Foto: Aza Contabilidade

As festas de fim de ano movimentam a economia e deixam as pessoas felizes com a expectativa sobre presentes que irão ganhar. Memes sobre comer bastante e sair da “dieta” ganham os grupos de WhatsApp e todos esperam pelo momento em que irão partilhar comidas gostosas com seus familiares. Entretanto, se o consumo – tantos dos presentes, como dos enfeites e das comidas – for além do necessário, as consequências para o meio ambiente serão danosas.

Sempre vi o Natal como uma época de reflexão, até de maior introspecção, apesar dos diversos encontros que acontecem – festas de fim de ano da empresa, amigo oculto com a galera do Crossfit, amigolate com os colegas de trabalho, Ceia de Natal com os pais, almoço de Natal com a família do namorado… E é presente pra lá, presente pra cá, embalagens plásticas que pararão nos oceanos, bugigangas sem utilidade que ganhamos e que virarão lixo, a comida que compramos muito além do necessário que também terá o lixo como seu destino… Assim, fazemos tanta coisa por impulso, compramos tanta coisa desnecessária, desvirtuamos o sentido dessa época e nos tornamos agentes poluidores em grau máximo!

Desde antes de me tornar feminista e vegetariana, eu já tecia críticas à forma como montamos a nossa ceia de Natal. Todo ano era a mesma coisa: as mulheres da família vão para a cozinha, os homens aproveitam para papear entre si, tomar uma cervejinha e esquecer os problemas. Na hora de montar a mesa, as meninas são requisitadas, os meninos continuam livres para brincar, correr e aproveitar a infância como ela deve ser.

Na mesa, muita carne. Muita mesmo. E muito alimento desperdiçado no dia seguinte. Eu digo que o animal passa por uma morte dupla – já não basta ter sido morto para que as pessoas o comam por um mero prazer, a sua carne vai para o lixo, sem cumprir o propósito único daquele que só nasceu para sofrer e ser assassinado um dia.

Por incrível que pareça, os pratos vegetarianos que eu e minha mãe começamos a levar para as ceias se tornaram os primeiros a acabar e os que mais recebiam elogios. Ao contrário, percebi que muitas pessoas começaram a criticar as carnes típicas de natal, dizendo que são secas e sem sabor e etc. Entretanto, não sei se por inércia, por tradição ou porque esquecem mesmo, todo ano elas estão na mesa, sobrando muito mais que jiló.

Depois da comilança, vêm as louças. E vão, novamente, as mulheres da família à cozinha. Já até abstraía que meu esmalte não durava nem 1 dia nas minhas unhas – além de termos cozinhado o dia todo, já cansadas, ainda ficávamos um bom tempo lavando e organizando os utensílios. Os homens – ah, estes voltavam para suas cervejas, diziam uma coisa ou outra, que haviam comido bastante, que estava tudo ótimo, parabéns, e como a vida era boa para eles…

Para que essa exploração animal, que só é vantajosa para a indústria da carne, não mais ocorra em um momento em que devemos acentuar nossa espiritualidade, e para que eu não mais compactue com a exploração das mulheres e com a desigualdade gritante entre os gêneros na divisão de tarefas, eu decidi fazer, neste ano, uma celebração mais íntima, 100% vegana e mais sustentável (sempre que possível).

Hoje, enquanto estava almoçando, pensei em 5 formas de tornarmos esse dia tão significativo e tão especial mais responsável, menos danoso ao meio ambiente e mais espiritualizado (como todo Natal deveria ser, afinal, celebramos o nascimento de um ser de muita luz, de uma evolução sem precedentes, de uma consciência social sem igual – tudo o contrário do que andam pregando por aí!).

1. Dê presentes artesanais, em forma de cupom ou no estilo brechó.

 

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Foto: Westwing

Eu sempre digo que o que conta em um presente não é o seu valor monetário, é o que ele significa: a lembrança e a consideração por alguém que amamos, que é muito importante para nós. Eu amaria ganhar um presentinho de alguém especial feito à mão (estilo DIY), uma coisa simples, mas tão valiosa. E eu poderia fazer o mesmo!

Teve um natal em que fiz pão de mel e biscoitinhos amanteigados para cada pessoa da família. E tem gente que até hoje se lembra disso. É bom voltar às raízes!

Outra coisa legal é dar presente tipo cupom, que pode ser muito mais útil à pessoa, e não geraremos nenhum lixo ao planeta. Em um aniversário de uma amiga, nós dividimos um pacote de limpeza de pele e de peeling, fizemos somente um cartãozinho simples de papel e ela disse que foi o melhor presente que ganhou, que era o que ela mais precisava naquele momento!

Por fim, podemos também dar presentes com aquilo que temos em casa – reaproveitar tecidos e fazer um jogo americano, por exemplo… Ou dar uma blusinha que nunca usamos porque compramos no impulso… Não há problema nisso! E, assim, além de reaproveitarmos o que se transformaria em mais resíduos, daremos uma nova vida a coisas lindas, mas que não mais nos serviam.

