Charge: Duke

Neste texto, analisarei algumas falas do atual presidente da República sobre a pandemia da COVID-19, e buscarei os elementos da masculinidade tóxica presente nelas.

Inicialmente, é importante ressaltar que os estudos sobre as masculinidades, quando analisados no campo dos estudos feministas e do gênero, podem contribuir ainda mais para a mitigação das assimetrias de gênero e poder (Viveros, 2019).

De acordo com a autora, devemos observar que os conceitos de masculinidade são dirigidos de forma distintas aos homens negros, indígenas, latino-americanos. Assim, existe uma masculinidade que foi construída no campo da branquidade, também chamada de “hegemônica”, e que não é aplicada aos homens não brancos.

No feminismo das mulheres brancas e de classe média, por vezes chamado de hegemônico[1], também nos deparamos com a problemática da universalização da mulher, com a desconsideração das opressões que vão além do gênero e que abrangem a raça, a classe, a orientação sexual.

Enquanto essas mulheres reivindicavam os espaços públicos e se recusavam a ficar somente em casa como housewives, as mulheres negras, cujas ancestrais foram escravizadas, desde sempre já trabalhavam fora de casa, em empregos precários e mal remunerados. Enquanto as feministas brancas se revoltavam com a fragilização do seu sexo pelo patriarcado, com a imposição da doçura e da fraqueza como qualidades a serem perseguidas[2], as mulheres negras já carregavam a pecha de serem fortes, brutas, e, portanto, podiam aguentar qualquer serviço pesado; podiam acumular duplas ou triplas jornadas e ainda serem chamadas de “supermulheres[3]”.

Assim, quando a masculinidade celebrada pela branquidade coloca adjetivos como virilidade, brutalidade, assertividade, racionalidade, infidelidade, irresponsabilidade, como qualidades a serem buscadas pelos homens brancos, tais qualificações, aos homens negros, ensejarão significados completamente opostos.

Em um país racista e estratificado como o nosso, os homens negros são excluídos e marginalizados de diversas maneiras. Grande parte dos jovens negros não conseguirão passar da fase jovem-adulta[4], pois serão assassinados pelas polícias brasileiras. O último atlas da violência mostra que o assassinato de pessoas negras cresceu 11,5% em uma década, enquanto para pessoas brancas, o número caiu 12,9%[5]. Dessa forma, negros (e negras) correspondem a 75,7% das vítimas de assassinato no Brasil. O racismo estrutural e institucional é o responsável por isso[6]. Quando esses jovens não são mortos, eles terão a prisão como destino. As penitenciárias brasileiras nada mais são que uma eficaz maneira de retirar homens negros da sociedade.

Assim, enquanto um homem branco é aplaudido ao se mostrar “forte”, “bruto”, “machão” perante os outros, características que são opostas ao conceito da feminilidade branca, em que mulheres são “frágeis”, “doceis”, “passivas”, um homem negro “bruto” será imediatamente visto e tratado como um potencial agressor, como alguém que importuna o bom convívio social.

Enquanto a irresponsabilidade sexual e a infidelidade são normalizadas em relação aos homens brancos, homens negros serão considerados maus parceiros, e até iminentes estupradores, se assumirem tais características. Assim, ser infiel e não exercer a paternidade ativa se tornam qualidades inerentes ao homem branco e que não devem ser impeditivas para que ele se case e constitua família – as mulheres teriam de aprender a conviver com isso.

Já para homens negros, estes não seriam nem mesmo considerados eventuais parceiros. Quanto ao estupro, sociedades racistas como a dos EUA e a brasileira encontraram uma forma de afastar os homens negros das mulheres brancas, ao colocá-los como potenciais estupradores, não obstante o relacionamento de um homem negro com uma mulher branca seja visto como uma forma de ascensão social e de correspondência à masculinidade hegemônica, e é algo buscado por alguns homens negros, também como um meio de afirmação de status perante a sociedade.

Essa mesma sociedade se esquece de que as mulheres negras sempre foram estupradas por seus senhores brancos, com o respaldo da sexualização e da disponibilização de seus corpos pelo patriarcado. Inclusive, a miscigenação brasileira é fruto desses estupros e não deve ser celebrada ou romantizada.

A correspondência ao estereotipo de “homem provedor do lar” é dificilmente atingida pelos homens negros. A estes, são reservados empregos com menor prestígio, subvalorizados e precarizados. A não conclusão dos estudos por jovens negros é um fator altamente impeditivo para que alcancem alguma mudança em seu status social. Assim, homens negros não são vistos como parceiros responsáveis, presentes, e que serão bons pais.

