Foto: Vila Mulher: Pedidos de socorro foram encontrados em peças de roupa vendidas pela loja Primark. 

Durante minha última viagem para o exterior – já consciente sobre o trabalho escravo que permeia as grandes marcas de roupa mundiais – sempre que eu e meus pais víamos alguma roupa barata ou em promoção nas grandes lojas e outlets de NY, eu dizia: Essa blusa não custa $10, na verdade, ela custa várias vidas. Vidas de crianças, mulheres e homens, que, ao trabalharem em condições análogas à escravidão, têm seus direitos humanos completamente esfacelados, quando não têm suas vidas ceifadas.

Inevitavelmente, antes de olhar o preço ou mesmo ver o estilo de uma roupa ou de um tênis, eu ia logo procurar a etiqueta de fabricação. A imensa maioria vinha do Sudeste Asiático (destaque para Bangladesh e Vietnã), da China, da Índia e de algumas Repúblicas do Caribe. Como era de se esperar.

Muitos sabem do histórico de grandes marcas como a Nike em relação ao trabalho escravo e infantil. Longe de isso ser um fato que faça com que pessoas deixem de consumir suas linhas de produtos. Muitas pessoas sabem que, diante da busca incessante por lucros no sistema capitalista, vender um vestido por £3 não geraria grandes excedentes para lojas como a Primark. De onde estão saindo esses lucros então?

A resposta é simples e demonstra uma realidade cruel. Muitos trabalhadores e muitas trabalhadoras da área têxtil têm suas condições de trabalho análogas à escravidão. Trabalham em jornadas exaustantes e recebem centavos de dólares por hora trabalhada. Os prédios onde estão muitas fábricas que fornecem os produtos para famosas marcas internacionais são geralmente inseguros e o ambiente de trabalho é muitas vezes insalubre.

Os trabalhadores as trabalhadoras estão sujeitxs a assédios sexuais e de todas as formas, trabalham muito além da jornada de trabalho sem receber horas extra, não possuem quaisquer garantias em relação a licenças devido a doença ou acidentes de trabalho e tem sua força sindical completamente anulada pelos grandes donos das fábricas. Para que consigam cumprir as metas de produção, eles são coibidos até mesmo de ir ao toalete, por exemplo.

Mas foi preciso que um prédio desabasse em Savar, Bangladesh, no ano de 2013, deixando um saldo de mais de 1.000 mortos, para que muitas pessoas finalmente passassem a se dar conta da dura realidade existente por trás das roupas que vestimos.

Minha história com a Loja Primark, do Reino Unido

Durante o meu intercâmbio em Dublin, nos anos de 2011 e 2012, um dos meus passeios favoritos na cidade era fazer compras na Primark. Eu ficava abismada com a variedade de roupas, calçados, acessórios que a loja possuía e com o preço pelo qual os produtos eram vendidos. Com menos de €20 conseguia montar um look completo – comprava uma blusa por €3, uma saia por €6, uma sapatilha por €4, uma bolsa por €3 e uma cartela cheia de brincos por €2,50. Na época, a conversão real/euro estava €1 para R$2,50. Eu não conseguiria comprar 1 peça de roupa aqui no Brasil pelo preço que pagava na Europa, com a conversão.

Nunca vou me esquecer do dia em que a loja fez uma big promoção (conseguiam abaixar ainda mais os preços que já eram extremamente baixos), e vi várias regatinhas sendo vendidas por €1. Uma pilha delas, das mais variadas cores. Eu comprei, achando a maior vantagem. Tá que durou umas poucas lavagens, porque a qualidade dos tecidos dessa loja costuma ser inferior. Mas, se conseguiram vender por €1 uma peça de roupa, e nenhum lojista vende alguma coisa sem ter um mínimo de lucro, ou pelo menos por um preço que cubra os seus custos, por quanto essa loja adquiriu essas peças do fornecedor lá da Ásia? E quanto então aqueles que a produziram ganharam por isso? Quais sãos os custos das instalações da fábrica fornecedora, para conseguir vender um produto a um preço presumidamente tão baixo, já que o preço do varejo já é baixíssimo?

