Foto: Produtos Orgânicos

Imagina se um dia acordássemos plenamente satisfeitas com os nossos cabelos; com as nossas feições; com o nosso corpo; se não achássemos que precisaríamos mudar nada em nós mesmas; se realmente nos sentíssemos suficientes? Bom, tenho certeza de que quebraríamos a indústria da beleza; ou, talvez, ela nem existiria com a configuração que conhecemos atualmente.

Porém, eu e você sabemos que, desde criança, nós “aprendemos” que, para sermos valorizadas, aceitas, cortejadas, nós precisamos seguir um determinado padrão de beleza. Para os cabelos, este foi, por muito tempo, um padrão eurocêntrico, muito diferente dos tantos tipos de cabelos encontrados naturalmente neste país tão complexo e variado.

Não nos dávamos conta do racismo estrutural e estético que estava por trás de falas até então tidas como inofensivas, quando se referiam aos cabelos crespos e cacheados com adjetivos desrespeitosos, inferiorizantes e pejorativos. E, por muito tempo, ao invés de questionarmos tudo isso, nós, passivamente, aceitamos as ofensas e buscamos delas nos afastarmos, ao passarmos a, literalmente, desconhecer como são as nossas madeixas naturais.

Para a busca do loiro perfeito (ou do liso perfeito, ou de qualquer outra palavra que se coloque antes de “perfeito”), nós recorremos a produtos que poderão arruinar nossos fios. Então, teremos de recuperá-los, não coincidentemente, com outra linha de produtos da mesma marca que previamente desconfigurou nosso cabelo. Porém, esses produtos reparadores, muitas vezes, não passam de meras ilusões e, ao longo do tempo, eles podem ou causar uma sensação de que não fazem mais efeito, ou mesmo prejudicar ainda mais os fios, ao se acumularem neles e impedirem qualquer outro tratamento viável.

Percebe-se que existe um ciclo vicioso na indústria da beleza que nos torna completamente dependentes dela. Para nos desvencilharmos de uma situação que consome tanto o nosso tempo e o nosso dinheiro, temos que tomar medidas radicais, como fazer cortes químicos, ministrar suplementos anti-queda e para crescimento capilar e buscar tratamentos dermatológicos contra possíveis doenças causadas pelos cosméticos tradicionais, tais como eczemas, seborreia e caspa, entre outros efeitos secundários.

O que é o cabelo?

Fonte: Essência de Diva

A estrutura interna capilar é formada por três partes. A primeira é a cutícula, que são várias camadas sobrepostas (até 12) e, por serem constituídas por lipídios, conferem aos fios brilho e maciez. A cutícula também possui a função de proteger o córtex. Este, por sua vez, é onde está o “DNA” do nosso cabelo: a sua cor (são dois tipos de melanina: a eumelanina, que conforma os cabelos pretos e os castanhos escuros; e a feomelanina, que conforma os cabelos ruivos), a sua estrutura e a sua elasticidade. O córtex é constituído por carbono, oxigênio, hidrogênio e nitrogênio que, juntos, formam os aminoácidos responsáveis por produzirem a queratina (são 18 aminoácidos, sendo o principal a cisteína). O córtex também é formado por outro elemento, o enxofre. Por fim, existe a medula, para a qual os cientistas ainda não conseguiram encontrar uma função específica.

Mesmo que não façamos quaisquer tipos de processos químicos em nossos fios, a cutícula é suscetível às diversas intempéries, como a poluição das grandes cidades, os raios solares, as águas salinas (para quem adora uma praia!), o cloro de piscina (para quem faz natação, como eu), e também aos processos mecânicos que fazemos todos os dias, como a escovação (com ou sem calor) ou quando prendemos os cabelos com muita força. É aí que entrarão os nossos cuidados naturais! Mesmo que tenhamos abandonado descoloração, tinturas e alisamentos, não podemos deixar de cuidar dos fios, pois há situações normais que também podem prejudicá-los.

