Foto: Tropolis

Era uma manhã cinza, dessas que não dá vontade de fazer nada. Todo dia era assim, e eu pensava: se eu não acordar, for à escola e depois trabalhar, o que me restará fazer? Preciso sobreviver em Londres, preciso falar o idioma que escuto nos meus filmes preferidos, leio nos meus livros favoritos, aquele que ouço – e canto – nos maiores hits do momento.

Só que, hoje, eu não tenho que fazer nada disso. É um dia ocioso, e eu preciso preenchê-lo de alguma forma. Desde o dia em que o Tom terminou comigo, porque eu não topei a proposta de relacionamento aberto, amor livre, poli amor, ou qualquer outra definição melhor, eu me vejo sozinha aqui, a tantas milhas do meu verdadeiro lar. Estou cercada de pessoas que fingem ser, mas que não são, minhas amigas, e que se enfurecem com o meu sucesso: eu falo inglês razoavelmente bem e tenho um subemprego cobiçado, já que a maioria está desempregada.

Fiquei alguns dias sem comer e me perguntaram se eu estava doente. Eu devia estar doente, mas de uma doença invisível, que vem lá de dentro, e não dá para explicar. Durante esse período, eu tinha apenas dois momentos de alegria: um, quando eu bebia e me esquecia de todos os problemas que, até então, eu achava que só acometiam as pessoas fúteis, e o outro, quando eu ia à Igreja pedir perdão pela bebedeira da noite passada e sentia que estava, de fato, perdoada.

Esse período de tristeza parecia ter passado, e a minha vida se resumia em encontrar o verdadeiro amor. Esse amor, que eu pensava que havia encontrado e me culpava por tê-lo deixado ir embora. Um amor que eu buscava em outra pessoa, pois não conseguia encontrá-lo em mim mesma. Ao mesmo tempo em que o meu maior desejo era ser amada, eu achava que nunca seria merecedora desse sentimento. Como alguém poderia gostar de uma menina como eu? Que nada tinha de especial, a não ser que ele seria o primeiro a me tocar? Era isso que eu tinha de diferente das outras.

Eu não mereço o amor de ninguém, mas não vou me entregar a qualquer um que pensa que merece o meu amor. E o Brad, definitivamente, não teria a minha confiança. Ele não faz meu tipo, veste-se mal e não quer fazer nada além de jogar videogame. Ultimamente, eu venho pagando todas as nossas contas nos pubs e nos restaurantes. Nós não nos vimos ontem porque ele me disse que não tinha dinheiro para pagar a passagem de ônibus até Kensington. Hoje, ele me ligou, depois de ficar o dia inteiro desaparecido, e me chamou para ir à casa dele, em Camden, pois ele e os amigos farão uma festinha.

Pensei por alguns segundos, hesitei por alguns milésimos de segundo e aceitei. Não estou fazendo nada mesmo e, pelo menos, o Brad beija bem – talvez seja a única coisa que combinamos.

Não estava tão tarde, mas já estava escuro: as noites aqui são muito longas durante o inverno. Chovia fino quando saí de casa, estava bem agasalhada, com gorro e cachecol, todos vermelhos, a minha cor preferida. Eu não queria dormir lá. Dessa vez, não iria ninguém que eu conhecia, e as meninas que moravam com ele estavam viajando – eu sempre dormia no quarto delas. O dinheiro estava curto, eu só iria receber o meu salário na próxima quarta-feira. Nesse momento, eu pensei em voltar, mas o Bus 27 já havia percorrido mais da metade do caminho. “Vou, ficarei um pouco e voltarei para casa, nem que eu pague um táxi com o que me resta de libras”. Eu não voltei.

Ao chegar, a casa estava já uma farra, o Brad me abraçou e me beijou, todos os convidados sorriram para mim e logo perguntaram o que eu queria beber. Eu também havia decidido que não iria beber hoje, precisava dar um tempo. Sempre que bebia, eu ficava muito vulnerável e o Brad estava constantemente tirando a minha calcinha e tentando me tocar, quando eu me deitava para dormir, antes de a Ina chegar e expulsá-lo do quarto dela.

“Já que você está indecisa hoje, vou te apresentar uma bebida que minha amiga Patrizia trouxe diretamente da Itália. Você vai adorar”, disse-me Colin, o simpático amigo do Brad. “Tudo bem, só um pouquinho”, e esse pouquinho se multiplicou em várias doses de Limoncello, tão suficientes para que eu não conseguisse mais ficar em pé: de bêbada, de sono, de preguiça, de querer somente a minha cama.

Disse para o Brad que queria dormir, e ele me levou até o quarto dele. O quarto da Ina estava emprestado para um casal de amigos holandeses. Eu concordei, contanto que ele dormisse na cama do Manoel, seu colega de quarto, que era de Portugal. Ele concordou, mas ainda não era hora de dormir. O cheiro de álcool que eu exalava se misturava com o cheiro de lençol sujo e, depois, com o cheiro de suor do Brad. Eu escutei o barulho da porta se trancando e o Brad já estava em cima de mim. Eu o beijei por alguns instantes, mas então o empurrei, eu não o queria ali. Ele então me segurou mais forte e tirou a calça jeans que eu havia comprado na Primark. Sem qualquer pudor, sem qualquer proteção, sem eu querer, mas sem relutar, o Brad me estuprou. Eu fiquei estática. Eu não sabia o que estava acontecendo. Durou alguns minutos, mas em minha memória, sei que perdurará pela eternidade. Acordei em sua cama, dolorida, mal conseguia andar. Dei bom dia ao Brad. Queria não acreditar. Tentei me consolar ao pensar que ele era o meu namorado, afinal. Ele me deu um comprimido de pílula do dia seguinte como café da manhã. E logo me propôs fazer mais uma vez, e eu pensei, agora, não tenho mais nada a perder. Dessa vez, ele colocou o preservativo e eu permaneci, novamente, estática, como se estivesse assistindo, a mim mesma, ser estuprada mais uma vez.

Já se passaram umas 10 horas, desde o momento em que eu havia, mentalmente, combinado de ir embora. O Brad iria sair para procurar emprego e eu iria substituir um colega no turno da noite. Ele se despediu de mim como se nada tivesse acontecido e, antes de descer as escadas, questionou por que eu não havia sangrado, já que eu dizia que era virgem. Ao franzir as sobrancelhas, sei que ele pressupôs que eu havia mentido. Nós não combinamos de nos ver de novo, mas eu pedi que ele me ligasse para contar qualquer novidade sobre sua saga em busca de trabalho.

Ele não me ligou.

Minhas amigas disseram que era para eu ser mulher e parar de chorar, afinal, é normal transar quando estamos em um relacionamento.

Entre beber ou ir à Igreja, eu apenas me afundei em prantos, as minhas lágrimas molhavam a minha alma, eu estava encharcada de tristeza, de solidão, de revolta. Eu tentava pedir socorro, mas minha voz não ecoava debaixo d’água e eu sentia que estava me afogando, ainda que soubesse nadar. Finalmente, decidi que tudo não passou de um pesadelo, para que a minha vida não terminasse ali.

O Brad se casou e tem duas filhas.

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