Mas, não se engane. Nem sempre o trabalho escravo está diretamente proporcional aos preços que são vendidas as peças de roupas em lojas mais baratas como a Primark e a H&M. Lojas com preços mais elevados, como Mango e Zara compram dos mesmos fornecedores. A diferença é que as pessoas pagam pela marca e, aí, mais lucro para as essas lojas. Essa situação não se difere também das mercadorias fetichizadas da Nike, por exemplo.

Antes de ter a consciência sobre tudo que estava por trás desses baixíssimos preços, desconfiando, mas fingindo não ser nada, eu comprei muito nessa loja. Não me sinto culpada, devido às circunstâncias da época, mas depois que me conscientizei e passei a ter como um valor a ser seguido a luta contra o trabalho escravo, eu simplesmente parei. Durante viagem desse ano, que é a minha referência pós-conscientização, eu não comprei na Primark, nem em nenhum lugar ligado historicamente ao trabalho escravo.

É muito pior quando sabemos que algo deve ser feito e não o fazemos. Nesse caso, eu hoje sei que comprar nessa loja (e em tantas outras marcas europeias) é um fomento ao trabalho escravo, então se eu atualmente comprasse algo por lá teria sido muito pior se comparado à época em que não tinha tal conhecimento.

Mas não tem como fugir dessa situação, onde vamos comprar nossas roupas, então?

Nos EUA e na Europa, lugares que praticamente delegaram toda sua produção têxtil ao exterior, principalmente ao Sudeste Asiático, à China e a Repúblicas do Caribe, numa busca frenética pelo vestuário a baixos preços e em grande quantidade, essa frase faz sentido, mas não é por isso que devemos nos acomodar a ela.

As lojas falam que fiscalizam as fábricas fornecedoras, que retaliam se elas descumprem a legislação trabalhista e não agem de acordo com os suas políticas, mas a realidade é outra. Tanto que as denúncias contra o trabalho escravo não param de crescer nessas localidades. Comprar esse discurso é um comodismo sim. Acreditar na benevolência das grandes pode parecer ingenuidade, mas a meu ver, é pura má-fé.

Acredito que só os consumidores finais têm um potencial para reverter essa situação, que somos nós. Apesar de ser fundamental internalizar esse preceito, a questão nem é apenas estar dispostx a pagar um valor justo pela roupa que vestimos, pois muitas roupas caríssimas são produzidas por pessoas em condições análogas à escravidão. É muito óbvio que a tal blusinha de €1 foi produzida dessa forma, mas o vestido de €300 também pode ter sido confeccionado com o mesmo processo.

Assim, é importante que procuremos saber sobre a produção da loja onde compramos. Isso inclui, fundamentalmente, saber sobre os seus fornecedores. No Brasil, temos um pouco mais de “sorte”, pois a nossa produção têxtil nacional ainda é alta e nossa legislação trabalhista é mais eficaz. Porém, não estamos nem de longe imunes. Basta ver as diversas denúncias de várias lojas (incluídas muitas grifes, das quais a mais notável foi a Zara) que utilizavam do trabalho análogo à escravidão em sua produção/ou pelo fornecedor, sendo que a mão-de-obra provém, em muitos casos, dos imigrantes bolivianos.

Temos que olhar mesmo as etiquetas, buscar o histórico da loja e ver se ela tem ou já teve alguma denúncia, perguntar sobre a produção e sobre seus fornecedores. Um aplicativo muito bom, já que fornece informações sobre diversas lojas, é o Moda Livre. Ele diz se a empresa utiliza ou utilizou trabalho escravo em suas peças, se passou a cumprir a legislação trabalhista e indenizou os trabalhadores escravizados ou se ainda continua a usar mão-de-obra em condições análogas à escravidão e não indenizou os prejudicados. O aplicativo foi criado pela ONG Repórter Brasil.

Lista de algumas lojas brasileiras que estão ou já estiveram envolvidas com o trabalho escravo na confecção de suas peças (Fonte: Repórter Brasil)

  • Zara
  • Renner
  • Pernambucanas
  • Marisa
  • M.Officer
  • Brooksfield Donna
  • Gregory
  • Luigi Bertolli
  • E tantas outras…

 

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