Fonte: Troia Hair

Por outro lado, quando queremos alterar a nossa estrutura capilar ou a sua cor, é preciso que o processo químico, além de atingir a cutícula, chegue ao córtex. E as mudanças no córtex são, muitas vezes, irreversíveis. Para que um cabelo que possui uma curvatura cacheada se transforme em um “liso chapado”, será necessária uma química que mude as ligações de enxofre desse fio (pontes de dissulfeto).

Da mesma forma, para que se transforme de maneira definitiva a cor de um cabelo, também será necessário que a química chegue ao córtex e bagunce a sua melanina natural. Esse processo é muito prejudicial à estrutura capilar, já que envolve elementos altamente alcalinos, como a amônia, que vai de encontro ao pH natural dos cabelos, que é ácido.  

O excesso de químicas fragiliza ambas as camadas do nosso cabelo. A cutícula pode ficar aberta e porosa e, ao ser destruída a sua camada natural de ácidos graxos, os cabelos perdem o brilho natural, bem como a umidade e a resistência. O córtex pode deixar de produzir queratina suficiente e, assim, os cabelos ficam quebradiços, opacos e elásticos.

Nossos cabelos, muitas histórias, pouca originalidade

A história do meu cabelo é muito triste. Há dias em que eu penso que queria voltar à minha infância e nunca o ter odiado. Queria nunca ter pedido para minha mãe me levar a salões de beleza que me transformaram em cobaias para “novas técnicas” de alisamento. Queria que todas as lágrimas que chorei por desejar ter um cabelo diferente – liso, pouco volumoso -, fossem capazes de lavar todas as químicas que fiz e o trouxessem de volta. Hoje, o que mais gostaria de ter seria meu cabelo natural, volumoso e com a sua cor original. Nunca pensei que fosse ser tão difícil ter essa simplicidade novamente. Pois assim deveria ter pensado antes de ter alisado e pintado de tudo quanto é cor os meus fios!

Nesse texto eu contei sobre meus dilemas com alisamentos e como estou livre e desintoxicada deles desde 2014. Não houve uma época em que meu cabelo esteve mais bonito: quando eu já havia me livrado das progressivas e ele ainda tinha a sua cor virgem, que foi ao longo de 2015 e de 2016. Porém, no fim deste ano, eu resolvi tingi-lo de vermelho. Foi uma fase que eu confesso ter adorado, mas que hoje me causa um enorme arrependimento.

Por mais que muitas mulheres não gostem de seus cabelos castanhos, posso dizer que essa é uma cor de cabelo rara e extremamente difícil de ser revertida após colorações e descolorações. O processo para ficar ruiva foi tão difícil quanto deixar de sê-la. Nesse meio tempo, deixei para trás tudo que eu havia aprendido e colocado em prática com as técnicas de low poo. Novamente, vi-me dependente da indústria cosmética tradicional e presa ao ciclo vicioso de destruição-recomposição-destruição dos fios.

De 2018 para cá, eu devo ter perdido 1/3 da quantidade de cabelo que eu tinha. Meus fios se tornaram extremamente porosos, quebradiços, elásticos e com milhares de pontas duplas (o que significa ausência de cutícula!). Gastei boa parte do salário com cosméticos que prometiam a reconstrução dos fios. Sabe aquela sensação de que, no início, certo creme é maravilhoso, o cabelo fica ótimo, brilhante, mas, com o passar do tempo, ele parece ter parado de fazer efeito, como se o cabelo houvesse “se acostumado” com ele? Há uma explicação para isso!

Silicones sintéticos e derivados de petróleo nos cosméticos tradicionais

Silicones e óleos minerais são compostos muito presentes em cosméticos tradicionais. Quando usamos um creme de hidratação que contém dimethicone (tipo de silicone), por exemplo, nas primeiras vezes surtirá um efeito bacana. O problema é, que com o tempo, esse composto se acumula nos nossos fios, ao criar uma espécie de “capa”, e os deixa pesados, o que também impedirá que qualquer outro agente hidratante neles penetre. Para retirar esse acúmulo de ingredientes na cabeleira, será necessário utilizar shampoos com sulfatos, como o lauril, o qual, principalmente em cabelos cacheados, causam ressecamento e até irritações no couro cabeludo.