E é, inclusive, por não conseguirem atingir os estereótipos da masculinidade hegemônica, entre os quais vejo o do provimento do lar como um dos mais emblemáticos, que muitos homens se tornam violentos com suas companheiras, suas filhas e seus filhos. A masculinidade tóxica fica aguçada não quando os homens conseguem exercê-la, mas quando não conseguem e se frustram. Assim, sua ausência e até pior que a sua presença.

Ainda no campo das irresponsabilidades, há a ausência de cuidados, pelos homens, em relação à saúde. A busca pela saúde preventiva ainda é vista como algo feminino. A impressão que tenho é a de que buscar qualquer tipo de ajuda, o que inclui ir a consultórios médicos, fazer exames de rotina, é visto pelos homens como algo que irá fragilizá-los. E isso ocorre em várias camadas sociais, inclusive por homens “não machistas”. Não é por acaso que a expectativa de vida dos homens é menor – muitas doenças que poderiam ser evitadas não o foram, pois não houve a detecção anterior.

Da mesma forma, homens costumam se arriscar mais, até o limite de seus corpos, como uma forma de provar sua força e sua virilidade. Fazer sexo sem preservativo e com várias parceiras (ou parceiros) é uma forma de colocar o corpo à prova até o seu limite (Silva, 2009; Miskolci, 2013; Lanzarini, 2015, apud Viveros, 2019). Outros exemplos seriam o consumo excessivo de álcool e drogas e os excessos de velocidade no trânsito.

Se os homens brancos podem ser irresponsáveis em seus relacionamentos amorosos, no exercício de tarefas domésticas ou mesmo na criação de filhes, eles não o são em relação ao seu trabalho produtivo. A oposição entre razão (característica dita masculina) e emoção (característica dita feminina) torna possível a assimetria de responsabilidades exercidas nas esferas públicas e privadas.

Contudo, os homens negros não podem fazer o mesmo. A irresponsabilidade do homem negro não é celebrada em nenhum contexto, como já escrevi. Da mesma forma, percebo que existe uma certa “infantilização” do homem negro por parte do homem branco. Os negros são vistos como incapacitados para exercerem diversas atividades. Sua existência somente não é negada em sua totalidade, pois eles podem ocupar certos lugares.[7] Assim, quando vejo aquele senhor negro que acompanha o atual presidente como um guarda costas, consigo problematizar vários aspectos.

As ideias de masculinidade tóxica proclamadas por seu chefe nunca são dirigidas a homens como ele. Na verdade, infelizmente ele corresponde à parcela da população que o atual governo deseja exterminar, por vias diretas ou indiretas, pelas mãos da polícia ou pelo descontrole sanitário durante a pandemia. A existência daquele homem negro só é possível, pois ele assume o seu devido lugar – o de “proteger o homem branco”, e acerta todos os estereótipos – ele é forte o suficiente para exercer a brutalidade do homem negro na defesa do seu “senhor”; nunca fala nada (até porque não é visto como alguém dotado da capacidade de falar, articular, mesmo que o atual presidente seja muito mais incapacitado); está sempre sorridente e pronto para servir. Se formos pensar, esse estereótipo sempre foi difundido na sociedade racista brasileira, muito em forma de “humor”, como nos elucida Adilson Moreira[8].

Os homens negros, então, não conseguem tirar proveito da masculinidade branca e hegemônica. O exercício de alguma dessas características no seio de suas famílias prejudica a si mesmos e às suas companheiras no âmbito do gênero, as quais já são tão oprimidas, no âmbito da raça, pela sociedade. É por isso que muitas intelectuais do movimento negro (Manifesto do Coletivo do Rio Combahee em 1974, apud Viveros, 2019) salientam que a separação entre homens e mulheres é um privilégio do feminismo branco. Ao contrário, é necessário que haja uma verdadeira solidariedade e compreensão entre ambos/as, já que homens negros e mulheres negras experienciam o racismo diariamente[9].

Assim, é necessário salientar que a masculinidade tóxica imbricada nas falas do atual governante é dirigida somente a seus pares, àqueles que teriam a capacidade de evitar o rompimento do status quo. As consequências nefastas da necropolítica[10] atingiram toda a população, porém, a parcela negra e pobre foi a que mais sofreu. Pesquisa do Instituto Polis nos mostra que, no município de São Paulo, a taxa de mortalidade para homens negros é de 250 óbitos por 100 mil habitantes, e para os homens brancos, é de 157 óbitos por 100 mil habitantes. Para as mulheres negras, a taxa de mortalidade de 140 óbitos por 100 mil habitantes, e para as mulheres brancas é de 85 óbitos por 100 mil habitantes[11].

Sem dúvida, os homens morrem mais que as mulheres para a COVID-19, e os homens negros são os mais atingidos. Não obstante, a população negra ainda é menos vacinada que a branca, o que contribui para a perpetuação da vulnerabilidade sanitária – já não bastam terem menor acesso à saúde, ao saneamento básico, a empregos estáveis, a moradias mais salubres e com mais cômodos, grande parte da população negra ainda não esteve abrangida nos grupos prioritários da vacinação.