2. Se preferir comprar, faça-o para quem você realmente quer, e não por mera obrigação. Recuse embalagens plásticas e metalizadas.

 

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Embrulhos sustentáveis. Foto: Pinterest

Eu entendo, é normal querermos comprar coisas novas, nem sempre temos o que reaproveitar em casa, e o pior: quase nunca temos tempo para fazer nossas próprias lembrancinhas. Porém, podemos fazer compras de forma consciente, ao escolher lojas que não utilizem trabalho escravo, por exemplo; ao comprar com artesãos e artesãs (minha maior escolha!); ao recusar embalagens plásticas para presentes, nem celofane, nem embalagens adesivadas – podemos dar preferências para as de papel (papel meeesmo, não aquele papel plastificado), podemos reutilizar embalagens que ganhamos (sempre faço isso também…) ou, se o objeto for bonito, podemos entregá-lo desnudo mesmo (rsrs – faço isso quando dou vinhos, cervejas artesanais…)

3. Faça uma lista de compras para a ceia e compre somente o necessário. Não se esqueça de levar sua sacola retornável. Evite comprar muitos alimentos industrializados embalados em plástico, eles fazem mal à sua saúde e ao nosso planeta.
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Pratos veganos e vegetarianos roubam a atenção em qualquer lugar! Foto: Revista Glamour

O maior segredo para nunca comprarmos além do que precisamos: listinha! Aliás, listinhas são essenciais na nossa vida né. Já li que pessoas que tem o hábito de fazer lista de compromissos são mais inteligentes. Quem sabe um dia eu não chego lá? Porque eu faço lista para tudo!

Voltando às compras, podemos prezar por alimentos in natura, muuuitos vegetais, porque o que não faltam são receitas vegetarianas maravilhosas, frutas para fazer suco natural, cereais comprados a granel assim como castanhas e demais oleaginosas. Industrializados e embalados, só quando não der mesmo. No meu caso, farei uma cheesecake vegana e preciso comprar biscoito maisena. O resto: tudo nos potinhos de vidro e nas ecobags.

4. Na noite da ceia, nada de pratinhos, copos e talheres de plástico. Use louça sempre! Na decoração, aproveite tudo aquilo que você já tem.

 

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Exemplo de decoração feita à mão. Foto: Vida de Casada

Usar utensílios plásticos nunca foi comum nas ceias de Natal da minha família, mas é até compreensível se, depois de tanto trabalho que as mulheres tiveram para cozinhar, elas quiserem se livrar de mais uma tarefa. A solução, para mim, não é essa: é, simplesmente, dividir a tarefa com os homens, afinal, se todo mundo participou da ceia, todo mundo tem que colaborar. Isso é bom para o ser humano. Portanto, nada de pratinho, garfinho, copinho de plástico, além de serem feios (mesmo aqueles enfeitadinhos, não sei se tomei birra, acho tudo feio rsrsrsrs), são resíduos completamente desnecessários e que vão ficar como fantasmas por sei lá, mais uns 500 anos, rondando aqui na Terra.

Sobre os enfeites, não há qualquer problema em repeti-los todos os anos, ainda mais se forem bonitinhos. Conversei sobre isso com a minha mãe esses dias: no telefone, ela me contou, Luíza, arrumei aqui em casa para o Natal, mesmos enfeites desde 1999! Eu falei, isso mesmo, mamãe, os enfeites são lindos e atemporais, não há nenhum problema! E ela ainda ganhou um selinho de mãe natalina sustentável!

Da mesma forma, você pode fazer diversos enfeites com embalagens e outros objetos que seriam resíduos – um exemplo é a arvore feita com garrafas PET. Para pisca-pisca, dê preferência aos de LED.

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Arvorezinha feita com PET. Mas só faça isso se você já tiver a PET em casa ou conhecer alguém que tenha. Meu conselho é nunca comprar nada que venha em garrafa PET… Foto: Viva Decora
5. No dia 25, reaproveite ao máximo os alimentos da ceia. Se armazenadas adequadamente, nenhuma comida estragará em poucas horas. Ao contrário, alguns pratos ficam até mais gostosos no dia seguinte!
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Sobremesas ficam melhores no dia seguinte. Foto: Receiteria (OBS: essa é uma sobremesa vegana! =)

Sim, o “restodontê” (como diz Leo) pode ser até mais gostoso. Alguns pratos ficam mais apurados no dia seguinte – acontece muito com comidas bem temperadas. Sobremesas, em sua maioria, são melhores no dia posterior em que foram feitas. Ademais, se houver a possibilidade, pode-se fazer um prato fresquinho com ingredientes que já estão na geladeira – Natal com 100% de aproveitamento.

Neste Natal, quero celebrar a vida daquele cujos ensinamentos devem ser tomados para o bem comum, para a solidariedade, para a simplicidade, para a inclusão social, para celebrar a diversidade, para dizer não à opressão e a qualquer forma de discriminação e de marginalização. Para isso, na ceia haverá apenas alimentos que remetem à vida. Como presente, é o amor mesmo que vai predominar. E, tudo que gerarmos de lixo, separaremos de forma adequada para a reciclagem. Boas festas!