Como a hidratação proporcionada pelos silicones e pelo petrolatos são superficiais, elas mascaram o verdadeiro problema nos fios, e chega um momento em que parecem não fazer mais “efeitos”, exatamente porque estes eram somente exteriores e efêmeros. Quando o cabelo “pede” para que troquemos de shampoo, cremes e condicionadores com silicones e petrolatos, é como se ele estivesse pedindo socorro em meio a um sufocamento de compostos bioacumuláveis. E não é só isso: esses compostos também possuem um alto impacto ambiental. Quando tiramos os produtos que passamos no cabelo, eles não sublimam ou evaporam! Pelo contrário, podem parar em lençóis freáticos, rios e mares, já que nem todos serão tratados nas redes de esgoto.

As (muitas) vantagens em migrar para a cosmética natural

Com os produtos naturais, nós passamos a utilizar compostos que realmente combinam com a estrutura dos nossos cabelos. Posso dizer que os produtos capilares naturais falam a mesma língua dos nossos fios, por isso o tratamento com eles será muito mais eficaz!

Os óleos e as manteigas vegetais são compostos por ácidos graxos (como o ômega 3 e o ômega 6, o ácido caprílico, o ácido láurico e o palmítico), os quais possuem uma alta capacidade de absorção pelos fios capilares. Assim, eles detêm um poder real para hidratar e nutrir as nossas madeixas.

Da mesma forma, nós devemos aproveitar as maravilhas que a própria natureza nos concede: frutas como abacate e banana, leites vegetais, plantas como a aloe vera, são excelentes para mantermos a saúde capilar. O nosso cabelo é formado por proteínas naturais. É claro que ele irá amar muito mais os compostos orgânicos e naturebas como forma de hidratação, nutrição e limpeza.

Compostos que você deve evitar:

Silicones

Qualquer coisa que termine com cone, como: dimethicone, simethicone, cyclomethicone etc. Qualquer coisa que termine com siloxane, como cyclopentasiloxane, polydimethylsiloxane etc.

Petrolatos

Petrolatum, Mineral Oil, Parafinum Liquid, Vaselin, Isoparaffin, Isododecane etc.

Sulfatos

Sodium lauryl sulfate, sodium laureth sulfate etc.

Unhas

Nossas unhas são as “irmãs” dos nossos cabelos. Elas são formadas pela conhecida e tão somente queratina.

Comecei a pintar as unhas aos 14 anos. Lembro que passei a me sentir “mais mulher” com as unhas grandes e pintadas. Eu não tinha dinheiro para ir ao salão toda semana, então dei um jeito de aprender a fazê-las sozinha (existem várias doenças que podem ser contraídas em salões, que vão desde micoses até hepatite C). Era um furdunço só, sujava tudo que era canto da casa, ficava tudo borrado, nada uniforme e cheio de bolhas de ar. Porém, com o tempo fui pegando uma certa técnica.

Fiquei tão viciada em fazer as unhas que achava inadmissível vê-las sem esmaltes ou com as cutículas (pregas) grandes. Eu tinha tantos vidrinhos de esmaltes que às vezes eles venciam sem eu ter tido tempo de usá-los. Eu caía em todas as modas e “tendências” de cores, e até já usei coisas bizarras como esmaltes verde-limão ou amarelo marca texto! Comprava todos os esmaltes de linhas com nomes do tipo “7 vermelhos”, “Nudes essenciais”, “Tons de marrom”, ainda que fossem quase similares – mas eu precisava ter TODOS. Afinal, eu pagaria R$25 para fazer minhas unhas no salão. Cada vidrinho custava R$2: opa! Posso comprar 10 vidrinhos novos sem “peso na consciência”. Era assim mesmo que eu pensava!

Conversando esses dias com a minha mãe, eu disse a ela que os esmaltes eram, talvez, os piores produtos que poderíamos usar em nosso corpo. Não é por acaso que existem milhares de pessoas que são alérgicas a eles (eu me considerava uma pessoa sortuda por não ter essa alergia, ao invés de me questionar sobre o porquê de tantas pessoas não tolerarem o esmalte).

