proteínas em ração para produzir meio quilograma da proteína que chega aos humanos. Recuperamos menos de 5 por cento daquilo que investimos. Não admira que Frances Moore Lappé tenha chamado a este tipo de criação “uma fábrica invertida de proteínas”(SINGER, 1990, p.129).

Claro que é muito recomendável que nós façamos sempre um acompanhamento com nutricionista e exames periódicos para medir nossos níveis de vitaminas e proteínas. Alias, eu acho que isso é válido para todo mundo, porque eu creio que uma pessoa que viva só de carne e evite alimentos vegetais também apresentará déficits em vitaminas e proteínas!

Quanto ao sabor, eu sempre proponho um desafio: coma uma carne crua, sem molho, sem tempero, sem nada. Não vai ser bom! Mas uma cenoura crua é uma delícia! (pareço fanática né), mas é isso, a carne precisa passar por muitos processos até se tornar “saborosa”, os vegetais, quase nunca… Por fim, acho que o sabor que ficou bom ainda não justifica a existência dessa indústria cruel, e acredito que nós precisamos ter mais discernimento e ponderação: o que vale mais? A crueldade com os animais criados para serem abatidos ou o “prazer da carne”?

  1. Justificar o consumo da carne proveniente do abate como se fosse “cadeia alimentar” ou “natural ao ser humano”

Aqui, temos que explicar o óbvio (como eu adoro falar): a criação intensiva de animais nada mais tem a ver com cadeia alimentar! O ser humano deu vida aos animais que serão abatidos para o seu consumo, eles não existiram na natureza “normalmente”. Aliás, o ser humano alterou complemente o seu modo de vida, como se eles fossem objetos: colocam as aves em micro gaiolas, porcos em espaços muitos menores do que os naturais, vacas leiteiras em cubículos… Além de alterarem toda a sua dieta e separarem as mães de suas crias. Não há nada de natural nisso.

Ademais, se o consumo de carne de abate fosse provinda da tal “cadeia alimentar”, o ser humano então deveria ir lá ao pasto caçá-la. Ao contrário ele/ela vai ao supermercado e compra um pedaço do cadáver, bem mortinho e embaladinho.

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Diante disso, eu creio que as pessoas comem muito mais carne do que comeriam de forma “natural” e a crueldade é muito maior do que aquela da época das cavernas: o humano acha que tem esse poder, de fazer gerar uma vida, privá-la de qualquer dignidade e tirá-la quando bem entende, visando apenas ao lucro. E o ser comum se alimenta dessa carne toda modificada, pedaços de sofrimento, achando que é natural!

  1. Dizer que não “vive sem carne”, ou que não se sentiria “saciado” se não a comesse, sendo que nunca passou sequer 1 dia da vida sem comê-la

Sinto dizer, mas a gente vive sim! Vive bem, vive melhor, faz bem pra alma, pro corpo.  A gente consegue trabalhar melhor a espiritualidade (para quem busca isso). A gente se sente mais leve, o estomago não pesa. Até o hálito melhora!

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Experimente passar pelo menos alguns dias da semana sem comer carne… A diferença será nítida.

  1. Por fim, achar que é “saudável”, “low carb”, se empanturrar de carne e não comer carboidratos essenciais a nossa saúde

Eu fico abismada com pessoas que querem emagrecer, recusam vários tipos de alimentos essenciais, porque tem carboidrato, ficam se empanturrando de carne e me chamam a atenção, porque como fruta, e fruta tem “açúcar”! Sério, fui uma vez a churrasco no qual havia pessoas em dieta, estavam comendo carne igual a primatas e achando um absurdo quem colocava farofa ou arroz no prato.

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Já acho que isso é uma bitolação. Excesso de proteínas faz muito mal, bem como a falta de carboidratos essenciais à nossa existência.

Não é brincadeira: há dietas que recomendam até parar com o consumo de leguminosas, porque tem algum carboidrato ali. E pior, geralmente quem passa essas dietas para os outros nem são formados em nutrição ou em alguma área afim.

Sabe quem ganha com isso? A indústria da carne, apenas. Quem perde: todo mundo!

Há ainda outros cálculos que atestam que a maior parte dos americanos consome entre duas e quatro vezes mais came do que aquela que o corpo consegue utilizar. As proteínas em excesso não se armazenam. Algumas são evacuadas e outras são convertidas pelo corpo em hidratos de carbono, sendo esta unia forma dispendiosa de aumentar a ingestão de hidratos de carbono. A segunda coisa que é necessário saber acerca das proteínas é que a came é apenas um alimento entre muitos outros que contêm este nutriente; distingue-se dos outros, no entanto, por ser mais caro (SINGER, 1990, p.140).

 

De acordo com Singer (1975), o Direito dos Animais exige de nós mais responsabilidade, mais empenho e, também, muita empatia, já que eles não conseguem formar um grupo organizado para lutar pelos seus direitos, certo? Assim, eu considero os seres humanos opressores em grau máximo no que concerne à exploração dos animais, já que nos aproveitamos de suas incapacidades para criá-los e matá-los, a nosso bel prazer.

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Por isso, fica uma reflexão, a partir de um provérbio chinês (que tenho como um guia de orientação para tudo que faço na vida): é muito pior fazermos algo que sabemos que é errado do que fazê-lo sem saber. Portanto, a partir do momento em que nos conscientizamos sobre tudo que está por trás do hábito de comprar e comer a carne, a nossa responsabilidade aumenta – e muito – sobre a vida desses animais e sobre o modo como essa indústria age perversamente em busca de lucros, às custas da natureza, às custas da nossa saúde.

Para continuar a contribuir com os lucros astronômicos de seus donos, deixamos de lado qualquer ética, qualquer empatia, qualquer ação em prol dos animais, com a justifica de que eles são alimentos, e o pior: de que comer o seu cadáver é algo saudável.

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