Foto: Pinterest

Eu penso que nós somos um povo que não conhece bem a sua própria história.

Com o princípio de que somos “cordiais” e “pacíficos”, preferimos não encarar os nossos monstros do passado, dos quais se destacam o longo período de escravidão e as duas décadas de ditadura sanguinária, entre muitas outras pendências.

É mais fácil dizer que “somos todos irmãos” e que não há distinção de cor entre os brasileiros, do que encarar o racismo que nos assola desde o início de uma parte da nossa história, chamada civilizada, e que está presente nas nossas instituições, nas diversas simbologias e de forma pragmática, que se materializa no acesso a bens e serviços, bem como aos diversos capitais (econômico, social e cultural).

É mais fácil inventar uma “ameaça” de alguma coisa e associar militarismo a segurança, do que encarar todos os prejuízos que a Ditadura Militar nos causou, os quais perpassam diversas arbitrariedades, o estabelecimento do próprio cidadão brasileiro como inimigo, a censura ao pensamento livre, as centenas de mortes pelas mãos do Estado e os exílios de quem não aceitava viver sob tanta repressão. Aliás, atualmente, vejo pessoas que querem negar o termo “ditadura”, para dar legitimidade a um período tão sombrio da nossa história.

É muito mais fácil menosprezar os nossos povos autóctones, ao dizer que eles não eram evoluídos e estavam predispostos à sua própria dominação e destruição, do que encarar a dura realidade: europeus brancos vieram aqui, dizimaram nossos indígenas, impediram que eles se desenvolvessem dentro de suas culturas e tentaram apagar suas religiões, suas línguas, seus conhecimentos (que eram e são tão vastos, por sinal). Porém, isso pode ser legitimado, afinal, sem esse domínio, nossos indígenas ficariam para trás no que tange à “civilização”.

Por fim, é muito comum ver homens dizerem que todos os direitos que nós conquistamos são, na verdade, consequência da “evolução da sociedade”. Isso me irrita muito, pois anulam-se todas as lutas e todas as dificuldades pelas quais as mulheres feministas estabeleceram e passaram, para que eu pudesse escrever esse texto e você pudesse lê-lo, entre tantas outras coisas. Essa ideia é de fácil assimilação e é por isso que muitos conseguem diminuir a importância do Movimento Feminista, ou até negá-la completamente.

Dessa forma, ao fazer tudo isso, nós estamos, mesmo sem saber, reafirmando, todos os dias, a existência de um patriarcado cruel que não apenas faz o que bem entende com o território brasileiro e o seu povo, mas cria uma narrativa fácil de ser contada e absorvida pelas pessoas médias,

Sem conseguir confrontar os fantasmas que nos assombram, procuramos, incessantemente, pela razão dos nossos males. Esses já foram os indígenas “atrasados”, os negros “de raça inferior”, os pobres, os “comunistas”, a esquerda, as feministas… É impressionante como não conseguimos enxergar o tanto que somos instrumentalizadxs por um elite que sempre esteve no poder, que trata a classe média como marionete e banaliza a pobreza, a ponto de tentar excluir a problemática da estratificação social, num dos países mais desiguais do mundo, vide agora, com mais clareza, com a tentativa do apagamento das Ciências Sociais na Academia.

Como a sociedade brasileira romantiza os capítulos mais sombrios de sua história?

 

  1. Ditadura Militar (1964-1985)

  • Negam a sua existência;
  • Dizem que foi um período de prosperidade, muito devido às obras faraônicas realizadas, principalmente, durante a década de 70.

Esse tal crescimento ocorreu à custa de uma enorme dívida externa e não gerou benefícios para a população em geral: a concentração de renda ficou ainda maior e a pobreza se agravou.

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Foto: Toda Matéria
  • Colocam os opressores como herói, por terem combatido o suposto inimigo, que foram alguns grupos de resistência.

Essa é uma receita fácil: primeiro, você cria o seu inimigo. No caso, foram os comunistas. Depois, tudo vira justificativa para abater esse inimigo, como no front de guerra. Deus, família e propriedade são jargões fáceis de terem tidos como “seus” pela classe média, certo? Assim, aquele que combate o inimigo, seja lá qual for, vai tentar se heroicizar. Ah, não podemos nos esquecer de todo o terrorismo que fizeram, caso o tal inimigo conseguisse o poder. Por isso, é melhor aceitar tudo que fazem, afinal, os opressores livraram os cidadãos “de bem” das coisas “horríveis” que aconteceriam sob o jugo dos comunistas…

  • Dizem que a Ditadura acabou porque já tinha cumprido a sua missão. Assim, negam todas as lutas da população contra este regime opressor e o seu papel fundamental para que esse período sombrio não fosse ainda mais extenso.

 

  1. Escravidão (Séculos XVI a XIX)

  • Comemoram 13 de maio e reforçam a benevolência do branco.

Não problematizam o que foi feito, muito menos o que não foi feito, após a assinatura da tal lei;

  • Ignoram todas as lutas de escravos e escravas contra o regime opressor e apagam, literalmente, os seus nomes da história.

Nós não conhecemos muito bem a história dos escravos e ex-escravos revolucionários, que tanto lutaram e perderam as suas vidas em busca da liberdade para todos eles. Não tomamos um maior conhecimento dos quilombos e da sua extrema importância até os dias de hoje.

  • Romantizam as relações entre senhores brancos e escravos, como se pudessem ser harmoniosas em alguns momentos – isso tudo se o/a escravo/a fosse “bom/boa”, “digno/a merecedor(a)” do tratamento cordial pelo seu senhor.