Dessa forma, quando o atual presidente discursa e incentiva as pessoas para sair às ruas, aglomerar, não usar máscara, automedicar-se com remédios sem comprovação de eficácia, não tomar vacina, quem será mais atingido/a por esses comportamentos inconsequentes? Certamente, não será o grupo de pessoas privilegiadas do qual ele faz parte.

Quando ele ressalta a masculinidade branca e incentiva os homens a irem até o limite da exposição ao vírus com os seus corpos, além de exporem toda as pessoas com quem convivem ou dividem o transporte público, quem serão os/as “premiados/as” que não se safarão? Pela estratificação social e pelas pesquisas, certamente será a população negra.

Nas falas que selecionei a seguir, vemos claramente o exercício da masculinidade branca e tóxica, que não geram benefícios ou vantagens para quase ninguém, nem mesmo aos homens brancos, mas, para saberem disso, é necessária uma reflexão maior. Escrevi mais sobre esse tema neste texto.

“Pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria acometido, quando muito, de uma gripezinha ou resfriadinho, como bem disse aquele conhecido médico, daquela conhecida televisão” – 24 de março de 2020.

Aqui, vemos que a masculinidade está presente na ideia do homem atleta, aventureiro, forte, muito celebrada na branquidade. É um corpo masculino que aguenta tudo, enfrenta qualquer barreira, é heroicizado. O cômico é que quem falou isso não corresponde a esses estereótipos. Contudo, eles são sim bastante celebrados em nossa sociedade patriarcal.

“É grave, é preocupante, mas não chega ao campo da histeria ou de uma comoção nacional. E é dessa forma que nós encararemos essa questão” – 19 de março de 2020

Escolhi essa frase, pois “histeria” é hoje utilizada como um termo pejorativo em relação a um comportamento que seria, em sua essência, feminino, já que a tal doença psíquica teria origem no útero. Aqui, vemos claramente a oposição entre masculinidade forte e feminilidade frágil, da razão versus a emoção. O homem tóxico não pode ter qualquer traço que remete ao feminino, bem como não pode esboçar qualquer emoção, qualquer sentimento.

 “Aquela história de atleta né, que o pessoal da imprensa vai para o deboche, mas quando pega num bundão de vocês a chance de sobreviver é bem menor. Só sabe fazer maldade, usar a caneta com maldade em grande parte” – 24 de agosto de 2020.

Bom, aqui o locutor deixou bem claro que, quando não se corresponde às características da masculinidade branca, se é um “bundão”. A todo momento ele precisa ressaltar o que ele é, e o pior: isso não é só uma retórica. São quase 500 mil pessoas que perderam suas vidas por conta da masculinidade branca.

Mas, como sempre, eu nunca fugi da verdade, eu te digo: eu não vou tomar vacina. E ponto final. Se alguém acha que a minha vida está em risco, o problema é meu. E ponto final” – 15 de dezembro de 2020

Nessas falas, vejo, mais uma vez, o corpo masculino levado ao limite. Para o homem forte, másculo, atleta etc., não é necessário cuidar da saúde de forma preventiva – isso seria algo para quem é fraco. Ao dizer que não irá vacinar, ele quer ratificar que não precisa, pois é machão, fortão. Aqui, no Brasil, não colou esse movimento anti vacina, que é até “bem fundamentado” nos EUA. Por aqui, vemos somente mais traços da masculinidade tóxica imperando, e levando os alienados consigo…

Se você virar super homem, se nascer barba em alguma mulher aí ou algum homem começar a falar fino, eles não têm nada a ver com isso. Ou, o que é pior, mexer no sistema imunológico das pessoas” – 17 de dezembro de 2020

Além das paranoias, ele deixa claro o absurdo que seria uma mulher ter barba, um homem não ter voz grossa… É inaceitável, para o homem tóxico, que as identidades de gêneros não correspondam aos sexos biológicos[12]. Afinal, corresponder ao ideário da masculinidade branca exige “muito” do homem, mas o concede vantagens e privilégios imensuráveis. Se não há essas correspondências na sociedade, ele sente que perde muitos desses privilégios, ainda que isso não se materialize.

Tem que deixar de ser um país de maricas – 10 de novembro de 2020

Bem, essa frase bestial, ao lado do “e daí”, acabou por resumir todo o caos pelo qual estamos passando, em nome dos caprichos e das paranoias de um homem que quer, a todo momento, corresponder à masculinidade tóxica, e não vê limitações para isso, nem mesmo quando ocupa o cargo máximo do serviço público brasileiro.