Para que uma camada de tinta possa durar ao menos 1 semana nas nossas unhas, cujas mãos estão o tempo todo em contato com água e em trabalhos manuais, só pode haver muitos componentes químicos para dar conta do recado.

Ingredientes cancerígenos, irritantes, que causam dermatite de contato, disfunções endócrinas e hormonais estão presentes em todos os esmaltes de marca tradicionais brasileiras, mesmo nos que possuem o rótulo “hipoalergênico”. Como exemplo, temos o formaldeído, o tolueno, o Dibutilftalato e o Fosfato de Trifenila. Estes compostos também são encontrados em bases que prometem fortalecimento das unhas (por ironia do destino) e em brilhos e óleos que prometem um secamento mais rápido.

Foto: Loucas por esmaltes

O descarte do esmalte também é muito complicado e nada sustentável. O conteúdo não pode ser despejado nunca nas pias, por ser altamente tóxico e poluente. Assim, quando algum esmalte estiver vencido, deve-se despejá-lo em algumas camadas de papeis ou de jornais e colocá-los no lixo comum, mas com muito cuidado. O vidro pode ser lavado até que todo o conteúdo saia (pode ser usado removedor de esmaltes para facilitar) e  colocado no lixo especial para vidros. Já o cabinho com pincel e feito de plástico dificilmente será reciclado, então, acabará por ter o aterro sanitário como destino (na melhor das hipóteses).

O excesso de esmaltes deixa as nossas unhas fracas, quebradiças e amareladas. Não é à toa que já ouvimos dizer que é bom deixarmos as nossas unhas respirarem um pouco antes de tacar mais uma camada de esmaltes nelas.

Muitas mulheres não suportam ver suas unhas curtas, então, recorrem a métodos com nomes fofos (unha de gel, unha de cristal, unha de diamantes) para tê-las sempre enormes. Entretanto, este é outro ciclo vicioso, já que as unhas podem estar quebradiças exatamente pelo excesso de químicas dos esmaltes e afins. A unha de diamantes, por exemplo, é outra química que deixará as unhas ainda mais fracas. O que acontece? A mulher tornar-se-á dependente desse procedimento pelo resto de sua vida.

Há um tempo eu tomei uma decisão: passei a fazer minhas unhas apenas em ocasiões especiais e passei a tratá-las com receitas naturais. Elas ficaram muito mais saudáveis e bem menos quebradiças. Quando migrei para a vida natureba, eu cheguei a pensar que seria impossível encontrar alguma marca de esmaltes, e também de removedores, que não fosse tão horrível como as que eu conhecia. Mas eu encontrei!

Aliás, no próximo post, passarei receitas e dicas para os cuidados com os cabelos e as unhas de forma natural! Vamos lá? Basta clicar neste link!

Consultas

https://www.portaleducacao.com.br/conteudo/artigos/pedagogia/o-que-e-o-cabelo-e-qual-a-sua-funcao/62641

https://pt.wikipedia.org/wiki/Cabelo

https://namu.com.br/portal/o-que-e/cabelos/

https://engenhariadasessencias.com.br/blog/queratina-uma-proteina-fundamental-2/#:~:text=A%20queratina%20%C3%A9%20uma%20prote%C3%ADna,as%20unhas%20e%20os%20cabelos.

https://portalbiocursos.com.br/ohs/data/docs/235/1-Fibra_Capilar_Agentes_de_ColoraYYo_e_DescoloraYYo__QuYmica_Mecanimos_de_AYYo_e_Danos_Oxidativos.pdf

Guia low poo: o que é, como começar e produtos liberados

http://cosm-eticos.org/artigos/silicone–petrolatos-e-a-tendencia-low-poo

https://www.scielo.br/pdf/qn/v37n6/v37n6a19.pdf

https://www.ecycle.com.br/3571-esmalte.html

https://namu.com.br/portal/estetica/maos-e-pes/esmaltes-com-substancias-cancerigenas/

https://www.sallve.com.br/blogs/sallve/esmaltes-quais-sao-os-riscos-reais-que-corremos-ao-pintar-as-unhas