Dessa forma, nós não temos muita dimensão de como eram, realmente, essas relações e o tanto que o racismo se pauta até hoje no apagamento da hostilidade, da violência e da opressão aos escravos pelos brancos. Acho que o nosso maior problema, antes de tudo, é negar o racismo institucional brasileiro e as diferenciações de raça, sempre pela forjada relação harmoniosa entre as raças e as classes. Ademais, não paramos para pensar que o embranquecimento da nossa população se deu sob a égide do estupro das mulheres negras pelos senhores brancos. Ao contrário, preferiram caricaturar a mulher negra como “fogosa”, que gosta de sexo. Assim, o estupro não é visto como estupro, a mulher negra é legitimamente explorada sexualmente e colocada no “seu lugar”, já que nunca se tornaria esposa de um homem branco, por exemplo.

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Quadro de Debret, “O Jantar”
  • Podemos ver muitos exemplos dessa romantização em novelas e até em literaturas.

A narrativa que nos é passada é a de que a escravidão foi sim algo muito ruim, mas só se o senhor branco fosse um homem ruim. Parece que os escravos e as escravas eram sempre passivos e conformistas com o regime de escravidão. Não é problematizada a violência que acontecia desde a captura da pessoa negra, até sua chegada aqui. Em suma, o/a negro/a nãé e narrador(a) da sua história, pois tudo lhe foi tirado, e nós enxergamos todo o processo somente pela ótica do opressor, da melhor forma que convém para ele.

 

  1. Povos Indígenas

  • Negam a exploração e a matança indígena brasileira pelos europeus brancos, e justificam essas atrocidades ao inferiorizar os povos nativos.

Quem nunca se fantasiou de índio de forma grotesca (quando criança mesmo… ou seja, nós já crescemos escutando apenas um lado da história) e ficou imitando o seu modo de expressar de forma jocosa? Quem nunca escutou alguém dizer que “índio é burro”? Quem nunca ouviu pessoas inteligentes exaltarem os indígenas da América Espanhola e da América Norte, e menosprezarem os indígenas brasileiros? Quem nunca negou a necessidade da preservação das aldeias indígenas em nome do progresso? Quem ainda continua negando a existência autônoma desses povos e as suas diversas capacidades?

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Benedito Calixto: Anchieta e Nóbrega na cabana de Pindobuçu
  • Dizem que não houve escravidão indígena e forjam que a catequização dos povos autóctones ocorreu com o a anuência deles.

Sabemos que as relações entre indígenas e europeus foram e ainda são extremamente exploratórias e desiguais. Nós nunca respeitamos os indígenas, a sua cultura e seu modo de vida. Nós o inferiorizamos para que a exploração e a opressão se justifiquem e se tornem legítimas, afinal, quem não quer uma vida de progresso e tecnologia? E o indígena é caricaturado como o oposto disso. Também escutamos muito que os indígenas foram “poupados” da escravidão por conta dxs negrxs escravizados, mas não foi bem assim. A escravidão indígena existiu, apesar da menor intensidade. Ademais, não podemos ver os jesuítas como os salvadores dos indígenas, já que, apesar se oporem à sua escravidão, eles impuseram uma religião e um modo de vida totalmente alheio à realidade indígena.

Não houve e não há respeito aos povos indígenas brasileiros.

  1. Direitos das Mulheres

  • Ignoram a luta das mulheres no movimento feminista, e colocam a conquista dos nossos direitos como “naturais”, como se fosse benevolência do homem branco opressor.

O que eu mais escuto, desde que me tornei feminista, sendo branca e de classe média, é que o feminismo não é necessário. As justificativas são as mais variadas e insanas, tais como: “as mulheres já podem fazer tudo, o que querem mais? As mulheres estão até podendo escolher com quem se relacionar, e estão cada vez mais exigentes! As mulheres já trabalham fora, já podem até viajar sozinhas com as amigas!” (nunca entendi estar sozinha com outra pessoa, mas enfim…). Esses argumentos não são apenas tolos: eles demonstram e reforçam que o homem é quem permanece no domínio e que, se as mulheres “podem” fazer coisas que não faziam antes, é porque “alguém” deixou. Assim, anula-se, completamente, a mulher como sujeito que lutou e conquistou esses direitos, antes inexistentes, por si mesmas, dentro de um movimento social maior. Outro argumento é que essas conquistas de direitos seriam uma “evolução natural” da sociedade – patriarcal, como sempre – e, assim, qualquer luta feminista se torna desnecessária.

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Bertha Lutz em reunião da ONU – Fonte: EBC
  • Exemplo: você conhece o nome de alguma sufragista? Só sabemos que as mulheres puderam votar, pela primeira vez, no Governo Vargas. Já escutei várias vezes que o voto feminino era algo “fadado” a acontecer. Aqui, sempre tentaram apagar uma linda e dura história de luta e perseverança de nossas sufragistas, até, finalmente, conquistarem o direito ao voto.

Essa benevolência do homem branco, dominador, opressor e poderoso, não deixa de ser romantizada: primeiro, porque ela inexistente e fica só mesmo nos contos de fadas. Segundo, porque forja uma relação harmoniosa entre os gêneros, desde que, claro, a mulher permaneça no seu “devido lugar”. Terceiro, e o pior de todos, é que apaga completamente a luta histórica, e tão atual, do feminismo e de suas vertentes, tornando este um movimento que é rejeitado pelas próprias mulheres, as quais, ironicamente, só podem usufruir de tantos direitos e garantias porque as nossas predecessoras deram as suas vidas por eles.

Leia Mais: Reflexões sobre as mulheres na política brasileira: das sufragistas até os dias de hoje

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