O homem gay afeminado é visto como uma aberração pela masculinidade tóxica, já que seria inamissível ter um corpo masculino e não saber usufruir das vantagens infinitas que ele concede, em uma sociedade fálica, misógina e patriarcal, na qual o homem é sempre visto como naturalmente e biologicamente superior.

O ódio à mulher e às características que eles julgam serem femininas é direcionado ao homem que as assumem. Para o homem negro e gay é ainda pior, pois o homem branco não consegue vê-lo de outra forma que não seja aquele que tem apetite sexual insaciável, que está sempre em busca de sexo com várias mulheres.

Com isso, vemos que a masculinidade branca, também dita hegemônica, não foi utilizada apenas como recurso ideológico de campanha. Desde o início de seu mandato, ele colocou em prática os terríveis desvios da masculinidade tóxica, por meio de ações, omissões, atitudes, palavras, demagogia, e o pior: conseguiu levar para esse caminho um seríssimo problema de saúde pública. A masculinidade, em sua forma de poder, é prejudicial às minorias, ao meio ambiente, aos animais, e aos próprios homens, já que poucos são aqueles que adquirem os privilégios e as vantagens inerentes a ela.

Bibliografia

VIVEROS, Mara Vigoya. As cores da masculinidade. Experiências internacionais e práticas de poder na Nossa América. Rio de Janeiro: Papéis Selvagens Edições, 2018.

CARNEIRO, Sueli. Enegrecer o feminismo: a situação da mulher negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero. In: Hollanda, Heloísa Buarque (org). Pensamento feminista – conceitos fundamentais, Rio de Janeiro, Bazar
do tempo, 2019.

COLLINS, Patricia Hill. O que é um nome? Mulherismo, Feminismo Negro e além
disso
. Cadernos Pagu, Campinas, 51, 2017.


[1] Há controversas sobre a utilização desse termo para designar o Feminismo Branco. Da mesma maneira, o feminismo negro e suas intelectuais vêm buscando outras formas de autodenominação, já que a palavra “feminismo” já remete ao movimento social e intelectual das mulheres brancas, de classe média, norte-americanas e europeias. Para maiores conhecimentos, ver: COLLINS, Patricia Hill. O que é um nome? Mulherismo, Feminismo Negro além disso. Cadernos Pagu, Campinas, 51, 2017.

[2] Ver Sojourner Truth: Ain’t I a Woman?

Aquele homem ali diz que as mulheres precisam ser ajudadas a entrar em carruagens, e erguidas para passar sobre valas e ter os melhores lugares em todas as partes. Ninguém nunca me ajudou a entrar em carruagens, a passar por cima de poças de lama ou me deu qualquer bom lugar! E não sou mulher? Olhem pra mim! Olhem pro meu braço! Tenho arado e plantado, e juntado em celeiros, e nenhum homem poderia me liderar! E não sou uma mulher? Posso trabalhar tanto quanto e comer tanto quanto um homem – quando consigo o que comer – e aguentar o chicote também! E não sou uma mulher? Dei à luz treze filhos, e vi a grande maioria ser vendida para a escravidão, e quando eu chorei com minha dor de mãe, ninguém, a não ser Jesus me ouviu! E não sou mulher? – Wikipedia, acesso em 30/05/2021.

[3] Ver Sueli Carneiro, 2019. Enegrecer o feminismo: a situação da mulher negra na américa latina a partir de uma perspectiva de gênero. In Hollanda, Heloísa Buarque (org). Pensamento feminista – conceitos fundamentais, Rio de Janeiro, Bazar do tempo, 2019.

[4] O massacre ocorrido na favela do Jacarezinho neste ano é bem emblemático e revela algo que é corriqueiro em nossa sociedade. Muitos jovens negros não passarão dos 18, 20 anos de idade; não estudarão, não constituirão família. São muitas vidas ceifadas devido ao racismo estrutural.

[5] Recuperado de: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2020-08/atlas-da-violencia-assassinatos-de-negros-crescem-115-em-10-anos. Acesso em 30/05/2021.

[6] Ver: Silvio Ameida (2018). Racismo Estrutural (Feminismos Plurais).

[7] É aquela ideia do racismo: a pessoa negra pode até existir, mas “no seu devido lugar”, de preferência em posição de subserviência às pessoas brancas.

[8] Ver mais em: Adilson Moreira (2019). Racismo Recreativo (Feminismos Plurais).

[9] Hill Collins, Davis, hooks também seguem essa linha.

[10] Ver mais em: Mbembe, 2018.

[11] Recuperado de https://polis.org.br/estudos/raca-e-covid-no-msp/ . Acesso em 30/05/2021.

[12] Ver mais em: Judith Butler (2003). Problemas de gênero: Feminismo e subversão da identidade.